Quarta-feira, 25 de Julho de 2012
Desde a saída de Rafa Benitez que o Liverpool regressou aos angustiantes dias perdidos no meio da tabela classificativa, sem aspirações maiores do que um desejo profundo de chegar cedo ao fim do show. A chegada de Brendan Rodgers levanta de novo as esperanças da Kop mas apesar das boas intenções do técnico do Swansea, a competição britânica está, de tal forma, afunilada no topo que é difícil imaginar que a maldição dos Reds está perto do fim.
Kenny Dalglish saiu debaixo do mesmo cinzentismo que chegou depois de um mandato tenebroso de Roy Hogdson.
Desde que Rafael Benitez foi forçado a deixar Anfield, o caminho do clube que definiu o futebol profissional inglês a partir dos anos 60 entrou na enésima espiral auto-destructiva. Dalglish tinha sido o último treinador a sagrar-se campeão ao comando dos Reds mas a nostalgia não tem lugar numa prova dominada cada vez mais pelo massivo investimento de donos multimilionários.
Foi o ano em que o Chelsea e o Manchester City, os clubes que mais dinheiro gastaram no futebol mundial na última década, venceram a Champions League e a Premier League. O ano em que os milhões investidos em manter as principais estrelas do clube fizeram a diferença no duelo entre o Tottenham e os outros, apesar de no final a aposta tenha ficado sem prémio por culpa de uma regra pouco entendível por parte da UEFA. Foi a época em que o Arsenal voltou a sobreviver à razia financeira que o distancia, de ano para ano, dos demais e o ano em que o Manchester United, apesar de apresentar-se mais débil do que nunca, soube lutar pelo titulo até ao fim porque tinha dinheiro para isso. Nesse contexto qualquer projecto que queira intrometer-se neste duelo de milionários tem primeiro de aparecer com dinheiro. Até mesmo o Newcastle, clube historicamente gastador que, com Alan Pardew, aprendeu a ler bem os sinais do mercado, não aguentou o ritmo e acabou por contentar-se com sexto posto na tabela classificativa. Dalglish e Hodgson tiveram parte da culpa nas péssimas épocas do Liverpool nos últimos dois anos mas, como já Benitez tinha deixado antever, um clube sem investimento constante neste circo de milhões tem o destino traçado. O Liverpool de Rodgers corre perigosamente o mesmo risco.
No entanto tudo convida, como sempre, ao optimismo.
O Liverpool não tem propriamente um plantel invejável. Sem as últimas jóias da era Benitez, salvo os capitães Gerrard, Carragher e Reina, o clube conta com muitas promessas mas sem jogadores de classe mundial capazes de fazer a diferença. Luis Suarez, a melhor individualidade dos homens de Liverpool ainda não encontrou a forma constante que o transformará de eterna promessa a estrela consagrada. E sem a fortaleza táctica de Kuyt e um imenso fantasma à volta da contratação de Andy Carroll, são mais as dúvidas que as certezas.
Rodgers quer rodear-se de jogadores que entendam a sua filosofia de toque que tão bons resultados deixou em Swansea. Com os galeses, Rodgers foi um dos profetas do futebol atractivo numa Premier League ainda mais virada para um jogo mais directo e menos contemplativo. Juntamente com o Norwich e Newcastle, os homens de Rodgers foram a grande surpresa da passada época e não surpreende que o técnico se queira rodear de homens de confiança.
Joe Allen, um médio centro de excelente perspectiva futura, é o seu próximo objectivo para juntar-se a um miolo onde já anda Jordan Henderson, Charlie Adam, Alberto Aquilani e Lucas Leiva. No ataque o clube tem os olhos postos no norte-americano Clint Dempsey, mas as negociações com o Fulham, um clube que não tem necessidade de vender com facilidade, esbarram nos crónicos problemas financeiros do clube. Rodgers, que trabalhou no Chelsea durante o mandato de Mourinho, já recrutou um dos seus ex-jogadores de então, o italiano Fabio Borini à AS Roma, para dar essa mobilidade ofensiva tão necessária ao seu esquema de jogo. Mais ainda parece pouco, muito pouco, para aspirar a mais.
E para o Liverpool o mais agora já nem é, por muito paradigmático que pareça, o titulo. O clube necessita entrar no pote de ouro que é a Champions League mas para cair no top 4 mede armas com cinco clubes com maior orçamento, melhor plantel e mais experiência nos momentos decisivos. Uma nova época entre o quinto e o sétimo posto é uma agonia na mente de adeptos que cresceram habituando-se ao sucesso fácil mas que vivem mais de 20 anos da mais pura angústia.

Será uma época de dúvidas constantes para os homens de Liverpool. Por um lado o clube precisa de dar um sólido passo em frente para afirmar-se como uma séria alternativa aos candidatos aos lugares europeus. Mas sem o dinheiro necessário, Rodgers terá de operar um milagre com o escasso e pouco entusiasmante plantel que tem nas mãos. Um posto que antes era considerado como o máximo onde se podia chegar no futebol inglês transformou-se numa cadeira amaldiçoada. O homem que se segue sabe o que lhe espera. Resta saber se saberá também como fintar o destino.
De Vitor Hugo a 25 de Julho de 2012 às 22:57
A análise é correcta, Miguel, mas ainda falta muito para o plantel estar definido. Há ainda muitas possibilidades de entradas e saídas (Reina? Skrtel? Agger? Aquilani? Carrol? Adam?). Além do que disseste, há ainda 3 ou 4 grandes talentos na equipa de reservas nos quais eu acho que o Rogers vai apostar.
@Vitor Hugo,
Sem dúvida que o mercado não fechou mas foi o próprio Rodgers que afirmou que o clube não tem margem de manobra para operar no mercado. Qualquer gasto terá de ser feito depois de uma venda e, tendo em conta que o plantel não é muito grande, seria uma compra na área onde o jogador sai. E tirando o caso Carroll, falamos de jogadores defensivos, uma das debilidades crónicas do Liverpool.
A cantera do Liverpool tem jogadores muito promissores mas muito verdes e vai ser complicado adaptá-los às exigências da Premier se a equipa tem de competir com clubes que vão perder muitos poucos pontos porque têm mais dinheiro e um mais plantel para gerir esses momentos.
O caso de Sygurdson, que Rodgers teve no Swansea e tentou levar para Anfield e preferiu o Tottenham diz bem do nível financeiro actual do "Pool" na conjuntura Premier League.
um abraço
Concordo, mas acho que ainda assim não estão a altura da concorrência.
De João Varela a 26 de Julho de 2012 às 09:43
Como adepto do Liverpool gostei muito da noticia da contratação do Rodgers. Já era mais mais do que altura para largar os esquemas ´tácticos e estratégias de jogo tipicamente inglesas oferecidas pelo Roy Hogdson e pelo king Dalglish. Podem ter sido propostas futebolísticas com resultados de há umas décadas para cá, mas no contexto actual do futebol, era muito dificil para não dizer impossível alcançar o sucesso.
Rodgers apesar de Britânico tem uma visão renovada do futebol, com bases assentes no jogo apoiado e na rotatividade de sectores.
Ainda assim e apesar desta mudança a nível de ideias, concordo contigo Miguel, este plantel está ainda muito longe de competir com os gigantes milionários da Premier League. Quanto a mim apenas Glen Johnson, Agger,Enrique, Lucas, Gerrard, Suarez tem qualidade aceitável para se debater com os principais objectivos.
Algo que eu não consigo perceber é, dado que o Liverpool foi adquirido supostamente por uma empresa milionária norte-americana, e que no ano passado gastou 40 milhões de euros num jogador como o Carroll, agora não tenha disponibilidade financeira para disputar jogadores de nível médio (nem digo jogadores de topo). Sinceramente há coisas que não percebo, esta é uma delas...
Enfim, espero que esteja enganadoe que no fim do ano os Reds espalhados pelo mundo possam todos festejar o tão ambicionado título Inglês.
Cumprimentos
@João,
É relativamente fácil. Esta equipa de norte-americanos tem uma postura com o desporto bastante diferente dos americanos do Man Utd (que usam o clube para lavar dinheiro) e dos investidores russos e árabes de Chelsea e City.
A gestão de Hicks e companhia quer aplicar no futebol a gestão do baseball e futebol americano, recorrendo aos dados estatisticos, à cultura desenvolvida pelo Moneyball, e até agora ainda não conseguiram encontrar uma correlação entre ambos. Procuram contratar jogadores subvalorizados no mercado que apresentam valores que indicam que podem ser melhorados. Com Carroll fizeram o oposto, os números pareciam indicar-lhes que seria uma estrela mundial e avançaram para o negócio. Agora arrependem-se porque não tiveram em consideração outros factores.
A própria directiva confessou que a gestão desportiva à americana foi errada e que só agora estão a entrar na dinâmica britânica. Mas não são investidores de deitar dinheiro pela borda fora pelo que o mais provável é ver o Liverpool contratar jogadores do perfil de Allen, Adam ou Henderson e tentar formar um bloco sólido, sem estrelas ou grandes investimentos. Mas isso tem o seu preço.
um abraço
De João Varela a 26 de Julho de 2012 às 15:54
Miguel,
Obrigado pelo esclarecimento. Aliás acho que seria muito interesante escrever alguns artigos sobre os diversos tipos de gestão aplicados em clubes deste género.
Ainda assim, discordo quando aponta por exmeplo o Henderson, como um investimento do tipo Moneyball. Se nãome engano a sua transferência rondou os 20 milhões de euros, não tendo ainda atingido um grande nível exibicional (apesar de considerar que é um jogador com algum potencial). Neste caso parece-me que foi mais a pedido do Dalglish, e de acordo com a sua tendência em tornar o plantel e a forma de jogar ainda mais britânica.
Acho errado da parte do Rodgers em continuar a apostar em mais jogadores britânicos, se quiser sair do habitual esquema usado no Liverpool. Não querendo com isto dizer que o Allen não seja bom jogador, mas penso que jogadores proveniente de outras culturas futeboltisticas mais baseadas no futebol de toque poderiam enriquecer de outra forma o plantel e trazer outro tipo de mudanças a menor prazo.
Abraço
@João,
Precisamente por isso foi o Borini e o Sygurdson os jogadores que ele mais queria, os primeiros ex-Swansea que abordou.
O Henderson chegou com essa etiqueta de promessa futura mas os preços da Premier são assim, raramente permitem borlas mesmo com jogadores sem perfil de futuro. O Man Utd pagou uma fortuna por Powell e Phil Jones quando ainda não são mais do que promessas.
um abraço
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