Depois de um sprint final que prometia ser intenso, acabou-se o suspense no Brasileirão e o Fluminense conquistou o seu quarto título nacional, o segundo em três anos, consolidando-se como um dos mais sólidos e bem sucedidos clubes do historial recente brasileiro. Apesar da pressão do "Galo" de Ronaldinho e a surpreendente etapa final do Grémio de Porto Alegre, o clube carioca resistiu a tudo e todos e carimbou mais um troféu, o terceiro em três anos.
Fred marcou, voltou a ser o protagonista, e fechou com chave de ouro uma época inesquecível para o Flu.
O goleador do campeonato brasileiro, que depois de uma etapa como emigrante intermitente voltou em grande ao país natal, foi o grande herói individual de uma equipa que Abel transformou num colectivo difícil de manobrar. O Fluminense foi a equipa mais regular da época e depois de um brilhante arranque soube gerir bem a sua vantagem e vencer a prova a três jogos do fim. Nem a derrota em Belo Horizonte, contra o Atlético Mineiro, colocou em cheque o título. No jogo do ano, os homens de Ronaldinho foram melhores mas o atraso já era considerável e os tropeções seguintes dos alvinegros facilitaram o título carioca. O empate contra o Vasco da Gama a um golo abriu as portas ao título do Fluminense. Que não enjeitou a possibilidade.
Abel Braga, um dos grandes históricos dos bancos brasileiros, soube trabalhar bem a herança da espantosa equipa de 2010, onde brilhava o argentino Dario Conca e começava a dar os primeiros passos Deco, fundamental na organização do meio-campo do clube do Rio. Pode já não ter pernas para aguentar o ritmo europeu, mas o luso-brasileiro continua a ser um dos jogadores mais importantes do futebol mundial e o seu papel no título dos cariocas não pode ser ignorado. Entre ele, Wellington Nem, Thiago Neves, Fred e as notáveis exibições do guarda-redes Diego Cavalieri, desenhou-se o sucesso individual de um colectivo muito mais forte que qualquer outro rival brasileiro.
Três derrotas em 35 jogos é algo espantoso na realidade brasileira, um campeonato extremamente competitivo e onde todos podem perder pontos em qualquer terreno. O Fluminense tem o melhor ataque, a melhor defesa e o melhor registo em jogos fora de portas (11 vitórias, pelas 6 do Grémio, por exemplo). Ninguém apresenta números similares na prova nos últimos anos.
O clube do Rio de Janeiro tem algo que falta aos seus rivais: solidez financeira.
É uma instituição bem gerida, com os salários em dia, que sabe mexer-se no mercado com habilidade e que mistura veteranos e jovens promessas com critério e paciência. Em 2010 venceram de forma clara o título e dois anos depois repetem a gesta com ainda maior naturalidade. A herança de Muricy Ramalho foi preservada por Abel Braga, que já tinha recentemente obrado a reconstrução do Internacional de Porto Alegre, e levada a outro extremo. Ninguém duvida que o Flu é um dos máximos candidatos a vencer a Libertadores do próximo ano.
O clube manterá a estrutura, a começar pelo técnico, e ninguém espera que veteranos como Deco e Fred saiam. No Brasil ninguém paga tão bem e a horas como o Fluminense, muito mais solvente actualmente do que históricos rivais cariocas como Flamengo ou Vasco da Gama, a pagarem o preço de gestão calamitosas na última década.
A vitória do Fluminense parecia evidente e só foi colocada em questão pela recuperação espantosa do Atlético Mineiro.
Liderado pelo regresso do grande jogador da última década, Ronaldinho, o Galo recuperou a pouco e pouco o atraso e no duelo entre os dois primeiros, o jogo do ano, venceu e encurtou distâncias permitindo aos adeptos sonhar com um campeonato histórico. A qualidade de Bernard, os golos de Jô e a liderança de "Dinho" pareciam condimentos únicos para uma receita de sucesso mas os líderes foram psicologicamente mais fortes e aguentaram o pulso e a distância nas jornadas seguintes não se voltou a encurtar. De tal forma que o Atlético Mineiro perdeu gás e foi apanhado pelo Grémio na tabela classificativa, outro clube que arrancou para um sprint final épico.
Num torneio que pode ficar marcado pela despromoção de outro grande, o Palmeiras, a vitória do Fluminense não só é mais evidente pelo excelente trabalho do Galo em aguentar o suspense do título quase até ao fim da prova. As próximas jornadas servirão para cumprir calendário e para Fred ampliar a sua lenda como goleador para Mano Menezes ver, ele que teima em não confiar no dianteiro carioca como opção para o ataque do escrete canarinho.
O triunfo do Fluminense permite estabelecer uma ponte com 2010 e afirmar, sem problemas, que estamos perante um domínio equivalente ao do São Paulo, no final da década passada. Estão em jogo todas as condições para o título se repetir nas próximas épocas e o próximo passo do clube carioca será restabelecer a importância do futebol brasileiro na máxima prova continental de clubes e marcar presença no Mundial de Clubes do próximo ano.