Vencer a Champions League muitas vezes é o culminar de uma equipa que entra para a história. No caso do Chelsea não podia ser mais verdade. O onze que logrou em Munique o primeiro troféu de campeão europeu para os londrinos faz parte da história do clube mas não do seu futuro. Foi o último suspiro de uma geração de veteranos que várias vezes bateu à porta sem nunca conseguir entrar. Sem a sua guarda pretoriana o Chelsea tem nas mãos o dificil desafio de reinventar-se com base no talento e na juventude dos jovens leões de Stanford Bridge.
Hazard. Oscar. Marin. De Buyne. Lukaku.
Nomes próprios do futuro azul, nomes próprios de uma nova era. Uma era pós-Champions League.
O clube londrino venceu o troféu em Maio com uma geração perto do seu final. Muitos dos membros do plantel saíram a custo zero. Outros sabem que têm poucos anos pela frente na elite. Terry, Cech, Lampard e Cole são conscientes que alcançaram o pináculo das suas carreiras e que o próximo ano pode bem ser o último no clube onde estiveram a última década. Os homens que Mourinho forjou e que Di Matteo levou ao titulo europeu podem ir com a sensação de missão cumprida. É aos novos que chegam que fica a dura missão de manter o nível bem alto.
O processo de rejuvenescimento do clube arrancou à dois anos. O Fair Play financeiro da UEFA foi o primeiro alerta na gestão de um clube habituado a gastar muito e bem. Antevendo os problemas de futuro os directivos do Chelsea entenderam que era necessário repetir a operação de 2003 e 2004, rejuvenescer ao máximo o plantel para aguentar largos anos e assim evitar as investidas no mercado.
Ramires, Ivanovic, Fernando Torres, Juan Mata, Raul Meireles, David Luiz, Cahill e Thibaut Courtois foram contratações cirúrgicas a pensar no hoje e sobretudo no amanhã. Mas não foram as únicas. Para a cantera Blue foram recrutados jovens dos vários cantos de Inglaterra e do velho Continente para estarem preparados a dar o salto para a equipa principal. Mas por muito lógica que fosse a politica do clube, ela esbarra com a única ambição do seu dono, Roman Abramovich: o titulo europeu.
As saídas de Ancelotti e Villas-Boas, homens que trabalhavam o futuro mas que falharam em cumprir o sonho do seu patrão omnipotente, deixaram também a sua marca na politica do clube. Os pesos pesados eternizavam-se e muitas promessas, como o italiano Borini, perdiam-se definitivamente por valores irrisórios apesar do seu futuro prometedor. A vitória de Di Matteo serve também como ponto de inflexão nesta politica auto-destructiva. Com o objectivo cumprido o Chelsea tem agora tempo para redesenhar-se.
As saídas de Bosingwa, Kalou, Drogba, Deco, Anelka, Ballack foram o primeiro passo.
Em dois anos o plantel emagreceu e rejuvenesceu-se. Agora é a época das contratações definitivas, da mudança táctica que muitos adeptos pedem a gritos rumo a um futebol de posse, de controlo sem esquecer a velocidade como arma preferencial, um regresso ás origens do Special One.
O clube moveu-se bem e rápido no mercado e contratou duas das maiores esperanças do Velho e Novo continente. Do Lille gaulês chega Eden Hazard, o futebolista continental mais similar a Zinedine Zidane que sobrevoa os relvados do futebol europeu. Hazard é um génio longe dos holofotes mediáticos e em Londres assumirá a batuta de liderança de um projecto que tem o seu rosto. Eficaz, dono de uma técnica invulgar, maestro das bolas paradas, fisicamente dotado, o belga tem tudo para ser o futuro dos londrinos. Ao seu lado o brasileiro Óscar, a enésima reencarnação do "malandro" canarinho, maestro da finta e do passe, dono de uma visão de jogo invejável e de um estilo difícil de descrever usando apenas palavras. Entre ambos a bola rolará com a finura e determinação de um primeiro amor. Para meter velocidade ao jogo, as pernas do alemão Marko Marin e do belga Kevin De Bruyne, dois extremos à europeia, fisicos, intensos, velozes e peritos na arte dos cruzamentos, jogadores capazes de abrir o campo ou rasgá-lo em diagonais venenosas. Jogadores capazes de dar o arrojo que o Chelsea não tem desde os dias de Arjen Robben e Damien Duff.
Na frente de ataque continua o dueto espanhol Torres-Matta, dois jogadores superlativos em estado de graça, agora acompanhados definitivamente pelo belga Romelu Lukaku. Jogador dono de uma força e uma potência fora do normal, Lukaku teve poucos minutos na passada época mas com a saída de Drogba, com quem partilha mais do que semelhanças físicas, pode ser a grande surpresa do ataque londrino.
Di Matteo conta com um arsenal de respeito. Num 4-3-3 esperem ver muitos destes rostos no banco porque não há vagas para todos, numa lista onde se movem ainda Malouda e Sturridge. No meio-campo, ao lado da classe, a força de Ramires, a tenacidade de Meireles e o trabalho de Obi Mikel para dar o equilibrio necessário que a defesa composta por Cahill-David Luiz deverá reforçar ao longo da época. As laterais continuam a ser o calcanhar de aquiles do clube e talvez seja aí onde o mercado volte a funcionar para os Blues que até se dão ao luxo de deixar Courtois em Madrid mais uma época, confiantes que estão na genialidade eterna de Petr Cech.
Com este cenário - e sonhando ainda com Hulk e Falcao, nomes que sempre rodeiam o futuro dos azuis - o Chelsea apresenta credenciais mais do que suficientes para defender a coroa europeia. Mas que ninguém se engane. Este é um projecto de futuro, desenhado para a próxima década com jogadores extremamente jovens mas com um potencial tremendo. Um projecto que se inspira na brilhante trajectória espanhola, na classe centro-europeia, no músculo africano e no espírito britânico para criar um cocktail de emoções e movimentos capazes de marcar uma geração.

