Em dois anos o Atlético de Madrid venceu duas Supertaças Europeias. Com duas equipas totalmente distintas. Só Gonzalo Godin, central uruguaio, participou como titular nos dois jogos. Uma revolução que contrasta com o sucesso europeu do clube. Dois projectos diferentes, duas Europe Leagues e Supertaças Europeias conquistadas com todo o mérito. Como é possível vencer depois de desmantelar uma equipa vencedora? Em Madrid o Atlético tem uma fórmula. Cheia de sombras escuras.
Falcao.
Um nome próprio que para os colchoneros vale ouro. E títulos. Mais do que os adeptos do segundo clube da capital espanhola podiam esperar. Especialmente depois da direcção do clube ter desmantelado uma equipa forjada para ganhar e que superou todas as expectativas, apenas dois anos antes. Em 2010, com Espanha ainda a desfrutar do título mundial conquistado em Joannesburgo, a equipa colchonera chegou ao Mónaco para disputar a Supertaça Europeia frente ao campeão europeu em título, o Inter de Milão.
Os homens de Quique Sanchez Flores tinham vencido a Europe League numa final intensa contra o Fulham inglês. Não eram favoritos. Mas venceram. E convenceram. Deixando a ideia de que o projecto forjado anos antes tinha finalmente pernas para andar. Mas a realidade seria bem distinta. Aguero, Forlan, De Gea, Simão, Tiago, Raul Garcia, Perea, Antonio Lopez, Ujfalusi, Dominguez, nomes próprios e titulares indiscutiveis dessa equipa. Nomes ausentes na noite de ontem. No mesmo cenário. Na luta pelo mesmo troféu.
O projecto de Quique terminou de forma abrupta. O treinador saiu em choque com a direcção e atrás dele foram todas as estrelas. Os adeptos não podiam acreditar que, meses depois de atingir a glória do primeiro titulo europeu, o projecto se estivesse a desmantelar de forma tão rápida. Mas não havia volta atrás. Esperavam-se dias sombrias no Manzanares para a paróquia colchonera. Ou talvez não.
Apenas dois anos depois, os adeptos do Atleti voltaram a percorrer os 1300 kms que os separava do Mónaco. Em carro, autocarro ou avião. Para ver Falcao, Adrian, Arda Turan ou Courtois, os novos ídolos do Calderon.
Que um clube europeu vença dois titulos europeus num espaço tão curto de tempo não é anormal.
O Sevilla venceu duas Taças UEFA de forma consecutiva, o domínio do Barcelona no futebol europeu tem existido de forma, quase ininterrupta, desde 2006 e o próprio Real Madrid, entre 1998 e 2002 ganhou três Champions League. Mas em nenhum caso houve um corte tão drástico de um projecto para o outro.
O Atlético de Madrid vendeu a 15 dos jogadores do plantel da sua equipa campeã em 2010. Godin e Raul Garcia são os únicos nomes que estiveram nas duas finais no espaço de dois anos. O que torna o feito ainda mais difícil de explicar se não se conhece a forma como o clube colchonero se move pelos meandros do futebol.
A herança de Jesus Gil y Gil é pesada. Tanto pelo seu carisma como pelo passivo gigantesco que deixou para o seu filho, Miguel Angel Gil Marin, e o seu braço direito, o productor cinematográfico Enrique Cerezo, gerirem. O clube foi forçado pelas finanças espanholas a assinar um protocolo para abater a dividia gigantesca que ainda mantém com o estado espanhol. E que tardará largos anos em pagar-se na sua totalidade. O acordo prevê que 20% da percentagem de cada venda de um jogador do clube seja directamente remetida para pagar a dívida. Sem sequer entrar nos cofres do clube. Uma realidade que obriga o Atlético a vender sempre que surge uma boa oferta. E que obriga o clube a procurar bons negócios. E a desenhar o seu plantel a baixo custo. A esmagadora maioria dos seus jogadores chegou ao Calderon a custo zero ou por valores ridículos, tendo em conta o mercado actual. Adrian, Arda Turan, Emre, Cebolla Rodriguez, Raul Garcia, Juanfran e Cata Diaz foram todos contratados a custo zero. Courtois está emprestado pelo Chelsea e assim seguirá, fruto de um protocolo de colaboração entre os dois clubes. Desenhado por Jorge Mendes, figura fundamental na vida do clube.
O empresário português é um dos homens fortes do clube desde a sombra. Uma das suas holdings tem fortes interesses no clube, ajuda a gerir os contratos publicitários e utiliza o nome do Atlético para servir de ponte para a maioria dos seus negócios. Pizzi, Julio Alves, Ruben Micael, Diego Costa, Tiago são meros exemplos. Não há homem que entre no clube sem o visto de Mendes, hábil em conseguir dinheiro onde mais ninguém consegue. Foi ele o valedor do negócio de Radamel Falcao. O homem que permitiu que os colchoneros voltassem a viver um dia da marmota.
Depois da perda de Aguero e Forlan, o ataque órfão do Atlético precisava de uma referência. O empresário português persuadiu o colombiano a mudar de homem de confiança, renovou o seu contrato com o FC Porto ampliando a cláusula (e ganhando uma comissão) e depois geriu a sua venda ao Atlético de Madrid (ganhando outra comissão) em moldes muito mais atractivos para os espanhóis. 20 milhões pago a prontos (dos quais os azuis e brancos só viram 10, entre comissões e dividas pendentes) e outros 20 milhões a pagar em dez anos. Ruben Micael, outro dos seus homens, entrou no negócio para maquilhar as contas mas em Madrid ninguém o viu. Acabou em Zaragoza e agora está em Braga. De onde veio Pizzi que está na Corunha, onde Mendes tem mais seis jogadores e de onde veio Adrian. Entendem?
Falcao é o nome próprio deste Atlético.
Atrás de si, Diego Simeone, velha glória do clube e técnico que fez nome na Argentina antes de dar o salto à Serie A, montou uma equipa repleta de talento mas, sobretudo, de musculo. Um meio campo com o trabalho duro de Mario Suarez, Gabi, Koke e Tiago, que dá asas ao jogo vertical de Adrian, Arda e Falcao. Falta Diego, outro jogador que chegou cedido para ser fundamental no titulo europeu conquistado em Bucareste frente ao Athletic Bilbao, mas cuja massa salarial é incomportável para os colchoneros. É no entanto o colombiano quem faz toda a diferença. Não foi só o terceiro melhor marcador da liga - insuficiente para levar a equipa à Champions League, o grande objectivo - mas também carregou com a equipa durante a Europe League até decidir a final. No Mónaco foi igual a si mesmo. Cinco remates, dois postes, três golos, tudo em 45 minutos. Um fenómeno apenas equiparável, em tempos recentes, ao de Ronaldo Nazário.
Com o colombiano na equipa, o Atlético sabe que tem um projecto de rentabilidade a curto prazo. A directiva sabe que o objectivo é a Champions League e depois, com 15 milhões garantidos, é certo que Falcao será colocado de novo por Mendes, que muitos dos jogadores que chegaram a zero serão vendidos a peso de ouro e que o processo recomeçará de novo, desde o zero. Pelo caminho estão os jogadores ainda não pagos, como Fórlan, os sucessivos empréstimos conseguidos por Cerezo para pagar os salários a tempo e horas e o fantasma do novo estádio, La Peineta, para que o clube possa realizar o fundamental encaixe da venda dos terrenos do Calderon, numa zona privilegiada de Madrid. Números que, se não se concretizem, deixam o Atlético com a corda ao pescoço.
Ninguém duvida que, com Radamel Falcao, os madrileños são de novo favoritos a vencer a Europe League e têm condições para acabar no pódio da liga espanhola. A segurança defensiva, a grande obsessão do Cholo Simeone, será fundamental bem como a crescente aposta na formação, uma linguagem que os espanhóis aprenderam a saborear com os troféus recentes da sua selecção. Mas os seus adeptos sabem também que enquanto o clube viver entre dividas, nenhuma festa se poderá prolongar no tempo. Talvez por isso cada vitória tenha um sabor ainda mais especial, talvez por isso sentir que Falcao, um jogador por quem se pagou tão pouco e que seguramente renderá tanto, é o exemplo perfeito desta gestão. Com os contactos certos, sem dinheiro fresco na mão e pensando apenas no hoje também se desenha um projecto ganhador.