Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2012

A crise transformou o mercado de Inverno naquilo que realmente ele deve ser, um período de ligeiros ajustes a projectos que deveriam ser definidos e preparados nos largos meses de Verão. A falta de dinheiro congelou os grandes negócios e obrigou os clubes a fazer o trabalho de casa com tempo. Ninguém espera nenhuma bomba, até porque de certa forma, as confederações nacionais há muito que transformaram esta janela de transferências mais num fait-divers para a imprensa do que um momento importante para os clubes.

 

Salvo a chegada de Lucas Moura a Paris, num negócio que foi acertado em Agosto mas que só agora se concretiza por exigência do clube vendedor, o São Paulo, ninguém espera que um nome sonante faça mover tanto dinheiro no mercado que abre no dia 1 e se prolonga até ao final de Janeiro.

Os saldos nas lojas transformaram-se de certa forma nos saldos nos escritórios dos clubes onde se contam os tostões de forma muito mais cuidada e racional. 45 milhões de euros pagou o Paris Saint-Germain ao clube paulista. Valores que estão totalmente desfasados do mercado actual e do próprio valor do extremo brasileiro. Haverá sempre clubes que dão cor e vida ao mercado, por situações muito particulares. Mas são cada vez menos.

Os clubes que querem comprar encontram-se, demasiadas vezes, com as respostas negativas dos vendedores, influenciados pela revalorização em baixa do preço dos jogadores e com a falta de opções para o resto do curso. Há uma boa dezenas de jogadores que esperam definir o seu futuro que está longe do clube actual, mas os negócios serão poucos e por valores quase simbólicos. A UEFA e a FIFA, de certa forma, ao permitirem a janela de Janeiro, quando se regularizou de forma definitiva o mercado, abriram um período que foi, no passado, activo e definidor de alguns projectos que pareciam seguir por um caminho negro. Foi o caso do Sporting em 2000, que incorporou três nomes (André Cruz, César Prates e Mpenza) que se revelaram fundamentais para a conquista de um título que escapa há muito. O mesmo passou com o Real Madrid em 2007, que com Higuain, Marcelo e Gago encontrou oxigénio para a reviravolta que impediu o tricampeonato do Barcelona de Rijkaard. Mas esses feitos passarão seguramente para a história como estrelas cadentes, com poucas repercussões futuras. À medida que a UEFA proibiu o uso de jogadores nas provas europeias que já tivessem actuado por outro clube (primeiro em todas as provas, depois apenas dentro das mesmas) o que provocou foi que os grandes clubes deixassem de trocar cromos nesta etapa e se virassem para nomes desconhecidos. Jovens promessas, jogadores para taparem algum ocasional buraco deixado por uma lesão prolongada e pouco mais. Os projectos aprenderam a definir-se no Verão.

 

Apenas dois casos pontuais ajudam a dar alguma cor a este mês de negócios pensados.

Por um lado o mercado sul-americano que ganha cada vez mais peso nas mesas de negociações e que força muitos dos clubes europeus a esperar largos meses entre a compra efectiva e a chegada do jogador. Enquanto a FIFA não regularizar de forma definitivo o calendário competitivo, essa realidade continuará a ser um quebra-cabeças. Danilo, com o FC Porto no ano passado, e Lucas Moura, este ano, são apenas dois dos muitos exemplos que se vêm multiplicando nas últimas temporadas, particularmente com um Brasil rejuvenescido e reforçado com um crescimento económico mais do que evidente.

O outro cenário, mais complexo, aborda os jogadores com problemas internos no balneário e que procuram uma via de escape e aqueles que, rejeitando-se a negociar contratos de renovação, se encontrariam livres em Julho. Problemas muito mais bicudos que os clubes têm tido extremas dificuldades em resolver. São os casos de Fernando Llorente - com o Bilbao - de Wesley Sneijder, que anda em guerra aberta com o Inter, dos ingleses Cole e Lampard e o fim da história de amor com o Chelsea ou de Kaká e Villa, mal amados em Madrid e Barcelona. Jogadores de perfil internacional que olham para o mercado e vêm poucas opções realistas. Ou porque não há dinheiro para pagar as exigências dos clubes (casos de Villa ou Llorente), ou porque a ficha salarial é desproporcional à real valia em campo do jogador (Kaká e Lampard) ou porque o clube comprador por excelência do mês, o PSG, ainda não se decidiu se Sneijder e Cole fazem realmente falta ao seu projecto estelar. 

Num ano que, além do mais, será marcado pela CAN em Fevereiro - outra aberração do calendário internacional - que privará muitos clubes de alguns dos seus melhores jogadores durante um largo mês, os clubes sabem que é de portas para dentro que terão de encontrar soluções e a aposta na formação parece ser uma clara evidência de que há algo que está a mudar na mentalidade das directivas. Um dos poucos sinais realmente positivos da conjuntura económica.

 

Em Portugal a situação assemelha-se à tendência internacional e a maioria dos clubes serão vendedores, sobretudo para ligas marginais, de forma a equilibrar as contas a final do ano. Os projectos de Benfica e Porto, em duelo directo, serão seguramente os mais activos no departamento de aquisições mas com os números financeiros no vermelho, até eles têm de aprender a olhar mais para dentro e menos para um mercado que, nestas alturas, como acontece com os saldos das lojas de roupa, muitas vezes acabam por vender gato por lebre.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:56 | link do post | comentar

4 comentários:
De Bruno Farinha a 27 de Dezembro de 2012 às 11:12
De Franceschi estava no sporting desde o início da época (veio a conselho do Materazzi). Quem entrou em Janeiro com André Cruz e Mpenza foi César Prates.


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Dezembro de 2012 às 12:02
Bruno,

César Prates, exactamente, bem lembrado! Está corregido!

um abraço


De Victor Hugo a 27 de Dezembro de 2012 às 19:22
Esta é uma coisa da qual não gosto, a desproporcionalidade do mercado sul-americano e europeu. No caso de Lucas (muito bom jogador mas ainda assim supervalorizado, e o meu São Paulo agradece), se revelou um grande negócio pros dois times, pois Lucas foi essencial na conquista da sul-americana e os franceses, bem, não andam tão necessitados assim de elenco, sem contar que terão um jovem muito mais motivado do que antes.
Porém, salvo raras exceções, o que se vê é clubes europeus desfalcando clubes sulamericanos em agosto, prejudicando o seu projeto de temporada, numa lógica que não se garante mais. Pois os sulamericanos estão emergindo economicamente e não precisam mais se sujeitar a isso como antes. Por isso acho que se deveria unificar o calendário, para um mercado mais justo, e para ambos, por que não?

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Dezembro de 2012 às 22:45
Victor Hugo,

Totalmente de acordo!


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