Quarta-feira, 20 de Março de 2013

José Mourinho quebrou o seu silêncio selectivo para dar uma entrevista à RTP que é como quem dá a possibilidade aos amigos de lucrarem com palavras que semana atrás semana se recusa a prenunciar onde deve, na sala de conferências de imprensa do clube que lhe paga 12 milhões de euros ao ano. E fê-lo para, entre outras coisas, denunciar a corrupção que está por detrás do Ballon D´Or. O mesmo prémio que em 2010, quando venceu a primeira edição, não pareceu ter nenhum problema. O mesmo prémio que, ano após ano, treinadores, jogadores, jornalistas e público em geral se sentem determinados a dar uma importância que, no fundo, não tem.

Vicente del Bosque venceu o Ballon D´Or ao Melhor Treinador de 2012.

Ganhou-o com mais de 10% dos votos do segundo, José Mourinho, o vencedor inaugural do prémio e 29% mais do que Josep Guardiola, a quem sucedeu no palmarés. Venceu-o com o voto maioritário de seleccionadores e jornalistas, mas não dos capitães que preferiram a figura de Mourinho. A gala foi a 7 de Janeiro de 2013. Mais de dois meses depois aparece Mourinho, qual vencido despeitado, anunciando que foi o seu conhecimento da existência de fraude nas votações que o levou a não marcar presença na gala (ao contrário de Cristiano Ronaldo, também português, também do Real Madrid, também segundo nas votações). Está no seu direito.

Os factos parecem dar-lhe razão. Paulo Duarte, seu velho amigo e antigo jogador nos seus tempos de técnico da União de Leiria, confessou que não teve oportunidade de votar porque o formulário lhe chegou para lá da data limite de voto. Uma situação comum a países como a Guiné-Bissau ou Costa de Marfim, nações que, a julgar pelo lido, votariam em Mourinho para vencer o prémio. O técnico português fala ainda de personalidades que lhe terão ligado falando na existência de boletins de voto alterados. Uma vez mais, os seleccionadores da Zâmbia e Zimbabwe queixaram-se na imprensa local que os nomes que aparecem na lista oficial da FIFA não se correspondem com as suas votações, um deles referindo até que nunca chegou a ver o formulário de foto e que alguém terá votado por ele.

Curiosamente, os amigos de Mourinho permanecem em silêncio e seguramente continuarão calados porque comprar uma guerra contra a FIFA é, habitualmente, meio caminho para ter uma carreira curta e sem grandes oportunidades. A velha raposa chamada Blatter raramente esquece estes insultos à sua honra, se é que lhe sobra alguma para mostrar ao público depois de todos os escândalos dos últimos quinze anos de presidência. Parece ser perfeitamente possível dizer que houve irregularidades e fraude nas votações do Ballon D´Or. E quê?

 

O que mais supreende - ou talvez não - nas declarações de José Mourinho é a sua percepção que os erros acontecem exclusivamente no ano em que perde.

Em 2010, quando venceu o prémio - também contra Del Bosque, então recém-consagrado campeão do Mundo pela selecção espanhola - o técnico português subiu exaltante ao palco, celebrou, dedicou o prémio e nunca se lembrou de rever a lista de votações para confirmar se faltava algum país, não fossem eles ter votado noutro técnico. Como tantas vezes sucede nas acusações aos comités de arbitragem, as palavras surgiram apenas depois de uma derrota. Não lhe retira a razão mas sim a moral de falar quando, nos momentos de glória, tudo fica guardado num baú e escondido debaixo da cama para não chamar à atenção.

Parece-me claro que um prémio com estas caracteristicas tem tudo para ser alvo de fraude. Nada resta já do velho Ballon D´Or, um prémio de glamour mais do que reconhecimento real de talento. Ao abrir as votações, muito democraticamente, a todos os capitães, seleccionadores e correspondentes da France Football do mundo, a FIFA abre também a caixa de pandora. Em países onde a corrupção está oficialmente instalada, seguramente que os votos podiam ser comprados facilmente. Em estados que seguem apenas os máximos eventos desportivos, naturalmente que a votação está condicionada aos nomes mais emblemáticos. Na Etiópia, onde a Premier é seguida com devoção, Roberto Mancini coleccionou vários pontos que não se repetiram em nenhum outro país. Nos países hispânicos e lusófonos o índice de sucesso de Messi e Ronaldo foi proporcional à influência cultural de cada um e o seleccionador espanhol, perdão, chinês, não teve problemas em votar em dois técnicos e três jogadores do seu país referindo-se ao jornal Marca como algo normal porque há sempre que votar nos seus.

O que nos leva a perguntar sobre o valor real que possa ter um prémio que se transformou num concurso de popularidade nos últimos três anos, um concurso fechado nos nomes mais simbólicos do futebol internacional, distante da ideologia inicial de um prémio que não teve problemas em celebrar os êxitos de Sivori, Masopust, Albert, Blokhin, Simonsen, Belanov, Owen e Cannavaro quando havia jogadores muito mais completos em activo, os mesmos que hoje estão destinados a vencer como condição sine qua non. O Ballon D´Or deixou de ter o prestigio e o respeito de quem via algo original e distinto na atribuição do prémio da France Football, consciente que num desporto colectivo a entronização pessoal faz sempre pouco sentido.

 

As queixas de Mourinho deixam-no, uma vez mais, nú e só ante uma das máximas entidades do jogo. Depois de ter desafiado a UEFA com a sua lista de erros arbitrais, agora o técnico português lança um dardo envenenado à FIFA a propósito do seu prémio mediático comprado a peso de ouro à família L´Equipe-France Football. O treinador do Real Madrid pode perfeitamente queixar-se em ambos os casos, até porque os momentos concretos arbitrais que cita, bem com os erros nas votações, são reais. Mas esquecer-se das mesmas particularidades quando saiu vencedor, tanto em provas europeias (Old Trafford, 2004; San Siro, 2010; quem sabe se Old Trafford, 2013 também) como na atribuição do primeiro Ballon D´Or ao melhor técnico da história apenas deixam reflectida uma pálida e triste imagem de um treinador genial consumido cada vez mais pela sombra da sua própria persona.



Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar

22 comentários:
De Christ a 22 de Março de 2013 às 15:59
A carícia de Navarro impediam o Cristiano se escrever 3 nomes num papel?
Impediam-no de, pelo telefone ou por e-mail indicar a alguém da selecção as suas escolhas?

Não queiramos inventar desculpas, foi um truquezito, um esquema à "tuga" e só lhe ficou mal.

Quanto ao assunto em questão, Miguel e agora o que diz de Pandev? Quem lhe terá encomendado a mentira? Promessa de transferência no final da época?


De Miguel Lourenço Pereira a 22 de Março de 2013 às 20:47
Christ,

Estás a partir do principio que eu estou a escrever isto porque acho que o Mourinho foi roubado?

Porque eu quero lá saber. Sinceramente, acho que o prémio foi muito, muito bem entregue e que nem entendo o segundo lugar do Mourinho na tabela. E quando o escrevi nem sequer sabia do caso do Pandeev.

Por certo, ele diz que a assinatura não é dele. Não sei se continua nesta guerrinha com a FIFA porque lhe apetece, algo que só traz problemas, mas não vejo um mero jogador montar assim um espectáculo sobre assinaturas sem algo de fundo. É possível que a troca tenha sido feita pela própria federação e a FIFA não tenha a minima ideia também.

O que eu quero, e volto a referir, é que este prémio, tal como está feito, tem credibilidade zero e sim, a manobra de Ronaldo foi muito patética!


De Christ a 23 de Março de 2013 às 22:43
Não estou a partir de princípio nenhum estava apenas a perguntar-lhe a sua opinião.

Mas já agora pergunto-lhe outra coisa: tendo em conta que os votos só foram divulgados no dia da gala, como poderia o Pandev ter sabido que o voto dele aparecia errado com a antecedência suficiente para poder avisar Mourinho que por sua vez decidiria não ir á gala?
Pois é, Mourinho esqueceu-se desse pormenor quando engendrou a sua mentira.


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Março de 2013 às 00:16
Christ,

Não me parece nenhuma mentira. Já ficou confirmado que a assinatura de Pandev não corresponde com a sua. Pode ser um erro da própria federação, alheio à FIFA. Pode ser. Mas os erros nas votações dos países africanos (alguns deles a favor do próprio Del Bosque) demonstra uma incompetência gritante.

Quanto ao resto, não é verdade que os votos sejam conhecidos apenas no dia da gala. Os clubes sabem habitualmente quem vence e quem perde e conhecem mais ou menos a margem de diferença. Sempre aconteceu isso em todos os prémios da FIFA, mesmo antes da fusão com o Ballon D´Or. Muitos decidem se vão ou não baseado nesse principio. Mourinho não sabia só que havia pessoas que não tinham podido votar (como o Norton de Matos e o Paulo Duarte) como ao contar o número de votos que teria - e que seguramente teve acesso depois do fecho da votação - fez as contas e foi confirmar com quem tinha confiança. Não foi o primeiro nem o último a fazê-lo.

Dito isto, acho o Ballon D´Or, nestes moldes, um prémio ridiculo. Mourinho não teria ganho nem se tivessem sido aldrabados 50 votos, face à diferença de pontuação com Del Bosque (que também perdeu votos pelo caminho, como os da Guiné Equatorial) mas o que ficou claro no meio disto tudo é que não há qualquer credibilidade possível a um prémio tão mal organizado. E quem quer que ganhe para o próximo ano estará, seguramente, debaixo de escrutinio desde o principio!


De Christ a 24 de Março de 2013 às 12:23
O Miguel pode tentar dar muitas voltas ao texto mas não foi isso que eu disse nem isso que Mourinho e Pandev disseram.

O Mourinho disse que lhe ligaram antes da gala a dizer que o voto apareceu noutro, o Pandev disse que ligou ao Mourinho depois de ver que o voto dele aparecia noutro.

As listas de votos foram disponibilizadas no dia da gala apenas, logo eles mentem! É tão claro como água.

De resto, Mourinho podia ter feito uma série de sondagens, Mourinho pode ter recebido 50 telefonemas de pessoas a dizer que não tinham conseguido votar, o que não poderia nunca era ter recebido telefonemas de alguém a dizer que na lista o voto estava noutro porque essa lista só veio a público no dia da gala e depois até da entrega dos prémios.
Mente com todos os dentes que tem, como é seu hánito aliás. Quem não se lembra do caso Rui Jorge?


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Março de 2013 às 15:04
Christ,

Pode achar que Mourinho, Pandeev, Paulo Duarte e companhia mentem. Está no seu direito. Perfeitamente. Eu acho que não. Não acredito que as votações sejam fechadas e só conhecidas no dia da gala. Não acontece isso com nenhuma votação de nenhum prémio, não vai ser diferente o Ballon D´Or. Cada clube tem os seus informadores e não imagino que se monte um pulso com a própria FIFA - não é propriamente o Greenpeace - baseado em mentiras.

Dito isso, repetindo-me mil vezes, para mim o Mourinho não foi à gala porque perdeu, não porque houve fraude. E mesmo sem fraude, teria perdido da mesma forma. O problema de personalidades como Mourinho, com o seu caracter conflictivo, é que as pessoas ou acreditam piamente em tudo o que faz ou não acreditam absolutamente em nada do que faz. Portanto descobrir a verdade será sempre complicado.

Para o Christ é mais uma mentira, para mim é uma verdade não absoluta (e que os factos podem provar que estou enganado). A única diferença é que eu, sem ter o poder do conhecimento dos factos em primeira mão dou sempre o beneficio da dúvida. O Christ já tomou a sua decisão inequivocamente. Nada mais!


De Lagartaço a 24 de Março de 2013 às 23:38
Parabéns,
Até que enfim que alguém levanta esta questão. E não foi só o Pandev que lhe telefonou antes da gala da entrega dos prémios, foram segundo ele,mais que uma,duas ,três pessoas.
Os resultados da votação foram tornados públicos antes da cerimónia?
Já todos vimos o impresso de voto da Fifa.
Uma pergunta a todos os participantes nesta discussão: se quisessem alterar o sentido de voto do Pandev, mudavam as cruzes ou falsificavam a assinatura?
Ao fim destes anos todos, já temos a obrigação de conhecer o Mourinho com as suas grandezas e fraquezas.
Esteve quase para ser treinador do Sporting, não obrigado, prefiro a modéstia do Inácio e do Boloni.
Cumprimentos a todos


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