Domingo, 30 de Setembro de 2012

O arranque da era Vilanova tem superado as expectativas a nível de resultados mas a qualidade de jogo blaugrana baixou claramente em relação aos quatro anos com Guardiola ao leme do clube. A essa realidade, que pouco parece preocupar os eufóricos catalães, contribui seguramente o desastre defensivo em que se transformou o projecto Tito. Apostar por dois médios defensivos como centrais não só destroi a concepção original do modelo como abre as portas a que os rivais acreditem que asfixiar a área de Valdés é o caminho mais curto para a vitória.

 

O projecto Guardiola consagrou-se na fantástica linha medular e ganhou títulos graças à classe de Valdés nas redes e de Messi na área contrária. 

Mas para o técnico de Santpedor o trabalho defensivo era fundamental para garantir vitórias e por isso a sua confiança no quarteto Alves-Puyol-Pique-Abidal foi uma constante. Para azar do técnico blaugrana, esse foi também o sector que mais dores de cabeça lhe deu em quatro anos. E o seu sucessor vive agora a mesma situação.

Com Eric Abidal fora dos relvados até 2013, como mínimo, e com Charles Puyol a sucumbir lesão atrás de lesão a um físico que não lhe permite voltar aos seus melhores momentos, Guardiola já teve de adaptar Mascherano a central e recolocar Adriano como lateral alternativo. Foram opções forçadas com fracos resultados. Com o Jefecito, a defesa blaugrana ficou mais permeável ao jogo rival, mais débil no jogo áereo e menos sólida na construção de jogo. Com Adriano pela esquerda os extremos encontraram espaços que não existiam quando era o francês o responsável pela posição. Duas circunstâncias que explicam a fragilidade defensiva do Barça, principalmente na época transacta. E que continua.

Resulta estranho que, face a esta dura realidade, o Barcelona não se tenha movido no mercado nos últimos dois anos para resolver este problema. 

Jordi Alba chegou, é certo, mas o ex-canterano é um lateral com vocação de extremo, tal como Alves, e a sua incorporação permite mais aumentar a asfixia ofensiva do que resolver os problemas defensivos dos catalães. Já no Euro 2012, onde foi uma das maiores revelações, Alba foi pouco testado nas tarefas defensivas e encontrou no ataque uma comodidade inusual para um lateral. O cansaço acumulado pelo Europeu e Jogos Olimpicos custaram-lhe a titularidade neste arranque de época apesar de ser expectável que, pouco a pouco, Vilanova lhe entregue o flanco esquerdo livremente. Mas no centro, nem no último ano de Pep nem no primeiro de Tito, não houve novidades. Um desleixo, sabendo sobretudo que Puyol já não é o que era e que Piqué, como se viu no ano passado, tem sofrido por manter-se ao mais alto nível como um dos centrais referência do futebol europeu.

 

Entretanto foram saindo opções. 

Muniesa tinha prevista a cedência ao Ajax antes da grave lesão que sofreu e que o manterá fora dos relvados até ao próximo ano. Botía foi cedido, primeiro ao Gijón, e depois vendido acabando em Sevilla. E a Marc Bartra, as oportunidades continuam a ser negadas ano atrás ano, deixando a dúvida de que o clube realmente acredita que ele pode ser, como se previa, o sucessor de Puyol na linha defensiva. 

Face aos erros de mercado que foram Henrique e Chygrinski, o sector central da defesa tornou-se no grande quebra cabeças do Barcelona que no mercado manteve-se inactivo apesar de Vermaleen, Verthogen, Criscito e até Vidic terem sido hipóteses estudadas pelo clube. No final os esforços financeiros ficaram-se por Alba e Song. A chegada do camaronês permite aumentar, ainda mais, os receios e dúvidas dos adeptos blaugranas. 

O ex-Arsenal afirmou-se sempre pela sua posição de médio defensivo, com uma capacidade fisica tremenda e capacidade de cobertura superlativa, dando a Diaby, Cesc, Whilshere ou Arteta, espaço e ar para poder manejar a bola com segurança. Um jogador com o perfil africano de médio possante bem definido que Vilanova quer, forçosamente, face à lesão de Piqué, reconverter em central. Uma posição onde, está claro, se maneja com muitos, muitos problemas. Da mesma forma que Mascherano é um central perigoso, pela forma como não sabe controlar o jogo aéreo e sair com a bola controlada, elementos fulcrais no modelo de jogo de Tito e da escola guardiolista, colocá-lo lado a lado com um jogador com sérios problemas de adaptação a um posto nuclear é um risco muito sério que só uma equipa com o arsenal ofensivo do Barcelona seria capaz de realizar sem temer as repercursões. 

Para já o clube da cidade Condal soma vitórias por jogos disputados mas a maioria delas sofridas. E com golos concedidos que em anos anteriores seriam impossíveis. Frente ao Sevilla o Barcelona encontrou-se a perder 2-0 em dois lances em que a defesa tem sérias responsabilidades. O mesmo passou nos jogos da Supertaça, com o Real Madrid. E mesmo nas vitórias mais claras e expressivas a defesa nunca deu sinais de absoluta segurança. Sem a frieza de Piqué, que continua longe da sua melhor forma, e do espirito de liderança de Puyol, o Barcelona encontra-se com um problema que não soube resolver no mercado e que tem falhado em resolver no relvado. Na próxima semana o Clássico abre as portas à especulação, particulamrnete porque foi a linha defensiva a que permitiu a reviravolta na eliminatória que terminou com a Supertaça a cair para o lado do Real Madrid na última vez que mediram forças.

 

Para um clube que conta com o melhor plantel ofensivo do mundo, com jogadores no meio-campo que ajudam a redifinir o conceito do futebol moderno, que a linha defensiva seja a actual é um problema sério para o futuro. A época é longa e haverá jogos onde os génios do ataque estejam menos inspirados e que o rival seja mais ousado, como foi o Sevilla no primeiro tempo do duelo de ontem. Nesses momentos a frieza dos defesas será fundamental e com Mascherano e Song o cenário não é o mais optimista. Será o grande duelo de Vilanova consigo mesmo, encontrar as peças do puzzle para reequilibrar uma equipa que aspira a mais um ano histórico.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:43 | link do post | comentar

6 comentários:
De JV a 1 de Outubro de 2012 às 10:30
Sendo adepto do barcelona, custa-me ainda mais a perceber porque é que na época de transferências não foi contratado nenhum central. Toda a gente sabia que esta seria a zona de maiores preocupações ao longo da época. Sempre defendi Verthogen como uma solução fantástica para este problema, e a um preço bastante razoável.

Mascherano com a sua garra e entrega ao jogo consegue enganar os adeptos menos atentos, mas a verdade é que este tem falhas muito graves nas abordagens defensivas, parecendo mesmo que só tem olhos para a bola e esqucendo-se do posisiconamento defensivo da restante linha da rectaguarda.

Em relação a Song, é absolutamente normal as suas prestações a central dada a pouca quantidade de jogos ainda realizados.

Também concordo que este tem sido o Barcelona mais fraco em termos de qualidade de jogo. Demasiada inistência nos passes longos, pouca movimentação entrelinhas, jogadores muito estáticos na frente de ataque.
Apesar disto, o jogo com o Sevliha já foi bem mais conseguido nestes aspectos.
Só espero que para bem do futebol, a equipa volte ao super-nivel que apresentou nos ultimos anos.

abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Outubro de 2012 às 13:24
JV,

Sem dúvida. Os resultados têm escondido um sério problema de fio de jogo que se tem notado desde a Supertaça com o Real Madrid.

No arranque da temporada o efeito Messi foi suficiente para ganhar um colchão pontual entregue de bandeja pela tristeza que impera num Real Madrid auto-destructivo, nos últimos dois jogos foi esse espirito e determinação de vencer que superou as adversidades. Mas em ambos casos a facilidade de criar e dominar o jogo dos últimos anos não se viu salvo em momentos muito pontuais.

Quanto aos centrais, é sem dúvida inexplicável tendo em conta que para Vilanova não há ninguém na formação que cumpra com os requisitos de subir à primeira equipa como parece evidente com a exclusão de Bartra e o empréstimo previsto de Muniesa. O regresso de Puyol ajudará, certamente, mas não chega porque o seu fisicio não está para aguentar um ano inteiro.

um abraço


De Victor Hugo a 1 de Outubro de 2012 às 23:37
É irônico mas o próprio Guardiola tem um pouco de culpa nisso.
Com as freqüentes lesões de Puyol na última temporada e a queda de rendimento de Piqué, Pep preferiu improvisar Mascherano, Busquets e até Keitá em raros momentos ao invés de dar chance aos canteranos, principalmente em jogos menos importantes, os entrosando aos poucos com o time. Foi assim com Puyol e o resultado todos sabemos o quão positivo foi.
O problema é que Guardiola sempre quis zagueiros que soubessem sair jogando, e afirmou preferir improvisar volantes do que escalar zagueiros que não se adequassem a filosofia do clube.
E o que temos? Um Barcelona com fragilidades defensivas que não víamos há muito tempo, canteranos como Bartra, Montoya e Fontás passando dos 21, 22 anos e ainda não se firmando no time principal porque não tem chances, pois a diretoria prefere comprar volantes para serem falsos zagueiros que sabem tocar mas não sabem defender, laterais que são muito mais alas e wingers do que laterais. Aos poucos o Barcelona esquece sua base e começa a investir com neurose numa filosofia que pode estar desmoronando aos poucos por suas próprias conseqüências.


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Outubro de 2012 às 13:03
Victor Hugo,

Sem dúvida, a confiança na cantera do Barcelona funciona nos sectores medulares e pouco no ataque e no centro da defesa. Por um lado Bojan é o único avançado da cantera a ter minutos na era Guardiola (e poucos face à sua utilização com Rijkaard) e na defesa nem Fontás, nem Botia, nem Bartra convenceram Guardiola e Vilanova.

Montoya teve minutos e tem potencial (é já internacional A) e Alba foi "repescado" mas a falta de confiança na cantera aliada à falta de dinheiro para investir, fez com que o staff técnico apostasse mais pelo ataque, seguindo a velha filosofia de que a melhor defesa é o ataque. Mas em jogos mais duros, com o estado fisico de Puyol e mental de Piqué, isso pode ser um risco.


De Victor Hugo a 2 de Outubro de 2012 às 17:07
Miguel Lourenço Pereira

É verdade mesmo que os setores de meio da base são mais valorizados, e também o que menos há erros de percurso (Fábregas, claro, é uma exceção).
No entanto, pela falta de investimento, como você bem disse, o ataque vem sendo bem mais valorizado que antes. Messi, dos Santos e Bojan (duas eternas promessas), e mais recentemente Cuenca, Tello e Deulofeu, vários canteranos vem tendo chance nos últimos anos, mais do que no meio, onde apenas Alcântara parece ter se firmado, além, é claro, do operário Busquets. Seria um efeito Messi? Ou a culpa é da genialidade dos inquestionáveis e intocáveis Xavi e Iniesta, mais a sombra de Fábregas?


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Outubro de 2012 às 19:39
Victor Hugo,

Naturalmente no Barcelona há um intocável e esse é Messi. Enquanto no miolo Xavi, Iniesta, Fabregas, Thiago vão rotando e Busquets joga com maior regularidade, o posto de avançado sempre é exclusivo de Messi e obriga a um overbooking nos extremos entre Alexis, Pedro e Villa, sendo que o chileno e Villa funcionariam melhor no meio do que na ala. Isso faz com que os Tello, Cuenca, Deulofeu, Rafinha tenham poucos minutos para exibir-se e todos os que surjam no miolo do ataque, nenhuma.

um abraço


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