Segunda-feira, 8 de Abril de 2013

Dezoito clubes. Quantos deles com a corda ao pescoço? Quantos deles com salários em atraso? Quantos deles com dividas incomportáveis? Quantos deles com bancadas vazias nos jogos em casa? Quantos deles com meio autocarro de apoio nos jogos fora? Quantos deles com jogadores estrangeiros de terceiro nível e um sistema de formação abandonado? Dezoito clubes. A solução que encontraram para resolver uma injustiça desportiva e um erro de legal. Mas nada que possa resolver os problemas estruturais do futebol português.

O Boavista tem as portas escancaradas para voltar á elite do futebol português.

Ironicamente, ou talvez não, no fim-de-semana que se seguiu à aprovação pela Liga de Clubes da repesca dos axadrezados, a equipa perdeu o seu duelo com o Desportivo de Chaves. Um duelo na II Divisão B, uma divisão onde o clube do Bessa nunca venceu neste seu hiato pelo futebol das divisões secundárias. Diz muito do estado actual da vida do quinto grande, do quinto campeão do futebol em Portugal. Sem a ratificação da Federação Portuguesa de Futebol e com os créditos financeiros de inscrição por pagar, ainda não é certo que o futebol português volte a contar com todos os seus campeões na sua primeira divisão. Mas o cenário nunca esteve tão perto de suceder desde que a equipa do Porto foi utilizada como bode-espiatório de um dos maiores escândalos consumados do futebol luso.

Depois de muito barulho à volta do Apito Dourado, não houve forma de provar, nos tribunais, o que as escutas posteriormente divulgadas deixaram claro à opinião pública. Para os mais precavidos, o que tinha sido divulgado nesse longo e penoso processo estava longe de ser uma novidade e como escutas posteriores comprovaram, algo exclusivo dos clubes imputados. Como o futebol português está, como sempre esteve, corrupto até à medula, a sensação de polémica soava a falso e como tal, também a suspeita de que um clube do prestigio do FC Porto podia ser realmente penalizado. Se o fizessem, tarde ou cedo, os restantes campeões seguiriam o mesmo caminho, a fruta e o café com leite eram coisa de muitos. O Boavista, no entanto, mal gerido desde que João Loureiro tomou as rendas da herança de Valentim Loureiro, foi a presa ideal para quem queria sangue. Um clube campeão com polémica, um clube onde o dinheiro entrava e desaparecia a uma velocidade assustadora, um clube com uma base de apoiantes relativamente pequena para poder gerir o mesmo tipo de revolta social que implicaria punir outro clube. O Boavista pagou o preço de estar no sitio errado à hora errada. E daí o descalabro.

O clube podia ter sido despromovido e voltado dois anos depois à elite se tivesse sido gerido com correcção. Mas não foi. A queda no precipício deixou a nu todos os problemas reais do clube que nada tinham a ver com a polémica do Apito Dourado, por muito que dirigentes e adeptos tenham tido razão quando se queixaram de tratamento especial para outras instituições. O Boavista caiu injustamente mas não se soube levantar, e afundou-se mais, por culpa exclusivamente sua.

 

E no entanto, a justiça assim o exige.

Depois de quase cinco anos sem o demonstrar em campo, o Boavista poderá voltar a saborear as grandes noites de futebol num dos mais belos estádios do futebol português. A aprovação de uma liga a 18 - num ano em que regressa também o Belenenses à elite - devolve o futebol português para o mesmo cenário onde estava quando o Apito Dourado surgiu nas capas dos jornais.

São dezoito equipas demasiadas para um país como Portugal, com uma liga onde a esmagadora maioria dos seus clubes são incapazes de cumprir com os mais básicos compromissos exigidos a uma instituição desportiva. Nos últimos anos vimos problemas para pagar salários em clubes ao nível de FC Porto, Sporting e Benfica. Nos últimos anos entre avisos de greve, a clubes que desapareceram do mapa e emblemas despromovidos por falhar os seus compromissos, o futebol português transformou-se numa jangada onde se morre de sede e de fome.

O caso da União Leiria na época passada foi o culminar de uma realidade que já se sentia em vésperas do Euro 2004. O desaparecimento de clubes como Salgueiros, Farense, Estrela da Amadora era algo sintomático do estado real do futebol português. As horas de agonia de históricos como o Belenenses, Vitória de Setúbal, Académica e Vitória de Guimarães tocaram o próprio esqueleto de base do desporto lusitano. A Liga Sagres transformou-se numa competição onde na mesma jornada competiam entre si jogadores que levavam meses sem cobrar o seu salário. Uma competição onde a dependência dos empréstimos e favores de fundos e empresários eram fundamentais para sobreviver. Quando as conexões extra-desportivas acabavam, os clubes tremiam, e caíam.

Os pequenos emblemas que subiam da II Liga cheios de esperança voltavam rapidamente para o ponto de partida sem nada que ganhar. Passou com Trofense, Leixões ou Feirense, apenas para citar os casos mais pontuais. Enquanto projectos como o Paços de Ferreira encontraram coerência na sua gestão desportiva e clubes como o Rio Ave se entregaram à benção de patronos poderosos, os restantes limitam-se a sobreviver. São dezasseis. Faz sentido juntar mais dois ao mesmo cenário?

Pode o futebol português ganhar algo com uma liga a dezoito?

Estarão os estádios mais cheios? Os contratos televisivos valerão mais? Haverá mais jogadores jovens portugueses de futuro nesses projectos? A competição será mais emotiva? Os clubes grandes deixaram de passar temporadas inteiras sem perder um só jogo? Será que duas equipas a mais vão significar tanto para a liga lusitana? Ou será, pelo contrário, que serão duas novas bocas para alimentar, dois novos estádios vazios, dois novos planteis repletos de jogadores sem nível e sem dinheiro nos bolsos?

 

Um país como Portugal - que vive, pensa e respira a pensar apenas no trio de clubes grandes que compõe o 99% do coração dos adeptos e o interesse dos media - poderia ter uma liga de oito equipas que ninguém realmente se importaria. Essa é a crua realidade. Essa hegemonia asfixiante dos grandes já matou o futebol do interior, já matou o futebol dos pequenos clubes das grandes cidades e já matou a formação do futebol português. Se uma liga a dezoito fosse a resposta para essa ditadura, então venha ela. Mas não o será. Como não o é uma liga a dezasseis, a catorze ou sequer a doze. O futebol português tem um problema muito mais sério e grave para resolver que o número de equipas da sua liga principal. Enquanto esse problema não for resolvido o resto é apenas folclore. Nada mais do que folclore.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 20:44 | link do post

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