Poucas figuras geram tanta admiração genuína no universo do futebol contemporâneo como Pep Guardiola. O filho mais popular da Masia, aquele que melhor entendeu uma mensagem de quase um século, que deambulou pela Europa até descansar em Barcelona, opta agora por voltar às origens. Guardiola é o grande sobrevivente da escola centro-europeia. Com o Bayern Munchen regressa à bacia do Danúbio, onde tudo começou.
Não foi propriamente em Munique, mas seguindo a corrente do Danúbio, que por ali passa perto, que o futebol europeu ganhou vida.
Os ensinamentos de Jimmy Hogan, a doutrina de Hugo Meisl, os debates nas casas de café de Viena, a multi-etnicidade do império austro-húngaro semeou as ideias que foram inicialmente forjadas na Escócia e que driblaram a escola inglesa para tornar-se no modelo continental por excelência. Das margens do Danúbio, essas ideias voaram para leste e mergulharam em Kiev e para oeste onde encontraram o paraíso em Amesterdam. Foi aí que se começou a gerar a paternidade do Barcelona actual, entre os ensinamentos de Michels e as lições aprendidas de Cruyff. Quando ambos chegaram a Barcelona, encontraram-se com Laureano Ruiz e tudo fez sentido uma vez mais.
Josep Guardiola tinha acabado de nascer e com ele uma nova forma de encarar o futebol.
Quando assumiu as rendas da equipa principal do Barcelona até a sua sombra desconfiava. Um primeiro jogo e uma derrota, frente ao Numancia, seriam a prova viva de que há vida para lá dos resultados imediatos. Guardiola meteu a mão no baú e recuperou não só a herança recente do cruyffismo, que a gestão pouco autoritária de Rijkaard tinha perdido, como foi mais atrás na história. Bebeu futebol como poucos, falou com os mentores, viu as imagens do passado e resgatou ideias que plasmou no seu caderno mágico. Com ele o Barcelona foi o Dream Team de Cruyff. Mas também foi o Barça das Cinco Copas, também foi o Ajax do Total Voetball, também foi a Aranyascap húngara, também foi o Brasil de 70, La Máquina do River e a herança do Wunderteam.
A cada toque de bola no meio-campo do Barcelona era a história que voltava à vida. Messi fez de Hidgekuti, de Pelé, de Di Stefano. A Xavi a bola acarinhava-o como fazia com Gerson ou Suarez e Sindelaar, Kubala e Rivelino transmutaram-se num jogador quase albino nascido nas profundezas manchegas chamado Iniesta. Esse trio mágico ajudou o Barcelona a posicionar a coluna vertebral do seu futebol correctamente depois de um período de caminhadas forçadas e curvadas de olhos no chão. Desafiou o Mundo primeiro e a posteridade depois. E venceu.
A chegada de Guardiola a Munique representa o regresso a essas origens, o ciclo que se completa.
Mas é também uma decisão com olhos postos no futuro. No mais imediato e no mais longínquo.
Pep sonha com ser o sucessor de Alex Ferguson em Old Trafford. É absolutamente normal. Não se trata só do clube mais bem organizado do Mundo como a cultura futebolística dos Red Devils não tem igual. Desde Busby que é um local de lenda absoluta e tem os meios financeiros para manter-se na elite. Uma formação que pode nutrir a equipa principal e uma geração que daqui a três anos chegará praticamente ao seu final. É aí que Ferguson quer dizer adeus. Ele adia desde 2002 a sua retirada mas sabe que não aguentará mais do que um triénio da máxima exigência. Falou com Guardiola várias vezes no último ano e prefere o seu perfil, educado, futebolisticamente culto e ambicioso ao de um José Mourinho de quem é, não obstante, amigo pessoal. Guardiola seria o gentleman que Busby sempre foi, mesmo nos momentos mais difíceis.
Mas até 2016 o génio de Guardiola tinha de voltar aos terrenos de jogo. Um ano sem um dos mais importantes pensadores recentes do futebol já é sofrimento suficiente. E claro, se sonhas treinar o Manchester United não ajuda ter no curriculum uma passagem recente por Manchester City ou Chelsea, para dar dois exemplos mais endinheirados, ou Arsenal e Liverpool, clubes cuja filosofia e a de Guardiola são similares.
Sem Inglaterra como destino, Guardiola tinha poucas opções. Mas ao contrário de outros, nunca foi um homem interessado no aspecto financeiro do jogo e a oferta do PSG, que alguns equacionam, foi rapidamente descartada. A do Milan também mas, por outro motivo. Em Itália Guardiola acabou a carreira de jogador e viveu os seus piores momentos. Foi acusado de doparse, declarou-se inocente e demorou meia década a prová-lo em tribunal. É um país que não traz as melhores recordações. E Berlusconi um homem que, apesar de tudo, não lhe inspira confiança.
E é aí que entra o Bayern Munchen.
Outros treinadores descartariam o Bayern porque não tem o mesmo glamour de outros clubes europeus. E no entanto poucas instituições venceram tanto na história como eles. Poucas instituições são tão bem geridas - desde a formação até ao departamento financeiro - como eles. Poucos clubes podem ambicionar manter-se na elite durante tantos anos sem com isso destruir o orçamento à base de compras milionárias, como eles. O Bayern Munchen é o herdeiro da escola centro-europeia e ao longo dos anos 70 demonstrou-o plenamente. Depois entrou numa espiral que o fez duvidar da sua própria natureza. A imprensa chamou-o Hollywood FC. Durante essa era dominaram a Bundesliga mas perderam prestigio na Europa. E aprenderam a lição. Desde há uma década que são, a par do Barcelona, o clube perfeito em vários níveis.
No Allianz Guardiola terá à sua disposição talvez o terceiro melhor plantel do mundo. Estão lá Neuer, Luis Gustavo, Javi Martinez, Schweinsteiger, Kroos, Ribery, Robenn, Shaquiri, Gomez, Lahm, Boateng, Badstuber, Dante e companhia. Tem uma formação repleta de promessas imensas como Emre Can. Tem um bloco sólido de directivos que conhecem o clube de lés a lés. E jogam na liga mais emocionante e em ascensão do futebol europeu. Não se pode pedir mais.
Com Guardiola ao leme o Bayern Munchen pode perfeitamente lograr o que van Gaal e Heynckhes não conseguiram. Já não se trata só de recuperar a hegemonia interna - em cinco anos três títulos nacionais são uma óptima média - mas também regressar à glória europeia. O plantel tem todas as condições para assimilar a filosofia de toque, posse e ambição do treinador catalão. Não é a cultura do kick-and-rush inglesa, não é um balneário cheio de prima-donas pagos a peso de ouro, é um clube com uma profunda cultura futebolística. A mesma que passeou-se do Danúbio até Barcelona, a mesma que se ensina na Masia com paixão. A mesma que Guardiola entende como mais ninguém!

