A exibição de autoridade do Shakhtar Donetsk frente aos campeões da Europa é a prova definitiva de que na Ucrânia se começa a acreditar que o clube laranja está cada vez mais próximo da elite continental. Depois de um arranque de época memorável, Mircea Lucescu encontrou a fórmula certa para emendar os erros da temporada passada na Europa. Este Shakhtar não só será responsável pela eliminação precoce de um favorito (Juventus ou Chelsea) mas também um candidato a surpresa da época nos palcos europeus.
Sem Jadson, muitos perspectivavam, este Shakhtar seria menos Shakhtar.
Afinal, o jogador brasileiro tinha sido alma e arte durante os últimos anos, protagonista absoluto das grandes noites dos homens de Lucescu e responsável dos seus piores resultados. Quando Jadson não aparecia, a equipa sofria demasiado. Agora, sem ele definitivamente, decido a provar em São Paulo a Mano Menezes que merece ir ao Mundial, os homens de laranja jogam como nunca.
Lucescu encontrou no seu 4-2-3-1 o equilíbrio necessário para criar uma equipa fiável a todos os níveis. As exibições internas não permitem avaliar o potencial real do clube. Em nono lugar no ranking UEFA, a liga ucraniana é uma competição pouco competitiva, dominada de uma forma ditatorial pelos jogadores de Donetsk na última década com relativa facilidade. Nem Dnierp, Kharkiv ou Metalurg têm conseguido dar o salto, de forma definitiva. E quanto ao Dynamo Kiev, em constante metamorfose, joga cada vez mais o nome do que que qualidade de onze com muitos talentos individuais mas pouca coesão colectiva. A derrota por 4-1 no duelo entre ambos deixou claro as diferenças. O Shakhtar disputou doze jornadas da liga. Venceu as doze. Tem doze pontos de avanço do segundo classificado e cada vez mais corre na imprensa local a anedota que só faltaria o clube ser campeão...a doze jornadas do fim, tal é a superioridade.
Mas a Europa continua a ser o problema, a afirmação definitiva de um clube que venceu a Europe League com autoridade, em 2009, mas que na Champions nunca logrou passar dos Quartos de Final. Frente ao Tottenham, primeiro, e na passada época num grupo surpreendente em que acabou no último lugar, depois de perder em casa com o FC Porto, as desilusões têm sido, de certa forma, o motor para Lucescu procurar renovar-se de forma constante. A derrota com os dragões foi a última em casa desde então. E o Chelsea sofreu na pele essa autoridade com que os homens de Donetsk encaram cada jogo diante dos seus.
Lucescu entregou ao arménio Mkhitarayan a batuta da equipa e este deu o passo em frente que o confirma como um dos melhores jogadores do continente europeu.
Aos 23 anos já ninguém duvida do seu tremendo potencial. Com Jadson no onze nunca encontrou o seu lugar. Actuava de interior e perdia a liberdade criativa que fez dele uma promessa aos 17 anos na liga arménia e chamou a atenção de vários olheiros europeus. A sua liderança no ataque é evidente e fundamental. Contra a Juventus superou Pirlo com facilidade no mano a mano que mantiveram pela posse de bola. Na última terça-feira deixou a Juan Mata, um dos protagonistas indiscutíveis do ano até ao momento, em má figura. O jogo foi dele. Deu e recebeu, distribuiu e rematou. Não fosse a exibição memorável de Petr Cech e a vitória podia ter sido maior, muito maior. E justa.
Com o arménio na posição 10, Lucescu fez rodar as tropas brasileiras que dão ao Shakhtar a criatividade absoluta que os transforma numa equipa diferente. Fernandinho foi gigantesco na ponte entre o ataque a defesa, deixando a Hubchsmann as tarefas mais defensivas, tapando as subidas constantes dos laterais, o incombustível Srna pela direita e o ucraniano Rat pela esquerda. No baile ofensivo, Mkhitarayan trocava de posição constantemente com o talento genuíno de um Willian que grita por reconhecimento internacional e Alex Teixeira, a enésima descoberta dos olheiros ucranianos, sempre hábeis a recrutar as surpresas que despontam no futebol brasileiro. Na frente, Luiz Adriano actuava como um nove capaz de jogar de costas para a baliza, movendo-se entre linhas, trocando posições com os colegas, destroçando uma defesa onde Ivanovic, Terry e Cole sofrem cada vez mais com rivais móveis, como se viu com o Atlético de Madrid na Supertaça Europeia.
Esse circulo rotativo de jogadores, que engoliam Obi Mikel e Lampard (Óscar depois), foi a grande arma da vitória ucraniana que com este triunfo se consagra como o grande favorito a carimbar primeiro o apuramento para a próxima fase. Sete pontos, aos quais se pode juntar uma vitória na Dinamarca, a chegar a dez, habitualmente os necessários para seguir em frente. Os 3 da Juventus, incapaz de vencer, e os 4 do Chelsea, parecem já distantes nestas contas e agora a ambição de Lucescu é dar definitivamente o salto. Por qualidade futebolística o Shakhtar é, actualmente, uma das oito equipas do futebol europeu. Com um banco de suplentes que inclui a Ilsinho, Eduardo, Devic, Dentinho, Douglas Costa, Gai e Chygrinski, a ambição é legitima.
A vitória do Shakhtar também deixou evidente que, apesar do brilhante inicio de temporada do Chelsea na Premier League, vencendo com autoridade os rivais que se lhe atravessam pelo caminho, é uma equipa em processo de reconstrução. A equipa ainda está incomoda a ter a iniciativa de jogo e a atacar para dar a volta ao marcador contra rivais que dominam muito melhor os distintos processos de jogo. O génio de Hazard, Mata, Óscar e Ramires é evidente da mesma forma que Torres continua a ser um handicaap, mais do que uma solução, mas o que Di Matteo terá de fazer é garantir uma maior autoridade com a bola nos pés ao mesmo tempo que mantém a solidez defensiva que se tornou trademark do clube e ajudou a vencer, definitivamente, a Champions que Abramovich tanto queria. A mesma com que sonham em Donetsk, um sonho ambicioso mas não tão irreal como se possa imaginar.

