Foi contra o Chelsea que as aspirações do SL Benfica de voltar a uma meia-final europeia esbarraram na época passada. Agora, é de novo contra a equipa inglesa que o emblema luso vai ajustar contas com o tempo. Bicampeões da Europa no momento mais alto da sua história, os encarnados não sabem o que é celebrar um título europeu há meio século. O duelo de Amesterdam é o atalho mais curto para voltar a aspirar sentir-se grande na Europa.
O Chelsea realizou o caminho inverso do FC Porto Juventus, as duas últimas equipas a vencer de forma consecutiva duas provas europeias distintas. Mas enquanto dragões e bianconeri começaram desde baixo - a Taça UEFA em 2003 para os de Mourinho e a Taça das Taças de 1984 para os de Trapattoni - os londrinos foram forçados a descer um escalão. Vencedores da Champions League, depois de uma década de milhões gastos na equipa e no staff técnico, os Blues foram vitimas de um grupo letal - com duas equipas que, curiosamente, não passaram das duas primeiras rondas a eliminar - e forçados a exibir os galões de campeões da Europa na segunda competição da UEFA.
Um trajecto similar, mas menos ruidoso, do Benfica.
Os portugueses tinham legitimas aspirações a reeditar a boa campanha da época anterior, terminada abruptamente nos quartos-de-final, mas foram incapazes de encontrar um antidoto para Celtic, Spartak e um Barcelona C, literalmente no último e decisivo duelo. A equipa encarnada voltou assim à Europe League, prova onde tinha sido semi-finalista em 2011. Havia uma sombra de humilhação nessa derrota com o Braga que os encarnados queriam afastar de uma só vez. Sem rivais temiveis e de uma forma autoritária, desenharam o seu caminho rumo à final, no mesmo cenário onde pela última vez ergueram um troféu europeu. A maldição de Guttman - exclusiva à Taça dos Campeões Europeus - ainda vai a meio, mas é significativo que tenham passado mais de vinte anos para o Benfica voltar a uma final. Talvez por isso a febre dos adeptos em conseguir um bilhete é mais justificada do que nunca. Mais do que uma geração não sabe o que é a tensão de uma final e por isso os bilhetes Benfica Chelsea se transformaram num passaporte para a glória. O habitual esquema da UEFA - sempre preocupado com os seus patrocinadores - levou a que apenas dez mil lugares sejam distribuidos a cada clube. As habituais filas multiplicaram-se, como uma procissão, em Stanford Bridge e na Luz, apesar de haver alternativas e ser possível que o adepto encarnado encontre os seus bilhetes na Ticketbis.
No relvado da Arena de Amesterdam, vão estar duas escolas bem diferentes.
O calculismo táctico de Rafa Benitez - um homem com dois troféus europeus à cabeça - frente à impetuosidade de Jorge Jesus. Um Benfica apostando nos seus velocistas, no talento e faro de golo de Lima, Gaitán e Cardozo, contra uma equipa inglesa construida de trás para a frente, onde Ramires e David Luiz terão a oportunidade de reunir-se com os seus velhos companheiros, apesar de que poucos sobram dessa equipa de 2010 que recuperou o título depois de cinco longos anos.
Mata, Oscar, Hazard e Lampard formam um meio-campo com talento e classe muito superior a qualquer dos jogadores encarnados nesse sector de campo. O Benfica vai procurar, como sempre, saltar o trâmite do miolo. Matic terá de vigilar muito bem as diagonais dos geniais criativos ingleses, mas estará quase sempre só. A bola nos seus pés durará segundos, os suficientes para encontrar os espaços nas costas da defesa do Chelsea, espaços que fazem parte desse adn veloz e incansável do ataque benfiquista. Será um duelo de eficácia onde o Chelsea perde, dentro da área. O estado de forma de Fernando Torres em Londres - e a ausência de Demba Ba - não está à altura da dupla Cardozo e Lima, uma das mais letais da história do futebol português. Por isso mesmo o Chelsea deve procurar gerir os tempos de jogo, manter a bola e encurtar o campo, se não quer ser surpreendido por uma formação com sede de glória.
Uma final para a posteridade entre dois campeões da Europa na segunda prova da UEFA. A última vez que algo assim sucedeu, em 2003, o triunfo sorriu à formação portuguesa. Um augúrio que nem o mais apaixonado dos adeptos encarnados desprezaria. Para eles, a história deve-lhes uma alegria depois de sentir-se encorralado pelo seu eterno rival entre a elite europeia. Para o Chelsea é a melhor forma de provar que a eliminação na fase de grupos da Champions League foi um acidente de percurso e que os Blues estarão, para o ano, de novo a disputar um troféu a que os encarnados sabem que dificilmente poderão voltar a aspirar.

