Messi marca dois golos em cinco minutos. O Valencia mostra ser o único capaz de resistir à ditadura goleadora do Real Madrid. O Barcelona arranca a época com goleada. Os golos escondem a pobreza da maioria dos duelos. A época é nova mas a realidade mantém-se igual. O futebol espanhol parte para a nova temporada com o orgulho do título europeu renovado e a certeza que o duelo Barça-Madrid vai voltar a ser até ao fim.
Higuain. Jonás. Puyol. Castro. Messi. Messi. Pedro. Villa.
Entre eles se repartem os oito primeiros golos marcados nos dois jogos de Barcelona e Real Madrid, esse clube exclusivo que mantém o interesse do Mundo numa liga cada vez mais mal organizada, cada vez mais dividida entre uns e outros e cada vez mais distante da imagem de supremacia absoluta que exibe, com orgulho, a selecção do país vizinho.
Semana após semana adeptos dos quatro cantos do Planeta vão parar para ver, ler, ouvir e seguir atentamente os combates à distância entre os dois máximos candidatos a todos os títulos da época, espanhóis e europeus. A diferença de planteis e orçamentos dos dois clubes com o resto é tal que esse duopólio se torna inevitável. Sem resolver a negociação dos direitos televisivos, o fosso aumenta e com ele esse espirito quase claustrofóbico em que vive o futebol espanhol. O Valencia demonstrou no primeiro jogo o que tem vindo a conseguir nos últimos cinco anos. É o único clube que, apesar dos problemas financeiros, se mantém minimamente perto do duo da frente. Mas com uma distância considerável. O empate no jogo inaugural do Bernabeu não é novidado. O ano passado houve menos dois golos mas os pontos foram divididos da mesma forma. O Real venceu o título, o Valencia venceu o título da outra liga. E o Barcelona, em casa, goleou. Como fez quase semrpe nos 19 jogos disputados no último ano de Guardiola. O novo comandante da nau blaugrana, Tito Vilanova, prometeu manter-se fiel ao guardiolismo sem guardiola. Os números e o estilo de jogo dão-lhe razão. Poucos deram pela diferença. Messi continua a ser Messi, e quando é assim, os golos surgem com uma naturalidade única. Foram dois em cinco minutos. Podiam ter sido mais dois. Ninguém teria ficado demasiado surpreendido. A vitória do Barcelona entrega-lhe não só a liderança matemática na primeira ronda, o que é irrelevante, como deixa boas sensações para o primeiro combate de boxe a sério entre blaugranas e merengues, uma Supertaça express a decidir em poucas horas e com muito simbolismo à mistura.
Na passada época o Real Madrid começou a dar sinais de que esse podia ser o seu ano no duplo confronto inicial com o Barça.
Perdeu o titulo mas ganhou em futebol, ganhou em confiança e autoridade. A pré-época tinha sido feita a pensar na simbologia desse duelo e no final as pernas começaram a faltar também por culpa dessa obsessão de Mourinho. Este ano o português prometeu pensar mais na liga e na Champions e menos no seu duelo pessoal com o clube catalão. Já lhes venceu na Copa del Rey, já lhes venceu na Liga e agora a Champions é a última fronteira. Com ou sem simbolismo a Supertaça pareça, nesse sentido, algo supérfulo a todos os sentidos. Mas em Barcelona não o é.
O clube é um leão ferido e depois de uma semana dolorosa, onde perdeu liga, Champions e um treinador de lenda, vencer o primeiro confronto directo com o eterno rival pode ser um bálsamo precioso. A chegada de Song traduz-se numa adaptação definitiva de Mascherano a central. O golo de Villa garante que o Guaje é o reforço no ataque que fazia falta e com os mesmos de sempre, Vilanova sabe que tem o melhor plantel da Europa à sua disposição. A pressão é imensa mas a margem de crescimento é evidente.
O Mundo, esse, continuará a ver nos duelos Barcelona-Madrid a essência do futebol espanhol, passando ao lado da crua realidade.
Clubes com salários em atraso há meses, contratos televisivos desrespeitados, horários insultuosos, guerras de poder nos bastidores, jogadores de talento que se vão e poucos que chegam e, sobretudo, uma progressiva perda de qualidade nas equipas de meio da tabela. As baixas no Athletic de Bilbao de Bielsa, a juventude do Atlético de Simeone, entregue agora a um rapaz de 17 anos que despontou no Europeu de sub-19, a falta de liquidez do projecto de Pellegrini com o Málaga e os orçamento apertados de Sevilla, Bétis, Espanyol, Mallorca, Deportivo, Real Sociedad, Getafe ou Levante não deixam de preocupar o adepto neutral que, face a esse cenário, não se pode surpreender quando, semana atrás semana, Messi e Ronaldo goleiam a seu belo prazer defesas que, na totalidade, valem metade das suas botas.
O futebol espanhol continua entretido a brincar aos títulos europeus e mundiais e aos duelos de capa e espada de Barcelona e Madrid. Por detrás da glória há um imenso problema estrutural que foi a base da depressão que vive agora a Série A. O dinheiro começou a faltar, os clubes que aspiravam a algo foram desaparecendo, a televisão não acompanhou as mudanças e a Liga estagnou até morrer à sede. Mediaticamente continua a ser um torneio apaixonante por esse duelo maratoniano, mas futebolisticamente a Liga espanhola vai caminhando, progressivamente, para uma long depressão. Novo ano, nada de novo!

