É curioso o sucesso que os treinadores portugueses parecem ter quando partem para outras paragens quando em casa, a verdade é que as suas limitações ficam bastante mais à vista. No duelo que decidirá, mais cedo que tarde, o título de campeão, ficou evidente que ambos os treinadores foram incapazes de apresentar um plano que decidisse no tabuleiro de xadrez a contenda de uma época. Sem o génio individual, o Benfica - Porto tornou-se num pálido reflexo do que um grande jogo de futebol pode ser.
No Verão o FC Porto vendeu Hulk para tapar o imenso buraco financeiro da sua SAD.
Não foi um negócio surpreendente. Na última década o clube da Invicta transformou-se numa plataforma de negócios anual. Todos os anos, quase sem excepção, a sua melhor individualidade é vendida a preço de ouro para reduzir o passivo. Como o dinheiro que entra (entre comissões a ser pagos, alienação progressiva de passes e compras de substitutos) quase nunca chega a cumprir o seu objectivo, muitos perguntam-se qual é a real motivação desses negócios. No final, face à evidência, fica claro que o clube tem tanta confiança na sua estrutura que está preparado a abdicar do poder individual para suster o espírito colectivo. Um espírito que parte de um modelo táctico bastante simples, um 4-3-3, que pode oscilar de processos de transições rápidas, como sucedeu na era Jesualdo Ferreira, a um futebol mais rendilhado e de posse, como aplicou André Vilas-Boas. O treinador actual dos dragões, Vitor Pereira, está a meio caminho. Por um lado gostaria de seguir a escola do seu antecessor no cargo mas a perda progressiva de qualidade do plantel e a falta de alternativas têm-no forçado a um estilo de jogo mais pragmático.
Pereira não é um treinador que tenha no seu ADN a palavra risco.
Não só na aposta em jogadores jovens, sem experiência, mas, sobretudo, porque para ele o 4-3-3 é de tal forma sagrado que numa visita ao seu rival directo é capaz de transformar num médio centro num extremo direito apenas para manter o desenho no tapete verde. O FC Porto de José Mourinho conquistou o Mundo, entre outras coisas, porque mudava num estalar de dedos de um 4-3-3 agressivo a um 4-4-2 em forma de diamante de contenção e controlo. Fosse Vitor Pereira capaz de o fazer e o Benfica teria sido destroçado no jogo da Luz. Se com três jogadores a supremacia no meio-campo já era evidente, com quatro, os dragões forçariam o rival a um futebol mais directo. Claro que Defour não é nem James nem Deco, para fazer a ponte entre o ataque e o meio-campo. Como Izmailov, que podia ocupar o papel, tinha duas sessões de treino, seria um risco, mas um risco controlado. Pereira não gosta de riscos.
Quando se encontrou com o empate, agradeceu, colocou Castro e Ba a cimentar a posição defensiva, abdicou do ataque e esperou pelo relógio, sempre bom conselheiro. Podia ter conseguido um balão de oxigénio importante na luta pelo título mas acabou por contentar-se com manter-se em igualdade de circunstâncias (apesar de ter um jogo menos, que tem de vencer), e uma fidelidade absoluta à cartilha.
A venda de Hulk tirou poder de fogo ao FC Porto, poder de decisão, especialmente quando as coisas corriam mal.
Já as saídas de Witsel e Javi Garcia tiveram um impacto muito inferior no modelo de jogo do Benfica. As equipas de Jorge Jesus vivem noutra era, são dos dias da televisão a preto e branco, um período da história táctica em que o meio-campo se começou a definir como elemento nuclear no plano de jogo. Jesus está antes dessa evolução. Para ele o futebol é um desporto frenético, como os primeiros 20 minutos de jogo.
Foi assim no seu ano de campeão, uma equipa de tracção à frente mas que contra rivais directos sofria. E muito. Porque não tinha meio-campo ou, pelo menos, um meio-campo de trabalho e construção. A Europa tem sido a vara de medir do futebol de Jesus e ano após ano tem também exposto as suas fragilidades. Apesar de tentar variar entre o 4-3-3 e o 4-2-4, é na abordagem que o técnico mais perde. Não confia nos seus jogadores mais criativos e prefere os mais rápidos, os mais eficazes e aqueles que fazem do pulmão, antes da cabeça, a sua principal arma.
Sairam Witsel e Javi Garcia, entraram Enzo Perez e Matic, e o modelo não mudou porque a troca por troca, na maioria dos jogos, é entre a defesa e o ataque que joga o Benfica. E jogo de uma forma directa, com dois extremos bem abertos, com dois avançados móveis (habitualmente Lima e Rodrigo), que alargam o campo, permitem a incorporação dos laterais e dos médios, sobretudo a partir de lançamentos rápidos e directos para a grande área. Um dispositivo que funciona perfeitamente com equipas que apostam, quase invariavelmente, num 4-5-1 profundamente defensivo mas que na primeira hora do duelo frente ao FC Porto fica exposto totalmente a uma equipa com mais jogadores no miolo e mais paciência na circulação.
Depois da sequência de erros sucessivos que levam ao 2-2, o meio-campo do FC Porto engoliu previsivelmente o do Benfica.
Faltou-lhe a coragem e capacidade de fazer sangue, a aproximação de linhas na área rival enquanto o jogo encarnado se resumia a lançamentos largos para Cardozo que procurava ganhar a segunda bola no ar para Lima e Gaitan surpreenderem as costas de Fernando. Muito pouco para quem aspira a tanto e no entanto foi suficiente para manter os dragões sobre guarda. Sabiam-se sem falta de alternativas no banco e mantiveram-se fieis ao modelo. Um quarto médio tinha acabado com o jogo definitivamente, asfixiado totalmente o rival. No banco Jesus tinha Aimar e Carlos Martins, jogadores que sabem precisamente fazer isso. Só quando os lançou, e abandonou o seu futebol directo, o jogo se reequilibrou e o Benfica criou perigo realmente a Helton. Ao querer a bola nos pés dos seus jogadores, quis ganhar o jogo. Mas ia tarde. O 4-3-3 do FC Porto não só serve para controlar bem o meio-campo mas também para tapar as investidas rivais e o resultado final tornou-se absolutamente inevitável.
No único jogo de uma Liga Sagres cada vez menos atractiva, ficaram evidentes as limitações tácticas dos seus dois protagonistas no banco. É muito provável que a segunda volta, no Dragão, apresente uma abordagem distinta. Até lá é improvável que se acumulem os tropeções e o risco terá de ser maior. Só aí se verá se o coelho escondido na cartola de Jorge Jesus, mais proclive a preparar jogos de forma improvável, pode perturbar o esquema sólido de um Vitor Pereira que espera contar com o elemento diferencial que transforma o seu modelo numa máquina de vencer, o colombiano James Rodriguez.

