Branca. Limpa. Mourinho, no seu célebre discurso arbitral depois da polémica arbitragem de Wolfgang Stark no Real Madrid vs Barcelona de 2011, referiu-se assim à suposta vergonha que Josep Guardiola devia sentir sobre os seus títulos europeus. O técnico português não tinha, atrás de si, precisamente uma carreira imaculada mas a noite de Old Trafford passará para a posteridade como o jogo em que a UEFA calou definitivamente qualquer queixa futura do português. A melhor equipa ficou pelo caminho, a única equipa que quis seguir em frente ficou pelo caminho. E só um árbitro impediu um treble histórico do Manchester United.
Nani procura um alivio de Patrice Evra. A sua missão é e foi essa durante todo o jogo.
Receber, parar e ver a movimentação ofensiva de van Persie e Wellbeck, o apoio de Giggs e Cleverley. E passar, romper as linhas inexistentes no meio-camp do rival, criar superioridade. E marcar. O portugês realizou um movimento técnico perfeito para recuperar a bola, era para ela que olhava fixamente. E não viu Alvaro Arbeloa, o sargento preferencial de Mourinho, aparecer nas suas costas, procurando o corte desesperado para matar o contra-golpe desde a raiz. A chuteira chocou com Arbeloa, empurrou-ao ao chão, deixou-lhe uma marca nas costelas. E acabou com o sonho de Old Trafford, o teatro onde ontem se viveu um drama em tons de comédia patrocinado pela UEFA.
A expulsão de Nani - num lance totalmente fortuito que oscila entre a advertência e o amarelo - abriu caminho a um jogo novo. Que durou cinco minutos. Nada mais. Até esse instante, só havia uma equipa no terreno de jogo. No final desses cinco minutos voltou a existir apenas uma equipa em campo. Mas como o Real Madrid é uma equipa letal, quando encontra os espaços, os momentos de desajuste dos ingleses possibilitaram a Modric impor a sua lei, associar-se com Ozil, Higuain e Kaká, desferir um golpe mortal e criar o lance que acabou cirurgicamente nos pés de um Cristiano Ronaldo engolido pela emoção de dar o golpe de misericórdia aos adeptos que mais o admiram em todo o mundo.
Ronaldo fez um jogo fraquissimo, espelho da sua incapacidade emocional se encarar Old Trafford como um estádio rival. Tentou mas não soube ter clarividência mental, rematou demasiadas vezes, passou mal, movimentou-se pior. Mas marcou o golo do apuramento, que provavelmente é o único que as pessoas se irão lembrar em Maio. Não celebrou, pediu desculpa, provando ser um gentleman. Mas ontem não foi ele o elemento diferencial. Foi apenas o carrasco de uma sentença ditada previamente...Ovrebo, De Bleckcerke, Stark...Çakir?
O Real Madrid nunca mereceu seguir em frente. Atado totalmente pelo Manchester, foi uma equipa pequena e inofensiva.
Como era previsivel, sem os espaços para explorar, o ataque merengue tornou-se estéril e incapaz de associar-se para procurar espaços. Sem espaço parar correr, a imaginação não triunfou e o Manchester United tomou cedo controlo do jogo. Impôs o seu ritmo, colocou as peças de xadrez no sitio, abdicando da individualidade de Rooney pela velocidade e luta de Wellbeck e Nani, no apoio de um van Persie sempre em movimento. Giggs colocou-se à direita, engoliu Coentrão e assustou com o olhar o seu velho amigo Ronaldo, que desapareceu totalmente do jogo no primeiro-tempo. As oportunidades eram do Manchester, a bola do Madrid, o guião oposto que queria Mourinho que, de mãos sobre o tijolo de Old Trafford, olhava para a forma como Ferguson o ultrapassava outra vez tacticamente.
Mas o golo não apareceu, entre a exibição soberba de Diego Lopez e o génio crescente de Varane, e o segundo tempo parecia ser uma benção para os espanhóis, que já tinham deixado as malas feitas no balneário para voltar de cabeça baixa a casa. O goloo do Manchester, fruto do único erro de Varane e do enésimo disparate de Sérgio Ramos nesta época, deu uma margem de manobra superior aos ingleses que lidaram melhor ainda com a reação do Real. Mourinho já tinha sido forçado a abdicar de Di Maria, mas em vez de procurar ganhar o jogo com Modric, preferiu a vertigem com um Kaká sem forma. Á segunda não repetiu o mesmo erro, abdicou do amarelado Arbeloa e lançou Modric. Mas Nani já tinha recebido a bola, acertado em Arbeloa acabando expulso. E a balança tinha sido propositadamente desequilibrada.
Modric mudou o rosto do Real Madrid durante cinco minutos, tempo suficiente para marcar um golo memorável e organizar o jogo colectivo com a calma necessária para encontrar a circulação que abriu as portas à reviravolta. Depois, animicamente débeis, os espanhóis perderam outra vez o critério e a coragem e esconderam-se na sua área, procurando o seu jogo preferencial. E o Man Utd, mesmo com menos um, já com Rooney, Valencia e Young em campo, voltaram a dominar, a ganhar sempre a superioridade, a bascular o seu jogo à sua vontade. Apertando, tiveram oportunidades, mas falharam. E quando Sérgio Ramos cometeu penalty e Çakir não apitou, ficou claro que o drama tinha-se tornado em comédia, ou melhor, em pesadelo. O Real tinha encontrado a fórmula entre os que criticavam para eliminar uma equipa futebolisticamente muito superior.
No final, Ferguson perdeu a oportunidade única de igualar Paisley e um avergonhado Mourinho, tentou pedir desculpa aos adeptos dos quais quer ser treinador. Nenhum jogador espanhol festejou com o orgulho de uma noite histórica, nenhum jogador do Manchester chegou a casa tranquilo e o futebol europeu perdeu um grande espectáculo e ganhou mais uma polémica patrocinada por Platini, Villar e companhia.

