Quarta-feira, 10 de Outubro de 2012

Cansa ouvir falar de prémios, de goleadores e artistas a esta altura do campeonato e ter de voltar a repetir a mesma conversa de sempre como se o futebol fosse, exclusivamente, um fenómeno ofensivo. Sabendo que para um jogador defensivo vencer um prémio individual tem de vir acompanhado de um sonante prémio colectivo de selecções (Cannavaro, Sammer) convém ter em presença que vivemos a era de um eixo defensivo perfeito e um dos mais completos da história do futebol internacional. Em Madrid o talento de Casillas, Pepe e Sérgio Ramos vale tanto ou mais do que os golos de Ronaldo, as assistências de Ozil ou a magia de Di Maria. 

 

Imaginem a gala do Ballon D´Or sem Messi, Ronaldo e Iniesta em palco.

Sem Falcao e Drogba, sem Xavi e Ozil, sem Pirlo e Silva, sem Schweinsteiger e Neymar. Parece impossível e no entanto, se os adeptos e os votantes entendessem que no futebol é tão difícil defender como atacar, talvez o pódio pudesse ter três rostos inesperados. Mas igualmente justos. Talvez comece a ser a hora de pensar em valorizar, como se merecem, os outros artistas do beautiful game.

Iker Casillas é, como foi Gianluigi Buffon, vitima de si mesmo, da sua grandeza, omnipresença. Do seu carácter de líder e do seu low profile como estrela mediática. Em 2006 muitos não entenderam o Ballon D´Or de Cannavaro quando em campo tinha estado Buffon. Em 2008, 2010 e 2012 alguém poderá dizer o mesmo porque se houve um guarda-redes na última década que esteve ao nível do italiano, foi Casillas. O "santo" não se limitou a salvar Espanha nos momentos decisivos, consequência da sua especulação com o resultado, como também é o melhor exemplo de integração e amizade que reina no balneário de uma selecção que com Aragonés se aprendeu a unir e que sobreviveu mesmo à "guerra cívil" Barça-Madrid dos últimos anos com a cabeça erguida. Casillas merece mais do que qualquer outro jogador o prémio de este ano e se o futebol fosse realmente um desporto de onze contra onze, o prémio seria seu. Infelizmente, a maioria dos analistas, jornalistas e adeptos, pensa no jogo apenas partindo do principio do 4-4-2, jogo de dez, onde o guarda-redes é um bicho à parte. Uma sina que só Lev Yashin, demasiado grande para estas coisas, conseguiu fintar. 

Em Madrid, Iker continua a ser o melhor, de longe, e o mais excitante dos guarda-redes. Não tem a escola de libero blaugrana que destaca Valdés, outro guarda-redes imenso, mas é o mais completo e fascinante dos números 1 mundiais. Em 2014 será a primeira grande arma de Espanha para atacar o quarto título consecutivo. Em 2013 quererá cumprir o ciclo que começou em Hampden Park, 2002, e vencer a sua segunda Champions. Na época passada fez tudo, até parar dois penaltys, e até nisso se destacou por cima de qualquer colega. De qualquer jogador.

 

Mas se Iker é um guarda-redes maravilhoso, Pepe e Sérgio Ramos são uma dupla invejável, um seguro de vida para qualquer equipa de estrelas.

Em 1988, o técnico italiano Arrigo Sacchi foi increpado pelo holandês van Basten. Perguntou-lhe o avançado porque é que Sachi elogiava sempre a defesa nas conversas de equipa se ele é que era o goleador da equipa, o homem que fazia a diferença. Sachi ouviu, tranquilamente, e depois desafiou van Basten a escolher outros cinco colegas para jogar contra a sua defesa de quatro intocável num jogo a meio-campo. No final do treino, os avançados não tinham sido capazes de marcar um só golo e van Basten percebeu que se ele era a estrela, o trabalho de Baresi, Maldini, Costacurta e Tassoti era fundamental.

Ramos e Pepe complemetam-se. São os dois melhores centrais do mundo, cada qual na sua especialidade.

Pepe é o mais guerreiro dos dois, aquele que joga mais no limite, mas também o mais importante para o jogo de pressão que procura Mourinho. Sobe as linhas defensivas, exerce de trinco com facilidade e não tem problemas em utilizar o seu poder físico para ganhar a batalha do meio-campo surgindo, várias vezes, a pressionar o médio defensivo rival sem perder olho à sua posição. Apanhar Pepe desprevenido é raro e que lhe ganhem no um contra um inédito. Pepe tem defeitos. É um defesa duro, da escola Nobby Stiles, ao mesmo tempo que impõe liderança, como Baresi. É o verdadeiro líder do Real Madrid, no terreno de jogo e junto dos adeptos. É o único capaz de mandar calar as vedetas, como Ronaldo, e de dar o corpo pela causa, o gladiador perfeito para um Mourinho que sabe que a defesa é a base do sucesso de qualquer técnico.

No FC Porto contou com Ricardo Carvalho e Jorge Costa (a sua ideia original era manter o capitão com Jorge Andrade) e soube rodear-se de um Pedro Emanuel para os jogos mais complicados, também ele um líder no terreno de jogo. Em Inglaterra fez da dupla Terry-Carvalho a melhor do Mundo, muito similar à actual, com Terry como defesa mais de confronto e Carvalho mais táctico. Em Itália foi a vez de Lucio e Samuel darem corpo ao ideário táctico de Mourinho e depois de Ricardo Carvalho desligar do futebol profissional, o português encontrou em Ramos o protótipo do defesa do futuro.

Ramos cresceu como lateral e foi nessa posição que singrou em Sevilla e na selecção espanhola antes de chegar ao Real Madrid, perdido no meio de tantas contratações galácticas. Foi ganhando peso no vestuário e mais do que vice-capitão, é a alma do colectivo. No campo exibe-se de forma imperial. Com a bola nos pés tem o critério dos grandes liberos do passado e sem ela tem um posicionamento táctico invejável. Quando Pepe sobe sabe varrer a linha defensiva e quando é preciso incorporar-se, lembrando-se da sua veia de lateral ofensivo, maneja-se muito bem nos "rondos" de meio-campo. Nas bolas paradas, tanto um como outro, são peritos em surpreender as defesas contrárias e marcar golos oportunos. Sem eles, seguramente, o Real Madrid de Mourinho nunca teria batido o Barcelona de Guardiola.

 

Se o projecto de Tito Vilanova começa a deixar a nu as deficiências da sua linha defensiva, com um Piqué irreconhecível e um Puyol massacrado pelas lesões, em Madrid é na sua linha defensiva que Mourinho tem de armar a recuperação da sua equipa. Com Marcelo definitivamente instalado como lateral e com Arbeloa como elo mais fraco, no lado direito, o trabalho de Pepe e Ramos, junto à eficácia de Casillas, é fundamental para que os merengues sonhem em repetir os sucessos do ano passado. Para os amantes do futebol, como jogo colectivo, a presença de um destes nomes na gala de um prémio como o Ballon D´Or não seria apenas justo. Na verdade seria mais do que isso, necessário, para acreditar que o futebol é mais do que estrelas de videojogos e anúncios publicitários.



Miguel Lourenço Pereira às 22:00 | link do post

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