Poucos treinadores têm sido tão criticados pelos próprios jogadores nos últimos anos do futebol português como Jorge Jesus. O técnico encarnado tem reconstruído plantel ano atrás anos desde a sua chegada ao SL Benfica mas os resultados apenas têm piorado substancialmente as performances anteriores. Entre os confrontos no balneário e os erros tácticos, o crédito de Jesus esgota-se a pouco e pouco num estádio da Luz que continua sem saber o que é vencer um titulo durante duas épocas consecutivas desde os anos 80.
1983/84.
Esse foi o último ano em que o SL Benfica logrou revalidar o titulo de campeão nacional. Com uma das melhores e mais eficazes formações da sua história, comandadas pelo sueco Sven-Goren Eriksen, o conjunto encarnado confirmou a sua superioridade a nível doméstico batendo pelo segundo ano consecutivo o FC Porto. Uma equipa em que militavam nomes sagrados da história do clube encarnado, de Nené a Chalana sem esquecer Bento, Carlos Manuel, Manniche, Stromberg, Filipovic, Álvaro. Uma equipa desenhada com outra mentalidade e que não encontrou eco nas quase três décadas seguintes. O Benfica voltou a ser campeão - por seis vezes, apenas - mas nunca de forma consecutiva. O saber ganhar e a mentalidade que marcaram a era dourada encarnada tinha desaparecido e sido substituída pela hegemonia do FC Porto a nível interno e externo.
A chegada de Jorge Jesus e o seu título, logrado na primeira época ao serviço do clube, levantou nas hostes encarnadas um profundo desejo de voltar ao passado, a essa filosofia de vitória contra tudo e contra todos. Mas dois anos depois, o legado de Jesus foi desmantelado progressivamente, em parte por culpa da política vendedora obrigatória para qualquer clube português mas, sobretudo, pela gestão do técnico no balneário encarnado. Jesus perdeu Ramires, Di Maria e Coentrão, é certo, mas a essência do plantel do primeiro titulo acompanha-o ainda e pelo caminho na Luz viveu-se uma espiral de contratações e dispensas que relembra mais o desnorte da década de 90, das etapas de Manuel Damásio e Vale e Azevedo, do que de um clube que quer algo mais.
Em 2010 o conjunto encarnado venceu a liga com um bloco forte e um modelo extremamente ofensivo. Mas já então se percebia a falha na estratégia de Jesus. Depois de uma primeira volta intensa, com várias goleadas pelo caminho, a equipa perdeu gasolina. A incapacidade do técnico de dosificar os seus principais jogadores permitiu uma aproximação dos rivais directos. O FC Porto, em modelo auto-destructivo e sem Hulk, afastado da competição durante largos meses, venceu o confronto directo que os distanciava mas então a luta já era com o Sporting de Braga, uma equipa com menor plantel mas que soube administrar bem as pernas e manteve o duelo aceso até ao fim. Na euforia da vitória poucos foram os que viram os sinais que se repetiriam no ambicioso projecto do ano seguinte.
Em 2010/11 o Benfica pecou como nunca. Pecou de arrogância e pecou de gula.
Jesus dispensou o guarda-redes do titulo com uma frieza que repetiria no futuro e apostou tudo num espanhol que chegou à Luz num negócio difícil de explicar. Pecou nas contratações - especialmente para tapar as baixas de Di Maria e Ramires - e pecou no esquema que adoptou, partindo literalmente a equipa entre o ataque e a defesa, especialmente a partir do momento em que o homem encarregado de apagar todos os fogos, Ramires, já não estava. E pecou de arrogância quando declarou que ambicionava o titulo europeu e concentrou as suas atenções na prova rainha, desgastando fisicamente os seus jogadores de uma forma demencial. Quando a eliminação precoce na prova dos milhões se confirmou, já o FC Porto levava uma profunda vantagem pontual e emocional - com goleada ao rival directo incluida - e as pernas dos encarnados não permitiam sonhar com uma recuperação. Começaram a sentir-se as primeiras fissuras no balneário e Jesus, em vez de surgir como elemento aglutinador, especializou-se em ser o causante das fricções.
No final do ano desfez-se do útil Carlos Martins, da aposta Roberto e foi afastando dos seus planos os determinantes Saviola e Cardozo apesar deste, inevitavelmente, continuar a disputar a titularidade á base de golos. Na última temporada foram Eduardo e Ruben Amorim a cair em desgraça com um técnico que não os poupou publicamente abrindo ainda mais o fosso entre plantel e corpo técnico. Os resultados, nem assim, chegaram. Não podiam. Tacticamente a equipa continuava perdida, órfã da ideia original, e quando a vantagem pontual parecia ser suficiente, uma vez mais a péssima preparação física dos titulares e os erros tácticos de Jesus entregaram de bandeja o troféu ao rival, o improvável FC Porto de Vitor Pereira. Dois anos depois tudo aquilo que tinha feito de Jesus um treinador popular nas bancadas da Luz começava a virar-se contra ele. A direcção encarnada manteve a aposta no treinador - uma decisão que tem tanto de lógica como de inevitável, depois do discurso presidencial se ter unido de tal forma ao destino do técnico - e a máquina mediática continuou a lançar mensagens de optimismo mesmo quando o clube encarnado passou largos jogos da época 2011/12 sem utilizar um só português (antes um conceito profundamente defendido pela massa adepta encarnada, o último clube a contratar um estrangeiro no futebol português).
Assemelhando-se a técnicos de outro tempo, Jesus tem-se dedicado a comprar e dispensar jogadores com uma voracidade ilógica para quem quer criar um projecto de futuro. Emerson foi o último a sofrer o seu chicote, dispensado sem perdão depois de ter chegado apenas há um ano do campeão francês Lille. Ao espanhol Capdevilla espera-lhe talvez um destino similar. Dos jogadores actualmente no plantel, 21 foram contratados pelo técnico em três anos. Entre 2009 e 2012 chegaram 40 jogadores novos ao clube. Uma média inédita nos clubes de topo europeu e uma lista onde se contam enésimos erros de autor, escolhas pessoais de Jesus como Patrick, Shaffer, Carole, Wass, Jara, Fábio Faria, Roberto, Felipe Menezes, Weldon, Kardec, Airton, Djaló, Emerson ou Perez.
Jogadores que chegaram, não triunfaram e foram dispensados, encostados, emprestados ou inutilizados. Sob a mitologia de técnico de jogadores, técnico capaz de valorizar jogadores de baixo perfil, esconde-se o verdadeiro rosto de um técnico que erra muitíssimo mais do que realmente acerta.
Jesus entregou ao Benfica um dos dois títulos da última década, um feito notável tendo em conta as últimas três décadas do clube encarnado no futebol português. Mas há muito tempo que mais um problema do que a solução. A sua actuação no mercado e os problemas tácticos crónicos têm prejudicado claramente a progressão de um clube que gastou o que tinha e o que não tinha para reduzir a distância competitiva com o principal rival nacional. Mais do que erros semânticos e uma politica de comunicação anedóctica, em cinco anos de gestão, não só a diferença se mantém em títulos conquistados como na gestão desportiva. Jesus chegou como o profeta que ia igualar a balança. Com ele ao leme ela parece mais desequilibrada do que nunca.

