A balança desiquilibrou-se. Uma vez mais.
Já não é o peso das pesetas que volta a colocar a Liga Espanhola num local de destaque. Hoje, salvo a invencivel libra, o euro domina o espectro europeu e é em euros que se falam nos 96 milhões de Cristiano Ronaldo (a imprensa britânica reduz o caso a umas meras 80 milhões de libras) ou nos 56 milhões de Kaká. O que se trata aqui é de discutir a hegemonia da Premier League ou o ocaso final da Serie A. O futebol espanhol - consagrado no passado Europeu a nivel de selecções e em Roma a nivel de clubes - volta a assumir um protagonismo perdido ao longo da década para os relvados britânicos. As contratações do brasileiro e do português pelo Real Madrid são mais do que reforços nucleares para o clube madridista. De um só golpe, Espanha rouba os simbolos das duas ligas rivais e junta-os ao outro arpão do tridente, o argentino Leo Messi, e ao seu grupo de jogadores nacionais de elite (Xavi, Iniesta, Villa, Casillas) voltando a transformar o seu campeonato na Liga das Estrelas.

Desde o principio dos anos 2000 que se começou a verificar o ocaso progressivo da Liga espanhola. O falhanço do primeiro projecto galáctico, a rápida ascensão e queda do Barça de Ronaldinho e o desaparecer do Valencia com a saída de Benitez transformou o futebol espanhol na segunda potência europeia, por detrás da consolidada Premier League.
Em Inglaterra o trabalho de casa estava feito e ao cumprir 10 anos de existência a prova era um exemplo de gestão. Contractos publicitários colectivos que evitavam números dispares nos clubes facilitavam uma prova extremamente igualada. Clubes históricos, instituições sólidas financeiramente e adeptos loucos ajudaram a fazer da Premier o campeonato número um por excelência. A entrada de vários magnatas russos, islandeses, americanos e agora árabes injectou constantemente dinheiro nos clubes que foram vendo como as suas finanças se depaupuravam progressivamente. A cada ano que passava a Premier perdia uma ou outra estrela para Espanha (sairam Beckham, Van Nistelrooy, Owen, Henry e agora Ronaldo) mas mantia o glamour lançando jovens estrelas, contratando os melhores técnicos e mantendo a emoção até ao fim. A supremacia da Premier estava evidente na Champions League. Ao largo dos últimos anos por várias vezes três equipas inglesas lograram o acesso à final e há dois anos duas formações inglesas disputaram em Moscovo o troféu europeu.

Em Itália, liga por excelência da década de 90, a queda em desgraça da Serie A já vem de há muito. Na altura, a venda de Zidane, espelhou esse desiquilibrio constante do futebol italiano que deixou de ter impacto mundial, apesar das vitórias na Champions do AC Milan. Sem jogadores estrelas, sem jogos com bancadas cheias ou grandes audiências, o futebol italiano tornou-se no patinho feio do futebol europeu e só nomes com glamour como Kaká eram capazes de fazer a diferença. A perda do médio brasileiro para o futebol espanhol - e a iminente perda de Zlatan Ibrahimovic para o Barcelona ou Manchester United - pode agudizar ainda mais a crise e deitar por rastos qualquer hipótese de recuperação mediática.
Por outro lado o futebol espanhol sempre soube mostrar um glamour especial. Contratava grandes estrelas internacionais - principalmente do mercado sul-americano - vendia o marketing dos seus dois grandes emblemas e vivia muito acima das possibilidades. Hoje La Liga está quase em falência técnica e há vários clubes que têm graves dificuldades em pagar os salários em atraso aos seus jogadores. Isso sucedeu, por exemplo, com o Valência, um histórico que está à venda mas que não consegue fazer frente a um passivo milionário. O próprio Barcelona conseguiu tapar vários problemas económicos e de gestão com a brilhante temporada do passado ano. E o Real Madrid, que agora alegremente gasta milhões conseguidos em mais uma série de empréstimos, é um dos clubes com a dívida mais elevada da Europa. E já não há terrenos desportivos para vender como sucedeu há dez anos quando Perez chegou pela primeira vez ao clube.

No entanto o público em geral desconhece esta realidade. Compra os jornais, vê os nomes e faz as contas. Se exceptuarmos a armada britânica (Gerrard, Lampard, Rooney), o espanhol Fernando Torres, o francês Frank Ribery, o sueco Ibrahimovic ou ainda jogadores mediáticos como Buffon, Totti ou Toni, praticamente todos os grandes craques mundiais jogam em Espanha. A armada catalã de Guardiola tem no próximo ano um rival de peso. Mas também no Atlético, Villareal, Valencia ou Sevilla jogam elementos de primeiro nível. O campeonato é altamente desiquilibrado, é certo. Mas emocionante. Os dois primeiros distanciam-se cada vez mais, há uma classe média de cinco equipas (Sevilla, Villareal, Valencia, Atlético Madrid, Deportivo) e depois um imenso vazio a lutar por sobreviver. Mas mesmo assim respira-se incerteza e emoção em cada encontro. O nivel do futebol inglês é superior e nesse aspecto, bem como na vertente espectáculo, nada pode superar o futebol que se vive em terras de sua Majestade. Mas se os nomes vendem, efectivamente, as estrelas parecem-se ter refugidado em Espanha para disputar a próxima temporada.