Tem os dias contados. Quando a UEFA encontrar a fórmula de criar uma superliga europeia capaz de satisfazer os egos e as contas bancárias dos clubes europeus, a Europe League inevitavelmente acabará. Até lá é uma competição cada vez menos importante no calendário internacional mas que significa muito para quem a vence. Uma prova ambígua, onde ganhar permite levá-la até aos píncaros da glória e perdê-la, pura e simplesmente, não é mais do que um trâmite desportivo sem importância.
Para os adeptos do SL Benfica a noite de ontem foi memorável.
Pela primeira vez desde 1990 o clube encarnado vai estar presente numa final europeia. Até essa data, os encarnados eram o clube português com mais triunfos europeus (dois), finais disputadas e coleccionavam admiradores em toda a Europa. Era a geração de Erikson, a ponte entre a equipa que moldou entre 1982 e 1984 - onde dominou de forma espantosa o futebol português - e que perdeu a final da Taça UEFA com o Anderlecth. A ponte para uma nova geração, inicialmente consagrada por Toni na corrida à final de Estugarda e que, dois anos depois, aguentou o todo-poderoso AC Milan em Viena, perdendo apenas por um golpe de inspiração de Rijkaard. Esse Benfica acabou pouco depois.
Desde então, a equipa venceu quatro títulos nacionais e nunca mais esteve perto sequer de uma final europeia. A única ocasião, em 2011, foi humilhantemente derrotado por um Sporting de Braga sem qualquer tradição europeia e que seguia no campeonato nacional na luta pelo terceiro lugar com o Sporting. Os bracarenses foram derrotados em Dublin pela equipa que ocupou o lugar do Benfica como dominador nacional e representante internacional do nosso futebol. O FC Porto disputou, entre 1984 e 2013, cinco finais europeias. Perdeu a primeira, venceu as quatro restantes (a que juntou uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais), duplicando o número de títulos internacionais dos encarnados. A nível interno venceu 14 títulos, com dois ciclos de cinco e quatro anos consecutivos. Mais ainda, os troféus foram repartidos entre a Taça dos Campeões Europeus/Champions League e a Taça UEFA/Europe League. Os primeiros não mereciam discussão. Afinal, a prova rainha do futebol europeu é o torneio internacional de clubes mais respeitado do mundo. Não há forma de o encarar como algo que não a consagração de um grande projecto. Com a segunda prova da UEFA foi diferente. Em 2003 e 2011 o triunfo surgiu em anos de domínio avassalador internamente (vitórias na liga e na taça) e no entanto comentadores e adeptos de clubes rivais procuraram empequenecer o triunfo, precisamente, por ser uma competição secundária. Se vencerem o Chelsea, os adeptos encarnados correrão seguramente o mesmo destino. Porque esta é uma competição que permite sempre uma dupla leitura, tendo em conta o lado de onde se parte.
Esse fenómeno não é um exclusivo português.
Há países onde a competição gera quase um desprezo. Itália, Alemanha, França e Inglaterra são ligas que não se preocupam minimanente com a prova. É habitual ver as equipas presentes desses países apresentarem as segundas figuras em vésperas de jogos de liga mais complicados. Os italianos, que dominaram a prova enquanto não havia o formato actual da Champions League, têm nas meias-finais da Fiorentina e da Lazio, em 2003 e 2008, os seus melhores resultados numa década. No mesmo período, venceram três Champions League. Os alemães não são diferentes. A nata do seu futebol disputa a prova rainha da europa e os restantes clubes preocupam-se mais com a exigência da Bundesliga do que com os rivais da Europe League. A final do ambicioso Werder Bremen, em 2010, foi uma excepção absoluta. Nenhuma equipa alemã se preocupa com esta competição. Os franceses pensam o mesmo. Por um lado, a sua crónica incapacidade de competir nos palcos europeus dá uma certa justificação ao seu desprezo, mas na prática os gauleses raramente se preocupam em chegar às fases definitivas da competição. Os ingleses pensam da mesma forma, particularmente porque dominavam até à bem pouco a Champions League.
Na passada época, quando os dois gigantes de Manchester - que disputavam o título da Premier taco a taco - foram eliminados por Sporting e Athletic Bilbao, não houve queixas dos adeptos nem criticas da imprensa. Todos sabiam que a prova era um empecilho. Só os modestos Fulham e Middlesborough procuraram na Europe League o reconhecimento que nunca poderia vir da prova nacional. Este ano foi sensivelmente diferente. Por um lado o Tottenham de Villas-Boas afirmou-se publicamente como candidato. Por outro, o Chelsea, campeão europeu, tornou-se favorito no primeiro instante que se viu eliminado da Champions League. Mas em ambos os casos ninguém duvida que o objectivo real da época é acabar nos lugares de acesso à Champions League. Foi essa corrida ao ouro que acabou com as aspirações dos Spurs - com um plantel demasiado curto - e que pode condicionar a forma como o Chelsea jogue em Amesterdão. Com o Arsenal livre de compromissos, não há um só ponto que não seja vital na liga inglesa e para Abramovich não há Europe League que salve uma época fora do top quatro.
Sendo assim, torna-se evidente que a Europe League se tornou um torneio para metade da Europa. A Europa pobre. Os clubes gregos, turcos, suíços e holandeses procuram aqui os momentos de glória que sabem que a Champions nunca lhes dará. Russos e ucranianos, ainda incapazes de competir com a elite europeia - apesar do dinheiro investido - tentam lamber as feridas nesta competição. Os espanhóis, a viver a sua era dourada, encontraram não só no Sevilla e Athletic Bilbao, mas também Valencia, Levante e Athletic Bilbao clubes desejosos de levantar o troféu. Esse interesse genuíno deu prestigio a uma prova abandonada. Uma prova onde o futebol português se sente cómodo porque raramente tem rivais à sua altura. O Benfica é o quarto clube português em chegar á final numa década. Não é um feito memorável, não cria uma nova tendência. É simplesmente a continuidade da afirmação internacional de Portugal como um dos líderes da segunda divisão europeia.
Ao contrário de 2003 e 2011, com as vitórias do FC Porto, o Benfica não começou a temporada na competição. A sua presença em Amesterdam - como a do Chelsea - é um símbolo do seu falhanço em competir com a elite continental na Champions League. Num grupo absolutamente acessível, o Benfica foi incapaz de eliminar o Celtic e de vencer o pior Barcelona C da história das provas europeias. O modelo de Jorge Jesus, em todo o seu aspecto primitivo, continua a não ser suficiente para ombrear com os maiores clubes continentais mas encontra-se como peixe na água contra a segunda e terceira linha do continente europeu. A campanha encarnada foi memorável, com goleadas e um jogo ofensivo extremamente atractivo, mas eliminando praticamente rivais que não sabem o que é competir ao mais alto nível europeu. Com o Chelsea terão o seu primeiro teste sério. Se vencerem, como sucedeu com os adeptos portistas, a Europe League significará muito mais do que realmente vale, uma espécie de confirmação das aspirações europeias que distam muito da realidade do futebol europeu, como o FC Porto sentiu no ano seguinte na Champions. Se perderem, a prova valerá pouco menos do que vale realmente porque os objectivos principais, em teoria, são outros. Passe o que passar, a importância da Europe League continua a ser um fenómeno variável, espelho de uma competição europeia que entrou em profunda decadência desde que a Champions League engoliu o futebol europeu.

