Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2012

De um problema sério, Michel Platini saca uma carta na manga e permite fazer esquecer uma crua realidade. A sua ideia de um Europeu para todo o continente, sem uma sede fixa, passou de ser uma mera farsa a realidade. O presidente da UEFA deixa o seu provável cartão de despedida (tudo indica que em 2020 seja presidente da FIFA) com uma ideia que existe, pura e simplesmente, para ocultar a incapacidade da UEFA de tomar pulso a uma prova que chegou a ter um prestigio único e que vai perdendo força a cada decisão que o francês toma.

 

Platini nunca venceu um Mundial. 

Em 1982 perdeu nas meias-finais por penaltis. Em 1986 não foi preciso chegar a tanto. Em ambas as ocasiões o vencedor foi a Alemanha. Mas seguramente que o gaulês teve a oportunidade de sentir o impacto que o torneio da FIFA teve na vida dos espanhóis e mexicanos que receberam 24 nações mundiais. Na importância para a sua economia, na melhoria de infra-estruturas, na cultura, na sociedade. Mesmo que lhe tenha passado desapercebida essa realidade no exterior, seguramente que Platini sabe o que significa organizar um torneio e ganhá-lo em casa.

Foi ele o capitão da selecção francesa que venceu o Euro 84, enchendo todos os estádios por onde passava, de Paris a Marseille. E foi ele quem geriu o comité organizador do Mundial de 1998 que a sua França também ganhou, criando uma maré única de apoio social a uma selecção multicultural. Essa vitória fez mais pela integração racial em França do que décadas de políticas governamentais. Seguramente que Platini sabe tudo isso. E no entanto não parece ter remorsos em ser o primeiro presidente da UEFA a destroçar essa bela herança. Essa festa colectiva que, desde 1980, é o Europeu.

Até então apenas as meias finais e final se disputavam num só país. Quando se decidiu ampliar a competição a oito equipas, em Itália, a experiência não trouxe o melhor futebol mas o impacto no público foi evidente, particularmente nos jogos da Azzura e a ideia de manter-se fiel a essa filosofia permitiu que adeptos de países europeus pudessem desfrutar o que a FIFA nunca lhes daria: um Mundial.

Quem viveu o Euro 2004 em Portugal sabe do que falo. Os suecos, os belgas, os holandeses, os austríacos, os suíços, os ucranianos e os polacos também. Entre todos seria impossível organizar um Campeonato do Mundo mas o Euro era a competição que trazia o futebol aos europeus a casa. As performances da equipa nacional podiam ser melhores ou piores mas o entusiasmo popular e o impacto real na economia e nas infra-estruturas desportivas, e não só, desses países, eram evidentes. E acabar tudo isso por uma ideia peregrina porquê?

Simplesmente, porque a UEFA perdeu a margem de manobra para organizar competições deste calibre sem abdicar das suas benesses. Se a FIFA mantém uma política similar mas tem todo o mundo por onde escolher, do Qatar à Rússia, da China ao Brasil, da Índia aos Estados Unidos, a Europa é bem mais pequena. E começa a perder a paciência com Platini e as suas políticas de interesses.

 

A UEFA acabou com o Europeu, no seu modelo actual, quando permitiu que o torneio de França, em 2016 (curiosamente a candidatura menos apreciada inicialmente pelos avalistas da UEFA), incluísse pela primeira vez 24 equipas. Não só porque inclui quase metade das federações europeias, o que significa uma perda de competitividade significativa. Também vai criar vários problemas logísticos, várias questões relativamente aos apuramentos (os melhores terceiros foram uma dor de cabeça monumental para a FIFA) e desvalorizar uma competição que, em termos competitivos, estava quase à altura de um Mundial.

Esta nova decisão acaba por matar, de forma definitiva, o seu espírito tradicional e popular e transforma o Euro num torneio de corporações de uma forma definitiva. Um torneio de consumidores, um torneio de hubs, um torneio de multinacionais, um torneio sem expressão, sem rosto, sem alegria no rosto dos adeptos que sentem que, por um mês, são o centro do Mundo.

A UEFA tinha de escolher entre manter a política actual e o futebol como fenómeno popular. 

Escolheu a primeira opção, a que permite manter o torneio entregue a cinco ou seis empresas que asfixiam os adeptos com anúncios, que ocupam a maioria dos lugares dos estádios para distribui-los entre amigos (que ás vezes nem aparecem), forçando os preços gerais para o público a atingir valores assustadores. As empresas que pagam o salário de Platini têm carta branca para fazer de 2020 o seu torneio. Doze ou treze cidades europeias, cidades de consumidores, vão receber, como um circo itinerante, um torneio sem expressão. Serão palcos preferenciais para aumentar o consumo.

Muito pouca gente, salvo um espectador de um Euro, visitaria Leiria, Donetsk, Sazlburg, Charleroi ou Norkoping como destino preferencial. Acabar com essa realidade para criar uma prova à volta das grandes praças mata essa natureza popular da prova e permite aumentar a margem de lucro. Porque se há alguém que está farto da UEFA é a Comissão Europeia e os seus governos. Fartos das suas exigências para a organização de torneios, fartos da sua atitude autoritária que permite durante a prova ter um controlo quase policial dos estados, que altera leis a seu favor, que saca um beneficio assustador da prova para deixar os gastos exclusivamente ao país ou países que o albergam. De tal forma que, desde que Platini chegou à UEFA, os grandes países lhe viraram as costas. Ninguém está disposto a entrar neste jogo que só acaba por favorecer a UEFA e os seus esbirros. Desde que o francês é presidente da UEFA só países periféricos lançaram a sua candidatura, salvo o caso francês (patrocinado directamente por si) e Itália, que precisa de um torneio internacional para remodelar o seu futebol. Todos os outros candidatos têm sido países pequenos e submissos à sua vontade. Nem Alemanha, nem Inglaterra, nem Espanha, nem sequer a Rússia se dispõem a jogar o seu jogo. Sabedor dessa realidade, incapaz de convencer nenhum destes estados a organizar o torneio de 2020 sob as suas exigências, o torneio da Europa tornou-se na farsa que esconde essa crua realidade.

Ao ser um torneio entre cidades, com estádios de elite, como se de uma Champions League de selecções se tratasse, as exigências da UEFA não são as mesmas mas os lucros são evidentes. É um aviso às federações que não o apoiam de que não são necessárias, é um estalo aos países pequenos, incapazes de suportar os contratos que beneficiam empresas patrocinadas e patrocinadoras da UEFA e é um insulto directo aos adeptos europeus.

 

Platini foi um grande jogador no terreno de jogo mas fora dele tem querido assumir o mesmo protagonismo que tinha no relvado, esquecendo-se que no futebol os dirigentes deviam actuar na sombra e a pensar no bem do jogo. O francês pensa sobretudo na sua carreira e na alegria dos patrocinadores oficiais das suas provas. O futebol, os adeptos e as tradições, para ele, tornaram-se um problema e não a sua principal preocupação. Em 2020 o futebol europeu disputará um torneio entre selecções. Não será um Euro. Será uma espécie de convenção multinacional entre aeroportos. Uma feira de turismo andante. Tudo menos um torneio de futebol. Nessa altura lembrem-se de Platini e agradeçam. O futebol será mais pobre mas quem está ao seu lado acabará muito mais rico.


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publicado por Miguel Lourenço Pereira às 20:21 | link do post | comentar

6 comentários:
De João Afonso a 7 de Dezembro de 2012 às 10:34
Lúcido e esclarecedor. Só falta mesmo mandar prender este francês tão pequenino em todos os aspetos.


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Dezembro de 2012 às 13:37
João,

Lamentavelmente, em vez de ser preso, vai ser promovido a presidente da FIFA.

um abraço


De Victor Hugo a 8 de Dezembro de 2012 às 16:48
Sem dúvida, o capitalismo estraga tudo. Tudo gira em torno do dinheiro, do lucro, e não do lazer, do esporte por si só. Se Midas transformava em ouro os objetos que tocava, o capitalismo retira o que há de precioso em tudo para ter seu próprio ouro e faz do objeto que tocou um monte de lixo. Afora as vantagens (também, se não tivessem...) que o capitalismo traz, ele é uma praga aonde chega, aonde põe a mão, aonde percebe fonte de lucros, e isso não só no futebol como nas artes também.

Abraços!


De Victor Hugo a 8 de Dezembro de 2012 às 16:48
Sem dúvida, o capitalismo estraga tudo. Tudo gira em torno do dinheiro, do lucro, e não do lazer, do esporte por si só. Se Midas transformava em ouro os objetos que tocava, o capitalismo retira o que há de precioso em tudo para ter seu próprio ouro e faz do objeto que tocou um monte de lixo. Afora as vantagens (também, se não tivessem...) que o capitalismo traz, ele é uma praga aonde chega, aonde põe a mão, aonde percebe fonte de lucros, e isso não só no futebol como nas artes também.

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Dezembro de 2012 às 19:24
Victor Hugo,

Sem duvida, a UEFA está a fazer com o futebol europeu em 10 anos o que a FIFA leva 30 a fazer com o futebol mundial!


De espanhol a 10 de Abril de 2013 às 11:06
joaquín (málaga).....¿lanza sospechas sobre platini?


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