O futebol inglês encerrou esta semana um ciclo de 15 anos da sua história. Um ponto final surpreende, pelo simbolismo, mas evidente pela forma como a competição se foi adaptando a uma nova realidade de novo-riquismo que domina a elite da Premier League. A mudança de Robbie van Persie de Londres para Manchester não é apenas uma das transferências do ano. É a primeira mudança de um jogador do Arsenal para o Man United em 25 anos. É a transferência que termina, oficialmente, com uma época em que os gunners olhavam de igual para igual aos red devils. Durante quinze anos dividiram o protagonismo da prova. Agora competem em universos distintos.
Alex Ferguson voltou a levar a melhor sobre Arsene Wenger. Mas a vitória tem agora um sabor diferente.
O francês já não é o seu rival. Já não é o alvo a abater, já não está nas principais da Bwin para o título. E já não é a sua principal preocupação. Quando Wenger chegou a Highbury Park da liga japonesa, em 1996, o Manchester United de Ferguson estava a consolidar o seu dominio na Premier League, conquistando o quarto titulo em cinco edições, apenas suplantado por uma ocasião pelo Blackburn Rovers. Nos 15 anos seguintes o único clube capaz de desafiar de forma regular os homens de Old Trafford eram liderados, precisamente, por Wenger.
Até à chegada de Abramovich ao Chelsea, dividiram todos os títulos principais do futebol inglês. Depois do hiato de dois anos do Chelsea - liderado por José Mourinho - voltaram a ser os principais rivais na prova. Mas o dinheiro injectado pelo russo nos londrinos de Stanford Bridge e a chegada do sheik Al Mansour ao Manchester City foram acabando com o duopólio. O Big Two passou a Big Four, então com o Liverpool e mais tarde com o City a fechar o poker de clubes que podiam aspirar ao titulo da Premier. Mas sem dinheiro - devido à aposta do clube em fazer do Emirates Stadium uma nova fonte de ingressos a curto prazo - e perdendo as suas estrelas, de alguma forma Wenger conseguia estar sempre aí. O seu Arsenal nunca terminou abaixo do terceiro lugar desde a sua chegada. Nunca falhou a fase de grupos da Champions League, prova maldita para o gaulês. E nunca cedeu à tentação de render-se às investidas de Ferguson.
Wenger preferiu perder Nasri para o Manchester City, Fabregas para o Barcelona e Cole para o Chelsea antes de os vender a Ferguson. Com o escocês travou mais do que batalhas ideológicas e dialécticas. Até à chegada de Mourinho os dois monopolizaram o império mediático da Premier. Depois da saída do português afastaram-se ainda mais. Na hora da verdade Wenger confessou que tentou tudo para não perder o jogador holandês para o Manchester United. Mas desta vez não teve alternativa. E fechou-se um ciclo histórico.
Com Van Persie o escocês conseguiu o que queria.
Acabou com um rival directo de forma definitiva. Parece evidente que hoje o titulo inglês é questão de três, de três clubes com poderio financeiro suficiente para aguentar esta corrida ao armamento que terá, mais tarde ou mais cedo, outros danos colaterais. O Liverpool foi o primeiro e agora definha nos últimos postos europeus, depois de ter sonhado alto com Rafa Benitez. O Chelsea sofreu-o na pele e só o triunfo na Champions League despertou a vontade de Abramovich de contrariar uma tendência recente e volta a injectar sangue novo - pago a peso de ouro - no clube. E agora o Arsenal, vitima de uma politica louvável mas que o está a afastar, progressivamente, dos títulos. O clube é o porta-estandarte do programa Fair Play da UEFA mas no terreno de jogo a sua aposta em manter uma massa salarial controlada e um gasto em transferências que não aumente o passivo do clube teve um duplo efeito negativo. Não só afastou os gunners dos títulos como levou os seus principais jogadores a procurarem o dinheiro e os troféus nos seus rivais mais directos.
Wenger não joga num jogo limpo e sabe-o. Manter-se fiel à sua filosofia é louvável mas suicida e agora o técnico sabe que o máximo que pode aspirar é repetir a enésima presença na Champions League num duelo quente com Tottenham, Liverpool e Newcastle, equipas cujo o orçamento e gastos em transferências se equipara ao dos londrinos. A anos-luz estão os outros, os homens dos títulos.
O United tem lidado com o grave problema de resolver aos Glazer a sua própria divida e isso tem sido um grave handicaap nos últimos anos para Ferguson. A formação do clube não tem dado os frutos esperados a curto prazo, a maioria dos jogadores contratados são jovens de potencial e a necessidade de recorrer cada vez mais à velha guarda é evidente. Este defeso foi um passo fundamental para mostrar que o clube está ainda no topo. A chegada de Van Persie para unir-se no ataque com Wayne Rooney equivale em importância moral ao "roubo" de Eric Cantona ao Leeds United, então rival directo dos Red Devils na Premier. Com o japonês Kagawa a dar ao meio-campo a classe que faltava, espera-se este ano um Manchester mais agressivo, eficaz e autoritário. Uma equipa montada a longo prazo para aguentar os gastos loucos do Manchester City - que continua a ser o grande favorito - e de um Chelsea rejuvenescido a peso de ouro.
Apesar das chegadas de Giroud, Cazorla e Podolski, o Arsenal sai claramente desfigurado deste negócio. Baixou oficialmente um degrau e deixou de ser uma equipa a contar na luta pelo titulo, mesmo que nos últimos anos isso tenha sido sempre uma miragem. Os próximos anos da Premier vão definir-se sobretudo à volta dos clubes com dinheiro vivo e sobreviverá aquele que melhor aguente a concorrência. O grande trabalho de Wenger será agora evitar que o Arsenal repita o exemplo do Liverpool e se mantenha a uma distância saudável do pódio, esperando algum deslize. Talvez assumindo definitivamente que a Premier é outro cantar possa o técnico finalmente focar-se na Champions League e ganhar o único troféu que lhe falta, aquele que mais tem merecido e que sempre se lhe tem escapado. O Chelsea e o Liverpool lograram-no nas horas mais baixas. Quem impede o Arsenal de seguir pelo mesmo caminho?