Em Vila do Conde vivem-se momentos de euforia contida. No primeiro ano da era pós-Carlos Brito, a equipa comporta-se melhor do que muitos imaginavam e chega à paragem natalícia a disputar os lugares europeus. Mas por detrás, nas entranhas da vida do clube, uma figura começa a destacar-se sobre todas as outras, um nome que põe e dispõe do clube para o seu beneficio particular. A pouco e pouco o Rio Ave transformou-se no clube de futebol do empresário mais poderoso do Mundo, um casamento que funciona para o bem e para o mal!
Carlos Brito decidiu não seguir.
Sabia o que aí vinha e não estava disposto a ser mais uma peça de uma alavanca bem oleada. Já o tinha sofrido nos seus anos do Bessa e não iria repetir o erro. O Rio Ave que ele queria distanciava, e muito, do clube que Jorge Mendes queria. O empresário chegava em força e com ele a sua política desportiva. A colocação cirúrgica de jogadores seus e do seu grupo de colegas que fazem parte dos fundos onde ele é conselheiro ou sócio seria uma etapa mais na vida do clube dos pescadores. No Verão o Rio Ave adquiriu o promissor Fabinho lateral direito suplente do Fluminense, apenas para empresta-lo ao Real Madrid que, por sua vez, o colocou a rodar no Castilla.
O processo não era novo, Mendes já o tinha feito utilizando o Sporting B, o Real Madrid e o Castilla com Pedro Mendes, um defesa que levantou muita polémica em Espanha quando Mourinho, sem vergonha na cara, o utilizou num jogo de Champions League em Amesterdão quando o central nem sequer jogava no filial. O importante era valorizar o passe do jogador, pagar o favor e fazer de Mendes uma peça mais apetecível no cartaz do empresário mais bem sucedido do mundo.
Pedro Mendes hoje é um futebolista tão obscuro como era antes da sua passagem por Madrid e ninguém duvida que o mesmo passará com Fabinho. Mas o Rio Ave, o clube que o comprou e emprestou, seguramente ganhará pouco com a sua experiência. Mas também, não é para isso que o clube serve os interesses de Mendes. Em troca de servir como clube ponte, algo que os fundos de empresários necessitam cada vez mais, o clube recebeu jogadores do empresário que, noutra situação, seriam incomportáveis. O último de uma larga, larga lista, é Bebé.
O caso Bebé sacudiu Inglaterra e levou o prestigiado The Guardian a realizar uma suculenta reportagem sobre os negócios da Gestifute.
O jogador que Ferguson nunca viu jogar mas que pagou 7 milhões por ele ao Vitória de Guimarães é o exemplo perfeito de como funciona Mendes. Obviamente em Old Trafford passou ao lado de uma grande carreira e acabou por juntar-se ao Bessiktas, juntamente com o Deportivo, Zaragoza e Atlético de Madrid, outro clube da confiança do empresário. Aí, entre lesões e incapacidade crónica, foi-se perdendo até que agora volta a ser colocado no novo posto de exibição.
Para coordenar o projecto nada melhor que o primeiro homem de Mendes, o seu primeiro negócio, o seu primeiro amigo, o seu primeiro caso de sucesso. Com Nuno Espirito Santo o empresário da noite de Guimarães transformou-se em empresário de futebolistas e começou a desenhar o seu espantoso império. Mendes é um self made men puro, um génio na arte de negociar, capaz de superar preconceitos com talento e com uma capacidade de omnipresença espantosa até mesmo para um mundo onde os escrúpulos contam muito pouco. Nuno foi o seu primeiro negócio, abriu a sua rede de confiança e agora é o seu homem forte no clube vila-condense. No seu primeiro ano de treinador conta com recursos pouco habituais para o clube. E tem o mérito de os fazer funcionar. O Rio Ave está em postos europeus e pratica um futebol, para a média nacional, interessante.
Bebé vai juntar-se a Ukra, Ederson, Oblak, Filipe Augusto, Esmael, Filipe Souza, Obadeye, Del Valle, jogadores do empresário ou colocados no clube pela sua rede, que ajudam a reforçar um plantel de por si muito curto. O entreposto comercial em que se tornou o Rio Ave tem sido um processo lento mas extremamente bem organizado. Jogadores queixam-se de não ter oportunidades por terem outros agentes, velhas glórias do clube sentem a sombra de Mendes demasiado omnipresente e se os resultados desportivos dão a entender que o projecto tem pernas para seguir, há quem tema, e com razão, que a constante mudança de jogadores, para ir valorizando passes e colocando jovens estrangeiros, no final acabe por pagar factura. Para os rivais é também um problema. A Gestifute compra os jogadores e coloca-os nos clubes que, muitas vezes, nem arcam com a ficha salarial, gerando uma clara situação de concorrência desleal com clubes sem relações de afiliação com redes de empresários. Os resultados desportivos, sobre esse prisma, podem acabar por ter uma triste dupla leitura.
Não há na Gestifute uma ambição em transformar o Rio Ave num grande português, mas a presença em provas europeias do clube pode ajudar ainda mais a valorizar os passes dos jogadores adquiridos ou representados pela agência. É o objectivo principal de um clube que perde a pouco e pouco a sua natureza local para se tornar no enésimo clube entreposto comercial de fundos, às vezes a única solução para competir ao mais alto nível num universo onde o mercado dita as ordens e os valores valem cada vez menos.

