O arranque da era Vilanova tem superado as expectativas a nível de resultados mas a qualidade de jogo blaugrana baixou claramente em relação aos quatro anos com Guardiola ao leme do clube. A essa realidade, que pouco parece preocupar os eufóricos catalães, contribui seguramente o desastre defensivo em que se transformou o projecto Tito. Apostar por dois médios defensivos como centrais não só destroi a concepção original do modelo como abre as portas a que os rivais acreditem que asfixiar a área de Valdés é o caminho mais curto para a vitória.
O projecto Guardiola consagrou-se na fantástica linha medular e ganhou títulos graças à classe de Valdés nas redes e de Messi na área contrária.
Mas para o técnico de Santpedor o trabalho defensivo era fundamental para garantir vitórias e por isso a sua confiança no quarteto Alves-Puyol-Pique-Abidal foi uma constante. Para azar do técnico blaugrana, esse foi também o sector que mais dores de cabeça lhe deu em quatro anos. E o seu sucessor vive agora a mesma situação.
Com Eric Abidal fora dos relvados até 2013, como mínimo, e com Charles Puyol a sucumbir lesão atrás de lesão a um físico que não lhe permite voltar aos seus melhores momentos, Guardiola já teve de adaptar Mascherano a central e recolocar Adriano como lateral alternativo. Foram opções forçadas com fracos resultados. Com o Jefecito, a defesa blaugrana ficou mais permeável ao jogo rival, mais débil no jogo áereo e menos sólida na construção de jogo. Com Adriano pela esquerda os extremos encontraram espaços que não existiam quando era o francês o responsável pela posição. Duas circunstâncias que explicam a fragilidade defensiva do Barça, principalmente na época transacta. E que continua.
Resulta estranho que, face a esta dura realidade, o Barcelona não se tenha movido no mercado nos últimos dois anos para resolver este problema.
Jordi Alba chegou, é certo, mas o ex-canterano é um lateral com vocação de extremo, tal como Alves, e a sua incorporação permite mais aumentar a asfixia ofensiva do que resolver os problemas defensivos dos catalães. Já no Euro 2012, onde foi uma das maiores revelações, Alba foi pouco testado nas tarefas defensivas e encontrou no ataque uma comodidade inusual para um lateral. O cansaço acumulado pelo Europeu e Jogos Olimpicos custaram-lhe a titularidade neste arranque de época apesar de ser expectável que, pouco a pouco, Vilanova lhe entregue o flanco esquerdo livremente. Mas no centro, nem no último ano de Pep nem no primeiro de Tito, não houve novidades. Um desleixo, sabendo sobretudo que Puyol já não é o que era e que Piqué, como se viu no ano passado, tem sofrido por manter-se ao mais alto nível como um dos centrais referência do futebol europeu.
Entretanto foram saindo opções.
Muniesa tinha prevista a cedência ao Ajax antes da grave lesão que sofreu e que o manterá fora dos relvados até ao próximo ano. Botía foi cedido, primeiro ao Gijón, e depois vendido acabando em Sevilla. E a Marc Bartra, as oportunidades continuam a ser negadas ano atrás ano, deixando a dúvida de que o clube realmente acredita que ele pode ser, como se previa, o sucessor de Puyol na linha defensiva.
Face aos erros de mercado que foram Henrique e Chygrinski, o sector central da defesa tornou-se no grande quebra cabeças do Barcelona que no mercado manteve-se inactivo apesar de Vermaleen, Verthogen, Criscito e até Vidic terem sido hipóteses estudadas pelo clube. No final os esforços financeiros ficaram-se por Alba e Song. A chegada do camaronês permite aumentar, ainda mais, os receios e dúvidas dos adeptos blaugranas.
O ex-Arsenal afirmou-se sempre pela sua posição de médio defensivo, com uma capacidade fisica tremenda e capacidade de cobertura superlativa, dando a Diaby, Cesc, Whilshere ou Arteta, espaço e ar para poder manejar a bola com segurança. Um jogador com o perfil africano de médio possante bem definido que Vilanova quer, forçosamente, face à lesão de Piqué, reconverter em central. Uma posição onde, está claro, se maneja com muitos, muitos problemas. Da mesma forma que Mascherano é um central perigoso, pela forma como não sabe controlar o jogo aéreo e sair com a bola controlada, elementos fulcrais no modelo de jogo de Tito e da escola guardiolista, colocá-lo lado a lado com um jogador com sérios problemas de adaptação a um posto nuclear é um risco muito sério que só uma equipa com o arsenal ofensivo do Barcelona seria capaz de realizar sem temer as repercursões.
Para já o clube da cidade Condal soma vitórias por jogos disputados mas a maioria delas sofridas. E com golos concedidos que em anos anteriores seriam impossíveis. Frente ao Sevilla o Barcelona encontrou-se a perder 2-0 em dois lances em que a defesa tem sérias responsabilidades. O mesmo passou nos jogos da Supertaça, com o Real Madrid. E mesmo nas vitórias mais claras e expressivas a defesa nunca deu sinais de absoluta segurança. Sem a frieza de Piqué, que continua longe da sua melhor forma, e do espirito de liderança de Puyol, o Barcelona encontra-se com um problema que não soube resolver no mercado e que tem falhado em resolver no relvado. Na próxima semana o Clássico abre as portas à especulação, particulamrnete porque foi a linha defensiva a que permitiu a reviravolta na eliminatória que terminou com a Supertaça a cair para o lado do Real Madrid na última vez que mediram forças.
Para um clube que conta com o melhor plantel ofensivo do mundo, com jogadores no meio-campo que ajudam a redifinir o conceito do futebol moderno, que a linha defensiva seja a actual é um problema sério para o futuro. A época é longa e haverá jogos onde os génios do ataque estejam menos inspirados e que o rival seja mais ousado, como foi o Sevilla no primeiro tempo do duelo de ontem. Nesses momentos a frieza dos defesas será fundamental e com Mascherano e Song o cenário não é o mais optimista. Será o grande duelo de Vilanova consigo mesmo, encontrar as peças do puzzle para reequilibrar uma equipa que aspira a mais um ano histórico.

