Sábado, 15 de Setembro de 2012

Espanha bateu o recorde de posse de bola num só jogo. 80%, um número que seria assustador não fosse habitual ver as exibições da Roja em números que não dormem tão longe como isso do novo recorde obtido. Foi em Tiblissi. Foi com a Geórgia. E terminou com uma apertada vitória a 1, com um golo a cinco minutos do fim. Espanha sente a bola como nenhuma selecção do Mundo. Por isso sente-se e transforma-se numa equipa quase invencível. Mas ter sempre a bola não significa vencer sempre e as vitórias pela mínima transformaram-se, mais do que numa imagem de marca, num suspiro de ansiedade que gera nos seus adeptos o jogo rendilhado dos espanhóis.

 

Há quem prefira um futebol intenso, rápido, de trocas sucessivas de golpes. De lances, de oportunidades, de golos. De muitos golos.

Quem goste de um modelo mais britânico, mais parecido a um combate de boxe onde ambos os lutadores se olham nos olhos, sem medo, e desferrem murros sem piedade até que, seja por pontos seja por k.o., vença. Essa é a escola original, aquela que mais perto se encontra da verdadeira origem do futebol moderno. Um futebol que privilegia os golos por cima de tudo, que os valoriza a eles e aos seus autores por cima de todos os outros. Um futebol de acção, de emoção, de suspense, de intensidade. 

E no entanto esses adeptos vivem dias negros, dias em que o futebol de ataque e contra-ataque, de troca de golpes, tem-se visto suplantado pelo futebol de posse. O futebol em que a bola, e não as balizas, é protagonista. O futebol onde a bola é minha e de mais ninguém, onde a equipa descansa com a bola nos pés, em trocas de bola controladas, em longos momentos de possessão, um futebol onde as oportunidades se contam pelos dedos das mãos mas, quando surgem, parecem inevitáveis. E, sobretudo, um futebol onde o golo parece um complemento e não um fim, um complemento que tarde ou cedo chegará, inevitavelmente. Um futebol que deriva sobretudo da abordagem centro-europeia, dessa que se divorciou das origens, primeiro com a Escócia e mais tarde com os escoceses que viajaram por esse mundo fora e encontraram sobretudo na bacia do Danúbio, espaço para explicar as suas ideias. Esse é o futebol dos dias de hoje, o futebol mais admirado e, sobretudo, o mais titulado.

É o futebol de Espanha, de uma selecção que aprendeu a fazer da bola a sua arma, e da posse a sua grande filosofia. 80% de posse de bola significa, mais do que os outros 20% possam significar, uma asfixia absoluta. Um futebol monólogo que vence troféus com uma regularidade histórica ao mesmo tempo que perde adeptos entre os neutrais que se deixam levar pela ilusão da emoção.

 

A bola é para o jogador espanhol uma continuação da chuteira. 

Ao contrário da maioria dos futebolistas, o espanhol não quer desprender-se da bola da mesma forma que não quer jogar descalço apesar de, na maioria dos casos, se o fizesse nem se notaria a diferença. A bola trata por tu jogadores internacionais respeitados em todo o planeta de Xavi a Iniesta, passando por Silva, Cazorla ou Fabregas. Mas vejam um jogo da liga do país vizinho e entendam como para Isco, Thiago, Iturraspe, De Marcos, Gabi e Beñat, sem esse protagonismo mediático, a sentem da mesma forma, com a mesma paixão, com a mesma inevitável sensação de familiaridade.

O jogo da selecção espanhola tem sobretudo uma falha que o separa da mais absoluta perfeição. A eficácia. Contando com homens que sabem criar, planear e sonhar com os melhores assaltos, o estranho é ver a equipa espanhola assaltar com regularidade as redes contrárias. Se na final do Euro 2012 os italianos sofrerem uma humilhação igual à de 1970, com os mesmos golos à mistura, a verdade é que em torneios de prestigio internacional o jogo da equipa espanhola se mede pela falta de eficácia dos seus dianteiros. 

A questão não está em vencer por 1-0 apenas porque é suficiente. Um 1-0 nunca o é e grandes equipas descobriram que os deuses de futebol não permitem em demasia que se jogue tanto no limite. A derrota com a Suiça, em 2010, e o sofrimento com a Croácia, em 2012, são bons exemplos dessa realidade.

Espanha sabe que dificilmente sofrerá golos. Não porque tem o melhor guarda-redes do mundo (e o melhor suplente), nem uma das melhores linhas defensivas do planeta. Sabe porque tem a bola, porque não a perde, porque o rival tem entre 20 a 30% de posse num jogo e isso significa que as oportunidades serão escassas e estão, quase sempre, debaixo controlo. Casillas não sofre golos num jogo oficial há seis encontros. Quase nada. Aragonés e Del Bosque sabiam o mesmo que Hogan e Sebes já ensinavam há tantos anos atrás: a bola é tua, o jogo é teu, o resultado eventualmente também o será.

Mas o que continua a marcar distâncias entre esta Espanha e as grandes equipas da história está no outro lado. Se no meio-campo (onde está a esmagadora maioria dessa posse de bola, uma posse de controlo, de descanso, de artimanha) dificilmente houve na história uma equipa com o mesmo à vontade desta selecção, na área Espanha continua a ser uma selecção dubitativa, uma selecção sem esse killer-instinct que se tornou na trademark de outras das suas rivais nesse hall of fame futebolístico.

 

Espanha continua a aparentar ser uma selecção invencível, sobretudo porque faz da defesa a sua virtude, sem ter necessidade de defender em excesso. É uma selecção que se define exclusivamente pela bola que conduz como ninguém. Mas como é uma selecção de bola e não de baliza, Espanha também tem criado um complexo de angustia nos seus adeptos, habituados a sofrer em demasia até ao momento final em que surge o golo, habituados a esperar levantar-se da cadeira uma vez em cada 90 minutos. Falta ao futebol da Roja aproveitar ainda mais as poucas oportunidades que gera, com autoridade, para aproximar-se um pouco mais desse Olimpo futebolístico, deixando de ser uma selecção de bola para passar a ser uma selecção da bola.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:51 | link do post | comentar

8 comentários:
De Victor Hugo a 15 de Setembro de 2012 às 20:12
É incrível como um futebol ao mesmo tempo bonito pode se tornar maçante. A Fúria toca, toca, envolve, dissolve a cada toque a gana e as esperanças do adversário. Parece um jogo tenso de xadrez, onde as peças vão caindo uma a uma, e o enxadrista dominado já não sabe mais o que fazer. É uma derrota longa, sofrida e inevitável. Assim como no tabuleiro, Xavi, Iniesta, Alonso e Fábregas asfixiam, não mostram ao adversário nenhuma rota de fuga, os obrigam a dançar conforme o seu ritmo, destroem a sua confiança e finalmente o xeque-mate, o golpe final! A conseqüência de uma derrota que já existia desde a queda do primeiro peão, da primeira troca de passe, que após um processo maçante, oferece um gran-finale exuberante e arrasador.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Setembro de 2012 às 00:36
Victor Hugo,

É um modelo de jogo que mede os tempos com outra velocidade, outra sensabilidade, que utiliza a bola como arma de desgaste, que prefere um longo cerco até matar o rival de fome do que um assalto inesperado pela calada.

um abraço


De MM a 15 de Setembro de 2012 às 20:38
Miguel L. Pereira,

Subscrevendo muitas noções, a discussão 'Barcelona VS Real (e outros)' ou a discussão 'Espanha VS Resto do mundo' banalizou algumas coisas que importaria não simplificar em demasia (não me refiro ao seu texto). O termo "posse" é um dos muito gastos, como se qualquer equipa tendo a bola jogasse por isso bom futebol (grande parte, não joga e o Real Madrid é um bom exemplo sempre que defronta adversários da metade inferior da tabela).

Mas outro começa também a enjoar, pela discussão produzido: a noção de que o futebol directo é mais emotivo, espectacular e vai de encontro ao que uma parte da massa adepta quer. Não é de todo assim: nem 80% dos jogos entre equipas que jogam directo criam mais oportunidades de golo, nem estes jogos resumem-se na muito boa descrição metafórica dum combate de boxe onde ambos os lutadores se olham nos olhos, sem medo e desferem murros sem piedade até que por pontos ou K.O, um vença. Na maioria do tempo o futebol directo limita-se a produzir jogos maus de futebol e se tivermos 2 equipas a fazê-lo, teremos somente mau futebol a dobrar.

O Dynamo de Lobanovsky não acumulava posse de bola, jogava em velocidade e jogava muito futebol. Desenhava boas jogadas, criava muitas e boas ocasiões de golo e jogando bem vencia naturalmente muitos jogos. Era um futebol de qualidade.
Mas há outros mais próximos: em Portugal, o de Jesus, quando até combina fases onde tem a bola com fases onde chega a baliza adversária muito depressa: faz as duas coisas.

Todavia, a esmagadora parte de futebol directo é um mau futebol. Não é emotivo nem mantém o espectador entretido. Não se trata então de escolher a bola ou a baliza porque frequentemente treinadores que escolhem não ter a bola não apresentarão qualidade para sem ela chegar à baliza. Estarão durante 90' a fazer qualquer coisa, possivelmente a correr, atrás de adversários ou noutras direcções, mas não estarão a entreter nem a jogar futebol.

Um abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Setembro de 2012 às 00:45
MM,

Quando o futebol directo se aproxima perigosamente de uma espécie de kick and rush, então é normal que a qualidade de jogo caia bastante. Uns minutos de kick and rush engolem-se, 90 minutos já não. Mas o futebol directo nem sempre tem porque ser uma associação de ideias com o histórico modelo inglês. O jogo directo de precisão, como os exemplos que enumera, a que juntaria o Chelsea de Mourinho ou até mesmo o United com Cantona à cabeça, é um jogo directo espantoso e pode tornar-se tão asfixiante para o rival como um jogo de posses largas.

um abraço


De MM a 19 de Setembro de 2012 às 00:57
Sem dúvida Miguel, e daí o examplo do Dynamo: futebol directo com muita qualidade, 3, 4 passes e bola na área adversária. As técnica de Rebrov e Schevchenko, velocidade de Shevchenko, e inteligência de ambos orientados por um treinador soberbo permitia que assim fosse.

Mas é raro porque equipas a tentar por norma jogar directo fazem-no mal: independentemente da estratégia adoptada sem futebolistas de qualidade é difícil existir bom futebol.

E sim, "histórico", já que associar 'kick and rush' ao actual futebol Inglês é errado, como sugere e subscrevo. Quer ao nível de equipas de topo - só ver o jogo mandão que um 'débil' Manchester United fez o ano passado na Luz, mas também ao nível de equipas menos fortes - a imagem de 11 jogadores a correr desalmadamente para a frente e para trás é simplesmente errada. Em Inglaterra não se joga desse modo.

(Cantona, soberba referência) Um abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Setembro de 2012 às 20:06
MM,

Pensava primeiro no Dynamo dos anos 80, com Belanov e Blokhin nas posições de Shevchenko e Rebrov. Mesma velocidade, mesmo número de passes, mesma eficácia. A forma como destroçaram um bom Atlético de Madrid na final da Taça das Taças de 1986 é inesquecível.

Em Inglaterra, actualmente, o Stoke City é a grande referência do kick and rush histórico, mas nunca a 90 minutos.

um abraço


De Victor Hugo a 15 de Setembro de 2012 às 22:32
Acho que causei um mal-entendido invertendo minha idéia no começo do comentário. Não quis dizer bonito, porém maçante, quis dizer aparentemente maçante, porém exuberante em sua essência, como aprofundei depois.
Neste caso, concordo totalmente com seu post e sua resposta, e aliás este esquema ataque/contra-ataque é bem representada no English Team, com seus dois box-to-box, dois wingers e dois postes (ou um poste e o Rooney) que em suas atuações e resultados dentro de campo mostram porque a Inglaterra está tão aquém de outras seleções atualmente.


De filomeno a 16 de Setembro de 2012 às 23:39
El "furbo" de la Roja aburre hasta a las ovejas......


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