Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012

A notícia de que o Liverpool não vai fazer as malas para Stanley Park é uma alegria profunda para todos aqueles que cresceram com certos nomes na cabeça que julgavam ser eterno. Anfield Road faz parte da mitologia do futebol. Poucos espaços fisicos têm a sua importância histórica e o seu ascendente moral. Que se perpetue no tempo, ainda que sob outra forma, permite continuar a sonhar com tempos pretéritos, outros universos futebolísticos. 

 

É inegável que o sucesso desportivo do Liverpool, ou melhor, a sua brutal ausências nas últimas décadas, provoca nos mais jovens certa indiferença quando Anfield Road surge na conversa. Não é um estádio que receba finais europeias, jogos internacionais épicos e sirva de inspiração para videojogos. Mesmo as tardes de Anfield, antigamente motivo suficiente para passar 90 minutos de suspense, têm-se perdido com a profunda mediania futebolistica que os Reds vivem desde 1990, salvo momentos muito pontuais e, infelizmente, passageiros. 

Mas Anfield Road é um dos muitos sinónimos que pode ter o futebol na sua essência mais pura. Desde a imagem da Kop, aos gritos em coro de You´ll Never Walk Alone, sem esquecer as suas portas e a estatua que comemora o seu grande ideólogo, Bill Shankly, o estádio do Liverpool evoca tudo o que futebol britânico teve de inesquecível durante largas décadas e que se perdeu entre estádios-hipermercados e os milhões investidos por cidadãos estrangeiros desejosos de comer uma fatia da tarta deliciosa que é o futebol inglês.

Se o Liverpool há largos anos está em mãos estrangeiras, não é menos certo que foi o único clube que resistiu realmente a essa abordagem comercial dos homens dos milhões. Manchester City e Arsenal construíram novas estádios, Old Trafford tornou-se num recinto de elites, com os preços descontrolados dos bilhetes, e mesmo Stanford Bridge e White Hart Lane têm-se tornado em problemas que os donos dos respectivos clubes procuram fintar com novos estádios que ainda não sairam do papel. 

Durante algum tempo pensava-se que o destino de Anfield seria o mesmo. Havia já destino futuro para os jogos em casa do Liverpool, em Stanley Park, e esboços para a nova casa Red. No entanto os adeptos do clube podem estar descansados. A directiva do Liverpool, a mesma que quer aplicar ao futebol inglês não a lógica dos petrodolares mas os ensinamentos do guru estatístico que inspirou o livro Moneyball, voltou atrás na ideia original e anunciou que preferem trabalhar numa remodelação sustentada do estádio, ampliando em 20 mil lugares a sua capacidade para o colocar mais perto da dimensão dos clubes rivais.

 

Anfield cresceu, como qualquer estádio inglês, de uma forma precária e descontrolada. Nos anos 50, com o clube a oscilar entre a First e a Second Division, sobreviveu ao aumento do número de assistentes com poucas reformas e nenhum plano de futuro. Foi esse o estádio que Shankly encontrou e foi esse o estádio que ajudou a fazer famoso, transformando as vozes beatlenianas da Kop num 12º jogador como não havia em nenhuma outra bancada mítica do futebol inglês. Mas aos sucessos desportivos dos anos 70 e 80 nunca seguiram as melhores que exigia um recinto sagrado destas dimensões, físicas e emocionais. Só os desastres, onde o clube esteve envolvido de forma indirecta, longe de sua casa, que levaram à elaboração do Taylor Report despertaram os directivos do clube. Já era um pouco tarde. À medida que o estádio dava um salto em frente, tornando-se numa das sedes do Euro 96, o clube perdia lugares na elite do futebol que chegou a dominar de uma forma histórica, até ao momento. Quando melhor esteve Anfield, falhou-lhe a sua equipa. E os adeptos, sem virar as costas, entenderam que o clube vivia numa realidade bem distinta da dos seus rivais directos. Em títulos e em condições para competir com as receitas que o renovado Old Traford ou o novo Emirates podiam oferecer a Manchester United e Arsenal.

Desde então a ideia de construir um novo estádio rondou a mente dos adeptos e directivos. Anfield era um pedaço de história mas era precisamente preso nessa história que o Liverpool existia, sem pensar como dar um salto em frente e recuperar duas décadas perdidas. Um novo estádio significava, a médio prazo, rendimentos que lhes iriam permitir reduzir o diferencial de gastos dos grandes senhores do dinheiro do futebol britânico e isso seria o primeiro passo para ambicionar de novo pelos títulos e pelos milhões da Champions League, prova onde o clube não participa desde 2010. Mas a abordagem sustentada da Fenway Sports Group defende que não é o dinheiro investido que faz a diferença mas sim onde se investe. E talvez por isso a ideia de abdicar de um dos seus baluartes institucionais, sob peso de uma divida que, como no caso gunners, demoraria uma década a abater, sem garantias de poder apresentar um nível competitivo real a curto prazo, tenha pesado mais na decisão final do que seria de supor. Anfield será ampliado, de forma progressiva, como foi Old Trafford nos anos 90, até atingir os 60 mil lugares, tornando-se no terceiro maior estádio de clubes do país. Um primeiro passo para voltar a outros tempos.

 

A noticia para os adeptos do Liverpool é um verdadeiro alivio. Num ano em que o peso emocional do passado faz mais sentido do que nunca, o clube sabe que há uma linha cada vez mais ténue que liga o Liverpool dos anos gloriosos das décadas de 70 e 80 ao clube actual. Anfield é um desses elos de ligação, únicos, e a sua preservação é também um dos passos fundamentais para acreditar que, no futuro, os Reds possam voltar a ser uma das forças dominantes do futebol de um país que passou anos e anos a olhar para eles como o melhor exemplo de mitos vivos do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 19:49 | link do post

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