Desde a saída de Rafa Benitez que o Liverpool regressou aos angustiantes dias perdidos no meio da tabela classificativa, sem aspirações maiores do que um desejo profundo de chegar cedo ao fim do show. A chegada de Brendan Rodgers levanta de novo as esperanças da Kop mas apesar das boas intenções do técnico do Swansea, a competição britânica está, de tal forma, afunilada no topo que é difícil imaginar que a maldição dos Reds está perto do fim.
Kenny Dalglish saiu debaixo do mesmo cinzentismo que chegou depois de um mandato tenebroso de Roy Hogdson.
Desde que Rafael Benitez foi forçado a deixar Anfield, o caminho do clube que definiu o futebol profissional inglês a partir dos anos 60 entrou na enésima espiral auto-destructiva. Dalglish tinha sido o último treinador a sagrar-se campeão ao comando dos Reds mas a nostalgia não tem lugar numa prova dominada cada vez mais pelo massivo investimento de donos multimilionários.
Foi o ano em que o Chelsea e o Manchester City, os clubes que mais dinheiro gastaram no futebol mundial na última década, venceram a Champions League e a Premier League. O ano em que os milhões investidos em manter as principais estrelas do clube fizeram a diferença no duelo entre o Tottenham e os outros, apesar de no final a aposta tenha ficado sem prémio por culpa de uma regra pouco entendível por parte da UEFA. Foi a época em que o Arsenal voltou a sobreviver à razia financeira que o distancia, de ano para ano, dos demais e o ano em que o Manchester United, apesar de apresentar-se mais débil do que nunca, soube lutar pelo titulo até ao fim porque tinha dinheiro para isso. Nesse contexto qualquer projecto que queira intrometer-se neste duelo de milionários tem primeiro de aparecer com dinheiro. Até mesmo o Newcastle, clube historicamente gastador que, com Alan Pardew, aprendeu a ler bem os sinais do mercado, não aguentou o ritmo e acabou por contentar-se com sexto posto na tabela classificativa. Dalglish e Hodgson tiveram parte da culpa nas péssimas épocas do Liverpool nos últimos dois anos mas, como já Benitez tinha deixado antever, um clube sem investimento constante neste circo de milhões tem o destino traçado. O Liverpool de Rodgers corre perigosamente o mesmo risco.
No entanto tudo convida, como sempre, ao optimismo.
O Liverpool não tem propriamente um plantel invejável. Sem as últimas jóias da era Benitez, salvo os capitães Gerrard, Carragher e Reina, o clube conta com muitas promessas mas sem jogadores de classe mundial capazes de fazer a diferença. Luis Suarez, a melhor individualidade dos homens de Liverpool ainda não encontrou a forma constante que o transformará de eterna promessa a estrela consagrada. E sem a fortaleza táctica de Kuyt e um imenso fantasma à volta da contratação de Andy Carroll, são mais as dúvidas que as certezas.
Rodgers quer rodear-se de jogadores que entendam a sua filosofia de toque que tão bons resultados deixou em Swansea. Com os galeses, Rodgers foi um dos profetas do futebol atractivo numa Premier League ainda mais virada para um jogo mais directo e menos contemplativo. Juntamente com o Norwich e Newcastle, os homens de Rodgers foram a grande surpresa da passada época e não surpreende que o técnico se queira rodear de homens de confiança.
Joe Allen, um médio centro de excelente perspectiva futura, é o seu próximo objectivo para juntar-se a um miolo onde já anda Jordan Henderson, Charlie Adam, Alberto Aquilani e Lucas Leiva. No ataque o clube tem os olhos postos no norte-americano Clint Dempsey, mas as negociações com o Fulham, um clube que não tem necessidade de vender com facilidade, esbarram nos crónicos problemas financeiros do clube. Rodgers, que trabalhou no Chelsea durante o mandato de Mourinho, já recrutou um dos seus ex-jogadores de então, o italiano Fabio Borini à AS Roma, para dar essa mobilidade ofensiva tão necessária ao seu esquema de jogo. Mais ainda parece pouco, muito pouco, para aspirar a mais.
E para o Liverpool o mais agora já nem é, por muito paradigmático que pareça, o titulo. O clube necessita entrar no pote de ouro que é a Champions League mas para cair no top 4 mede armas com cinco clubes com maior orçamento, melhor plantel e mais experiência nos momentos decisivos. Uma nova época entre o quinto e o sétimo posto é uma agonia na mente de adeptos que cresceram habituando-se ao sucesso fácil mas que vivem mais de 20 anos da mais pura angústia.
Será uma época de dúvidas constantes para os homens de Liverpool. Por um lado o clube precisa de dar um sólido passo em frente para afirmar-se como uma séria alternativa aos candidatos aos lugares europeus. Mas sem o dinheiro necessário, Rodgers terá de operar um milagre com o escasso e pouco entusiasmante plantel que tem nas mãos. Um posto que antes era considerado como o máximo onde se podia chegar no futebol inglês transformou-se numa cadeira amaldiçoada. O homem que se segue sabe o que lhe espera. Resta saber se saberá também como fintar o destino.

