Um dia de emoções fortes no futebol inglês. Dois jogos entre equipas de nome, prestigio, orçamento e plantéis dignos de potências europeias e que acabarão por disputar entre si os primeiros postos da tabela classificativa. Uma tarde onde a qualidade do futebol foi equiparada pela emoção do resultado e, sobretudo, um dia que deixou claro que a emoção que a Premier League é capaz de gerar não tem ainda rival à altura no panorama internacional.
Em Anfield sentiu-se a emoção do momento. Em Manchester a guerra psicológica entre duas ideias bem distintas.
Dois velhos rivais deram as mãos em nome de um passado sangrento e finalmente purificado ao som do You´lle Never Walk Alone. As mãos de Evra e Suarez encontraram-se sem problemas, os adeptos cantaram com mais força do que nunca e o espectáculo foi digno dos grandes duelos entre as duas equipas mais bem sucedidas da história do futebol inglês.
O resultado foi o grande desgosto dos filhos da Kop. Mas o futebol esteve do seu lado. Não só o Liverpool jogou melhor que o Manchester United como mereceu claramente um triunfo que se lhe escapou e que os atira, de forma inapelável, para a parte final da tabela classificativa. A expulsão de Shelvey, discutível, determinou o rumo de um jogo até então dominado pelos homens de Brendan Rodgers. Se o Man Utd tinha deixado pobre imagem nos primeiros jogos da época, em Anfield confirmou-se que a equipa de Ferguson não está fina.
Um imenso buraco no meio-campo onde Carrick e Giggs eram incapazes de ditar os tempos, deixando Kagawa demasiado só, atados pelo esquema mais dinâmico do novo técnico do Liverpool. Um buraco que nunca se tapou, nem sequer com a entrada de Paul Scholes, e que em jogos mais exigentes pode custar caro a um Ferguson que apostou forte no mercado para fazer-se com os serviços de van Persie e que, pelo menos aí, tem visto a sua aposta funcionar. Cinco jogos, cinco golos para o holandês. O segundo de hoje, de penalty, num lance igualmente discutível, resolveu um jogo que o Liverpool não só dominou como começou por vencer, com um golpe de Steven Gerrard preciso. Um remate colocado e inesperado de Rafael e o tal polémico penalty perto do fim, deram um ar de engano a um marcador final que não faz justiça a uma equipa onde se nota a juventude mas também a vontade de crescer. Os adeptos reds só têm de acreditar e dar tempo a Rodgers, a matéria-prima começa a dar os seus frutos, pensando sobretudo no excelente jogo de Sterling, Allen e Borini.
Em Manchester, a vitória do grande rival dos Citizens obrigava a Mancini a vencer para não perder o comboio dos lideres - o triunfo de um Chelsea intenso manteve-os isolados na frente da tabela - e ao mesmo tempo, afastar-se de um Arsenal com um arranque de temporada inesperadamente positivo, face às baixas no plantel de van Persie e Song.
Como em Anfield o favorito jogou pior, esteve perto de vencer de forma injusta mas aqui, o destino foi mais simpático com Wenger e permitiu-lhe manter-se par a par com os homens do dinheiro fácil, como os acusa de forma regular. Os milhões do plantel do City não souberam lidar com uma equipa com um orçamento francamente mais baixo mas futebolisticamente igual de perigoso. As movimentações de Cazorla e Ramsey descoordenaram o meio-campo dos homens da casa e a bola parecia sempre mais cómoda nos pés dos gunners.
Mas como sempre parece acontecer, o City encontrou-se com um desses lances de bola parada que tão bem sabe rentabilizar. A ajuda de Manonne, o oportunismo de Lescott e a passividade da defesa do Arsenal fizeram o resto e um golo caído, literalmente, do céu, obrigou o Arsenal a acelerar ainda mais e o City a jogar o seu estilo de jogo preferido, de gato e rato, de golpe e contra-golpe. Um jogo onde se sente francamente cómodo e que lhe permitiu aproximar-se com mais perigo da baliza rival do que tinha logrado antes do golo.
Foi nessa vertigem ofensiva que um Arsenal voluntarioso mas quase sempre trapalhão encontrou a justiça nos pés de Koscielsny e com esse golo manteve igualada a posição na tabela com os pétrodolares do City, se bem que a uma distância já considerável dos homens de Roberto di Matteo, autores de um arranque de época perfeito.
A Premier arranca com alguns dos clássicos já disputados e com a certeza de um ano intenso com vários candidatos ao ceptro do Manchester City. Nem o Arsenal se encontra tão mal quanto se podia prever nem os pontos de United deixam de esconder as suas debilidades futebolísticas. Se ao Liverpool há que dar tempo para por em prática as ideias de Rodgers, tanto Newcastle como Everton têm dado sensações positivas que poderão confundir um pouco mais as contas até ao final da temporada.

