Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012

Não vai haver City. Outra vez. Não vai haver Chelsea? Seguramente. No meio de tudo isto, uma certeza. O dinheiro é um atalho para o sucesso futebolístico mas nem todos os atalhos terminam bem. A falta de solvência futebolística dos "citizens" e o desnorte de um Chelsea em renovação deixam claro que investir milhões num clube nem sempre é o único caminho para o sucesso.

 

Podem os adeptos do City, com os irmãos Gallager à cabeça, queixar-se de fazer parte, pelo segundo ano consecutivo, do grupo da morte.

É verdade. Mas em ambos os casos, os ingleses chegavam com o maior orçamento, o mais caro plantel e a melhor colectânea de individualidades ofensivas possíveis e imaginárias. E não serviu para nada. A equipa voltou a despedir-se da Champions antes de Janeiro.

Na época passada foi a dupla Bayern Munchen e Napoli que se sentiu e fez sentir superior. O Villareal viveu um annus horribilis - acabou despromovido - e ficou claro que o grupo da morte não o era tanto. Esta época o Ajax medirá o apuramento para a Europe League, pela segunda época consecutiva, com o City. Os ingleses não vencerem nenhum jogo e em casa conseguiram apenas três empates. Nada mais. Muito pouco. Desesperadamente, muito pouco.

A culpa não irá morrer solteira, Mancini é consciente disso mesmo. Nem a vitória na Premier League - a primeira desde 1968 do clube azul de Manchester - será suficiente para aguentar o posto para lá de Junho. Especulam-se em nomes mas vive-se numa certeza. A hora do italiano pode chegar antes, mas nunca passará do defeso. O fracasso europeu a isso condena. Mancini voltou a apostar no seu lado mais conservador. Defesa de cinco, à italiana, com dois laterais que conhecem bem a dinâmica, e confiança num gesto individual capaz de fazer a diferença num leque onde se misturam Dzeko, Aguero, Nasri, Touré e Silva e a que se juntou ainda Tevez. Só Baloteli, incompreensivelmente, continuou de fora.

O sistema foi incapaz de lidar com Di Maria e os centrais e laterais atrapalharam-se no posicionamento na linha defensiva no lance que permitiu a Benzema aparecer, entre Kompany e Maicon, para fazer o golo inaugural do jogo. Ao City valeu-lhe, sobretudo, a incapacidade do clube merengue em fazer sangue com os rivais mais débeis. O 3-5-2 passou a 4-4-2, com Kolarov a subir na ala para encarar-se com Arbeloa, e o tabuleiro reequilibrou-se. Não chegou. O Real Madrid, a quem o empate bastava mas cuja vitória era fundamental se sonhasse com a liderança do grupo da morte, controlou os acontecimentos mas não pode encontrar forma de controlar o árbitro, Rochi, incapaz de ver três faltas consecutivas sobre Cristiano Ronaldo mas hábil o suficiente para encontrar no mergulho de Aguero motivos para um penalty e uma expulsão (já o primeiro cartão de Arbeloa tinha sido um erro, a falta era de Alonso). Com o empate chegou a tensão, o medo aos merengues - Varane e Albiol entraram para os lugares de Benzema e Di Maria - mas o City foi incapaz de transformar a superioridade no terreno em superioridade futebolística. Morreu a ideia, morreu a esperança e um ano mais os milhões investidos pela família do Dubai que revolucionou o clube foram insuficientes para comprar o bilhete mais valioso do ano. 

 

O Chelsea até cumpriu com o sonho do seu dono multimilionário, vencendo a Champions que se lhe tinha escapado tantas vezes.

Mas essa vitória, como ficou claro, pertenceu mais à vontade e garra de uam geração desesperada por justiça poética do que ao trabalho dos dois treinadores que comandaram o clube. Villas-Boas deixou os Blues à borda da eliminação nos oitavos. Di Matteo soube organizar as hostes e dar poder ao balneário para sofrerem o insofrivel no Camp Nou e acabaram por dobrar a vontade dos alemães do Bayern na sua própria casa. Mas a geração de Mourinho sentiu, com esse triunfo, que tinha cumprido a missão. Sem Drogba, com Lampard e Terry como actores cada vez mais secundários, o clube londrino entregou-se à juventude e promessa de Mata, Hazard, Marin, Moses, Sturridge, Oscar e Ramires. 

Uma geração que dará, seguramente, vários títulos aos Blues.

Está composta por alguns dos melhores e futuros melhores do Mundo. Mas é também uma geração sem liderança, sem um ponta-de-lança que trate o golo por tu e sem um médio defensivo que imponha a ordem e o respeito necessário num meio-campo defensivo demasiado débil. Se o grupo do City era o da morte, o do Chelsea não o era menos porque tal como o Dortmund, também o Shaktar Donetsk tem um projecto futebolistico sério e com ambições legitimas a surpreender os mais cépticos. 

Se contra os ucranianos faltou essa acutilância, contra os italianos da Juventus, renascidos para as grandes noites europeias, faltou futebol e liderança. Orfãos de tudo o que fez deles reis da Europa, o Chelsea foi uma sombra do que poderá vir a ser. E Di Matteo, o homem que cumpriu o sonho, não teve direito a reprise. Se os mineiros e os bianconeri pactuarem o previsível empate na última ronda, nem uma goleada histórica poderá salvar os londrinos, culpados dos seus próprios erros. Será a primeira vez que o campeão da Europa cai na fase de grupos, a primeira vez que é eliminado na primeira ronda desde que o Nottingham Forrest bateu, em 1979, o campeão Liverpool. 

 

O Chelsea sabe que tem material para o futuro onde falta apenas uma ideia de futebol e uma coerência na relação entre o campo e o banco. O City vive um problema maior. Um plantel profundamente desequilibrado, uma ausência de futebol colectivo que se vale do oportunismo individual dos seus génios, é um transatlântico governado por um pescador e até a época terminar o navio poderá cruzar-se com algum outro iceberg pelo caminho que deixem o trabalho dos últimos anos pelo chão. No final, Inglaterra, o país que há quatro anos dominava de forma autoritária o futebol europeu, continua em queda livre e só Arsenal e Manchester United parecem seguir em frente. E com uma versão muito menos impressionante em relação ao seu passado recente. Terão de salvar a honra da nação enquanto os seus potentados económicos terão, uma vez mais, de decidir se querem seguir o atalho do dinheiro ou o caminho do futebol.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar

8 comentários:
De Victor Hugo a 22 de Novembro de 2012 às 23:43
Belo texto!
Eu já sabia que isso aconteceria. O Chelsea de Abramovich não dá nenhum suporte a seus treinadores, não perdoa nenhuma falha, tratou Di Matteo como um simples funcionário de uma empresa (o que, em tese, ele até foi), mas não como um ídolo que ele é para os blues como jogador e, agora, também como técnico, por ter ganho o título mais importante da história do time. Mas não, perdeu alguns pontos já foi demitido. Bem disse Alan Pardew (que tem contrato até 2020 com o Newcastle) que os treinadores estão cada vez mais desvalorizados nos times. Quando o time ganha, mérito maior dos jogadores e menor do técnico, quando perde, demérito total do técnico, é assim que tem sido nesse futebol cada vez mais negócio e marketing do que esporte.
Quanto a Mancini, este sim já teve tempo de mostrar seu trabalho e mostrou não estar à altura do elenco que tem (do time, historicamente falando, está, pois o City é o time da moda, porém sempre foi pequeno). Mancini é do nível de uma Lázio talvez, time que já treinou e aonde foi bem.

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 23 de Novembro de 2012 às 00:01
Victor Hugo,

Sem dúvida, como disse bem, e com acidez, AVB, despedir um treinador em Stanford Bridge é como um dia no escritório. O Chelsea tinha potencial para ser muito mais do que o que é mas a sua fortaleza é também a sua perdição, Abramovich.
Quanto a Mancini, é um dos treinadores mais sobrevalorados do futebol moderno e ter um plantel e umas condições como as do City e apresentar tão pouco deveria ser motivo para reflectir.

um abraço


De JV a 23 de Novembro de 2012 às 10:12
É inacreditável como Mancini continua à frente do City.
Aquela primeira meia hora apostando nos 3 centrais, concendo o meio campo todo ao Real Madrid e deixando os homens da frente mover-se livremente foi uma catástrofe. Por muita sorte, não acabaram goleados nesses primeiros 30 minutos devido às escolhas do italiano. E pelas imagens que a realização do jogo transmitia, via-se um Mancini perdido e que apesar do alerta dos seus adjuntos para o que se estava a passar, parecia querer continuar a manter aquele sistema.
Concordo consigo que apesar de ter muitas estrelas este City continua a ser uma equipa desiquilibrada. E esta é uma das coisas que não gosto nestes clubes comprados por milionários. Chegam aos clubes contratam tudo o que querem por quantidades inacreditáveis de dinheiro e esperam resultados quase imediatos, quando não foi pensada e planeada uma estratura equilibrada e organizada para conseguir esses feitos.
Se é verdade que os adeptos ingleses são sem dúvidas os mais impressionates, por vezes também parecem ser os mais estúpidos. Durante todo o jogo ouviusse mais cânticos de apoio ao Mancini do que à própria equipa. Mas o futebol tem destas coisas, em que a razão é difícil de perceber.


Não vi o jogo do Chelsea por isso não faço qualquer tipo de comentário. Mas também me parece que mais tarde ou mais cedo esta nova geração de jogadores do Chelsea vai dar frutos deste que se consolide uma estrutura com um excelente treinador e com ideias compatíveis com o dono Russo.


De Miguel Lourenço Pereira a 23 de Novembro de 2012 às 12:55
JV,

Em relação ao Chelsea, já escrevi aqui, que este plantel é melhor em qualidade individual do que recebeu Mourinho, com a excepção de um Makele e um Drogba, um médio defensivo omnipresente e um avançado com espirito goleador. Há dinheiro e jogadores no mercado, sejam Falcao, Cavani ou Lewandowski que podem colmatar essa vaga ofensiva e no miolo ocorrem-se-me vários nomes, por isso esse não é realmente o problema. O que falta aos Blues é calma institucional e o contrato de 6 meses de Benitez também não ajuda.

Quanto ao City, totalmente de acordo. Aquela defesa de 5 foi um desastre completo com o jogo medular do Madrid a tomar as rédeas - pergunto-me o que teria feito Ozil com tanto espaço - e com as avançados merengues a moverem-se entre posições encontrando sempre clareiras livres. Mancini tem crédito porque os adeptos são agradecidos e sabem que se gastou muito dinheiro desde 2008 com Eriksen, Hughes e ele, mas só com o italiano chegou o título. Mas se este ano falhar a Premier, o seu destino está traçado.

um abraço


De JV a 23 de Novembro de 2012 às 15:16
Completamente de acordo. para mim, o contrato de 6 meses do Benitez é um sinal claro de que se as coisas não correrem bem no final da época, o Abramovich vai investir tudo o que pode em Guardiola ou em Mourinho. Em relação ao médio defensivo, e ainda que muito diferente do referido Makelele, agrada-me bastante Oriol Romeu, mas talvez ainda não esteja em condições de assumir o lugar com firmeza. Mas uma coisa é certa Mikel também não é jogador para esta equipa. Quanto ao avançado, pode ser que Benitez consiga trazer de volta o Torres do Liverpool.


De Miguel Lourenço Pereira a 23 de Novembro de 2012 às 15:19
JV,

O sonho de Abramovich é há muitos anos Guardiola. E o técnico catalão já disse várias vezes que até Fevereiro não se vai sentar a falar com ninguém. É esperto, quer ver o que está livre e que projectos a longo-prazo o podem seduzir. O Chelsea aposta forte mas Beguiristain, o seu braço direito no Camp Nou, está em Manchester e acredito que a escolha penda para aí.

Romeu é um bom projecto de médio mas um clube como o Chelsea precisa de ter um jogador de impacto imediato. Quanto a Torres, tenho as minhas dúvidas, perdeu parte da velocidade que o fazia letal e se o Chelsea jogar mais com a bola no pé, continuará a ser um estorvo mais do que uma solução.!

um abraço


De JV a 23 de Novembro de 2012 às 16:18
Sem dúvida. Guardiola foi muito inteligente em não escolher um projecto a meio da época. Poderia ser muito complicado para ele assumir agora um cargo sem tempo para aplicar os seus métodos, e do qual se esperariam resultados imediatos.
Também me parece que pode ser mais fácil a escolha pelo City, não só pelo Beguiristain, mas também por Ferran Soriano, director financeiro no Barça de Laporta, e agora CEO no Man City.

Como super fã do Guardiola tenho pena que vá para um deste clubes comprados por milionários, pois considero-os clubes sem alma em que o dinheiro (em muios casos "sujo") prevalece em relação a tudo o resto.

Preferia muito mais que escolhesse um histórico europeu, como por exemplo o Liverpool. No entanto parece-me que a posta em Bredan Rodgers é de longo prazo.

Em relação ao Torres, discordo. Talvez até mais pela via da intuição do que pela visão mais real e crua do jogador. Sempre gostei muito de Torres, e no Liverpool revelou uma qualidade fantástica. Ainda tenho a esperança que esse jogador volte, porque muito esporadicamente ele mostra porque já foi um dos melhores avançados do mundo. Ele é o exemplo perfeito de que a confiança num jogador é fundamental nas suas acções em campo.


De Miguel Lourenço Pereira a 23 de Novembro de 2012 às 16:24
JV,

Torres é um dos avançados da década, disso não tenho dúvidas. O que já não acredito é que tenha condições fisicas para explorar o seu jogo e capacidade para adaptar-se a outro, mais de killer de área.

Quanto a Pep, eu sempre o vi como sucessor de Wenger no Arsenal ou de Ferguson no Utd, mas só no primeiro caso vejo possibilidade de ser uma opção imediata porque Sir Alex não deve sair nos próximos 2 anos de Old Trafford. Sendo assim Pep tem de procurar algo e entre City, Milan, Arsenal e Chelsea, acho que há mais laços no City do que em qualquer outro clube.

um abraço


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