Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

Josep Guardiola é o treinador de futebol mais importante da última década do futebol. Mourinho é um vencedor nato e é capaz de replicar o seu modelo em microcosmos imensamente diferentes. Ferguson uma velha raposa, Klopp um treinador ambicioso e empolgante e Wenger um homem coerente e admirável. Mas Guardiola teve o condão de mudar a abordagem ao jogo e levá-lo a uma nova dimensão. A sua ausência no banco do Camp Nou foi maquilhada durante meses com resultados. Mas a qualidade de jogo e o vazio emocional dos últimos meses em Can Barça é evidente. O Barcelona pode ganhar por ter Lionel Messi, mas só pode encantar se estiver liderado por um génio como Guardiola.

 

É mais importante o artista ou o mentor?

Guardiola, no seu estilo habitual, para um pura honestidade para outros uma personagem de contos de fadas, sempre disse que para o Barcelona Messi era muito mais importante do que ele. E o argentino, que explodiu verdadeiramente durante o seu mandato, realmente continua a demonstrar ser capaz de marcar contra tudo e contra todos. Cada vez corre menos com a bola, cada vez empolga menos nos lances individuais, cada vez se abandona do espírito maradoniano com que se apresentou ao mundo para ser mais um do modelo Barça, capaz de ir buscar jogo à linha medular, de se perder entre os médios como um mais. E sobretudo de marcar, sobretudo, com um leve encostar de bola diante de um guarda-redes indefeso e abandonado. Falta-lhe a velocidade, a chispa e a inspiração das grandes noites. Talvez lhe falte Guardiola, como a todos os seus colegas.

Quando Pep chegou ao banco do Barcelona a equipa vinha da pior época em quase uma década, um 4º lugar doloroso, a mais de duas dezenas de pontos do rival, forçado a uma prévia de Champions para participar na prova que acabaria por ganhar. Rijkaard, um grande técnico, tinha preferido ser amigo dos jogadores a dirigi-los e pagou o preço da displicência. Ronaldinho, o génio superlativo do Barça do século XXI, entregou-se aos prazeres da noite e com ele Deco, Silvinho, Etoo e Messi pareciam destinados a seguir o mesmo rumo. Guardiola exigiu uma purificação do balneário. Livrou-se de todos (Etoo aguentou um ano mais) menos de um, a quem chamou de parte e lhe colocou a faca e o queijo na mão: ou seguir o exemplo do seu idolo e amigo Dinho ou transformar-se no melhor jogador do mundo. Messi escolheu a segunda opção e um ano depois tinha merecidamente o Mundo a seus pés. Guardiola nunca se confiou plenamente e mandou vir Milito para seguir o pequeno astro para todos os lados, era o seu guarda-costas emocional. Mandou seguir alguns jogadores, especialmente Piqué, consciente de que velhos vícios podiam voltar com novos e jovens flamantes protótipos de estrelas. Mudou o discurso institucional do clube, recuperou os sinais de identidade do cruyffismo, com o próprio Johan à cabeça. E, mais importante do que tudo isso, redefiniu a forma de jogar da equipa. E levou-a a um patamar de excelência superlativa.

 

Guardiola foi treinador, presidente, líder espiritual, comunicador e génio táctico num só.

É uma figura irrepetível na história do futebol e o seu vazio seria sempre imenso. Guardiola era, sobretudo, um filósofo do jogo, mas um filósofo pragmático. Acreditava na teoria da prova por erro. Tentou com Ibrahimovic recriar a ideia do avançado centro mas acabou por preferir Messi no seu lugar. Trouxe consigo Villa para dar mais velocidade e mobilidade ao ataque onde ao lado do argentino jogava um jovem com ordem para ser dispensado no Barcelona B, um tal de Pedro. Atrás de Xavi e Iniesta, actores secundários para Rijkaard, colocou o suplente do médio titular dessa equipa B - então na terceira divisão - filho do seu colega de equipa do Dream Team, Busquets. Confiou a defesa a Valdés e Puyol, com quem jogou, mas também aos erráticos mas geniais Alves e Piqué e sofreu na pele o drama humano do imenso Abidal durante mais de dois anos. Enganou-se em algumas contratações (Chygrinski, Henrique, Ibrahimovic, Afellay, Alexis), falhou tacticamente em alguns momentos, apostou como nenhum outro treinador desde van Gaal na formação do clube e decidiu que ganhando ou perdendo, a equipa o faria com uma ideia de futebol na cabeça.

A bola saía de Valdés (e quão poucos falam na sua anunciada saída) sempre jogável, nos pés dos defesas ou de Busquets. Nada de lançamentos largos, nem de livres transformados em remates longos e sem sentido. Os extremos colados nas bandas, os interiores realizando perpétuas diagonais, os laterais abrindo permitindo ao extremo tornar-se num avançado mais. Recuperou o sonho do falso 9 que desde Sindelaar e Hidgekuti faz parte da bíblia dos pensadores do futebol ofensivo da escola danubiana e defendeu a importância do rondo, da posse, da autoridade com a bola, mas uma autoridade ofensiva. A posse tinha de ter um sentido, tinha de ter a baliza como mira. Cada jogada devia ser acabada, com um passe para a baliza. Cada jogada devia contar porque cada perda deixava expostas as fragilidades de uma defesa que chegou a formar-se apenas com três jogadores. O seu primeiro ano foi perfeito.

A partir de aí a fórmula sofreu actualizações, nem todas elas funcionaram. Provou o 3-4-3, chegou ao 4-6-0 na final do Mundialito contra o Santos e voltou a ganhar títulos, mas nunca com essa frescura, imaginação e autoridade que exibiu no primeiro ano, ainda com Henry e Etoo a acompanhar Messi na história. Quando se foi embora, muitos disseram que eram os jogadores que faziam a diferença, como se não fossem os mesmos do final do rijkaardismo. Que Guardiola tinha-se transformado mais num problema do que numa solução. Que o seu radicalismo táctico era prejudicial para os interesses da equipa, sobretudo os de Messi, que gostava cada vez mais de sentir-se o eixo central dos movimentos dos restantes. E por isso, quando saiu, houve poucas lágrimas para quem tinha dado tanto ao clube. A presença do seu segundo Tito Vilanova dava a sensação ao mundo que o guardiolismo ficava, mas o clube entregou-se ao balneário. Perdeu o seu guru e confiou-se às estrelas.

 

E de repente o pontapé de baliza começou a ser feito em largo.

Os extremos desapareceram e o jogo fluia cada vez mais pelo corredor central, como se não tivesse alternativa. Os laterais tornaram-se ambiciosos mas já ninguém aparecia para lhes proteger as costas. Os médios atropelavam-se e as posses deixaram de ter sentido, de acabar em remate, para ser um perpetuo movimento circular em zonas centrais, inconsequentes e estéreis. A debacle do Real Madrid nas primeiras jornadas de Liga - depois de vencer a Supertaça com superioridade - permitiu uma campanha imaculada, com números melhores que os de Guardiola. Messi marcava mais do que nunca e escondia os defeitos do colectivo, os problemas físicos, a péssima forma de Alexis, o ostracismo que Messi forçou a Villa (que tanta falta fez a Guardiola quando se lesionou no Japão), a fraca aposta na formação e às suas melhores promessas. A equipa vencia - salvo o seu rival directo - a todos os outros e parecia destinada a mais uma página de glória, mais um sexteto de titulos. Mas a filosofia começava a perder-se, o modelo de Guardiola, nas conferências de imprensa, no balneário, no relvado, ia desaparecendo progressivamente e começava a emergir a ditadura do balneário, jogando sempre os mesmos, o núcleo duro, fechando as portas a novas soluções porque o overbooking de médios estelares a isso obrigava. O problema que Guardiola via na chegada de Cesc tornou-se real, a equipa forjou um quase 4-2-2-2, com Busquets e Xavi diante da defesa, longe da área, Iniesta e Cesc sempre a meter direcção para o centro e Pedro/Alexis e Messi a deambular pela área mas sem procurar os espaços.

A doença de Tito, que esperemos que seja de rápida resolução, deixou essa realidade ainda mais a nu porque Roura, o homem que preparava os dvds a Guardiola, não é um treinador principal nem um homem capaz de liderar um balneário de vedetas. À distância, a liderança já questionada de Vilanova desapareceu e em campo a equipa entrou em mutismo táctico, incapaz de apresentar alternativas válidas aos problemas que as equipas lhes colocavam. Se Messi aparecia, tudo parecia igual, sem o estar. Mas quando o próprio Messi, obcecado consigo mesmo, decidiu que teria de jogar todos os 90 minutos do ano, para bater recordes, desapareceu, a equipa sentiu-se órfã.

O físico começou a passar factura - como na época anterior fez em Abril - e o argentino, que já tinha perdido o poder de desequilíbrio em velocidade quando as equipas começaram a perceber a melhor forma de o travar com constantes ajudas, secou e com ele toda a voragem ofensiva da equipa. Os números espantosos desapareceram e o Barcelona foi batido futebolisticamente por Milan e Real Madrid. Sofreu para ganhar a equipas menores como um Sevilla com reservas, e começaram a ouvir-se os primeiros assobios no Camp Nou. As dúvidas reapareceram. Messi, um génio incomensurável, começa a sofrer do mesmo mal que era criticado a Cristiano Ronaldo - a realizar o seu melhor ano individual - o de desaparecer nos jogos decisivos. No duelo contra o Madrid em Camp Nou no ano passado foi um fantasma de si mesmo e voltou a sê-lo contra o Chelsea, na dupla eliminatória. Desaparecido durante a Supertaça perdida contra o Real Madrid voltou a sê-lo na dupla eliminatória de Taça. E em Milão continuam à sua procura. Os seus registos melhoram, mas cada vez mais contra equipas secundárias, nos grandes duelos as equipas encontram forma de o anular e Messi ainda não parece ter devolvido o golpe. Talvez porque não está Guardiola, capaz de desenhar um plano para forçar a sua saída da jaula, dar-lhe o ar que necessita e devolver-lhe a confiança. Messi deixou-se prender numa jaula de ouro que ele próprio ajudou a construir à medida que se foi afastando do seu espaço natural e se envolveu no redemoinho de médios blaugrana.

 

A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. A liga está ganha, se não nos preocupamos em excesso com a matemática, e merecidamente porque ao contrário dos rivais, os blaugrana nunca falharam verdadeiramente. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. Mas se a equipa falhar o assalto a vencer a máxima prova europeia pelo segundo ano consecutivo, começa a ser necessário para aqueles que se revêem na fórmula intocável para seitas e obtusos de "melhor de todos os tempos", que se recordem que as equipas que realmente marcaram um antes e um depois na história da competição fizeram-no vencendo recorrentemente a competição, cinco vezes consecutiva no caso de uns (Real Madrid), três vezes no de outros (Ajax e Bayern Munchen) e até duas vezes (Liverpool e AC Milan). A este Barça falta-lhe essa consistência na vitória e se perder o troféu este ano ficará com o magro espólio de duas taças em meia década, algo que dista da imagem que deram nos relvados e ecoaram nas páginas escritas por todo o planeta futebol. Com Guardiola o caminho para o êxito fazia-se pensando, sobretudo, em si mesmos. Nas fragilidades do colectivo e como melhorar a forma de jogar e de as ultrapassar. Perdia-se (Sevilla, Inter, Madrid, Chelsea), mas com a cabeça alta e asfixiando o rival. Com Vilanova - e Roura, que passava por ali e não tem culpa do peso que lhe está a cair em cima - o Barça abdicou da essência guardiolesca, decidiu defender-se com a bola, rodear-se de artesões e esperar, esperar e esperar e como o físico não permite mais e a cabeça parece ter-se bloqueado, talvez hoje muitos dos adeptos do clube se tenham dado realmente conta do quão importante era para o projecto um génio chamado Guardiola.

 

PS: Eu defendo a liberdade de expressão de qualquer pessoa, mesmo que não esteja de acordo com nada do que diz. Faz parte da minha educação e dos meus valores. Se alguém quer acreditar e afirmar que 1+1 são 24, quem sou eu para lhe tirar essa alegria de viver num mundo particular? A seita que rodeia a cultura do Barça porque é cool e vanguardista presumir de saber tudo sobre a biblia blaugrana (quando no fundo nem sabem quem é Laureano Ruiz), continua a achar que 1+1 são 24. Que o Barcelona joga melhor que todos, que joga particularmente melhor que as equipas que o derrotam, que o sistema é perfeito e suficiente, que Messi nunca se engana e tem um mau mês...quem o diz está no seu direito absoluto. Que muitos defendam os seus pontos de vista a partir do insulto pessoal, simplesmente deixa a nú as suas carências, a diversos níveis, a cobardia do mundo virtual permite comportamentos que cara a cara seriam impensáveis. E este grupo no fundo é uma seita porque parte para um debate com a premissa "eu certo, tu errado; eu o bem, tu o mal" e isso, no fundo não é um debate, é um monólogo. Não conheço ninguém que não defenda que este Barcelona do último lustro é uma das melhores equipas de todos os tempos, e nos debates trocam-se opiniões que nos enriquecem a todos porque colectivamente, e eu o primeiro, cometemos sempre erros. Mas só quem vive na base do monólogo e do 1+1=24 é capaz de achar-se dono absoluto da razão. Felizmente a realidade acaba sempre por colocar a cada um no seu sítio e quando for cool e vanguardista mudar a cassete muitos irão fazê-lo porque na realidade, não é de futebol que gostam: é deles próprios!



Miguel Lourenço Pereira às 10:25 | link do post

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