Quinta-feira, 19 de Julho de 2012

O grande sucesso do Barcelona na última década parte da base primordial na aposta na formação. Uma área mitificada pela construção da Masia nos anos 70 mas que só com a chegada de Louis van Gaal se tornou numa prioridade para os dirigentes do clube. Mas essa relação histórica entre a primeira equipa e a cantera parte de um principio de desconfiança histórica. O exemplo perfeito são os 65 milhões gastos nos últimos anos para recomprar o producto da formação a quem o clube não viu futuro. Piqué, Fabregas e agora Jordi Alba, nomes próprios de uma história com muitos parêntesis.

Piqué chegou em 2008 ao clube a preço de saldo. 

Alex Ferguson acreditava que a sua incapacidade no jogo aéreo era um problema e deixou-o voltar a Barcelona. O Manchester United tinha contratado o catalão quando este cumpriu 16 anos. O clube blaugrana não lhe augurava futuro e ofereceu-lhe um contrato de tostões. Aconselhado pela familia - históricos dirigentes do clube - Piqué aceitou a proposta dos Red Devils e partiu para Old Trafford. Durante quatro anos tentou entrar nas contas do técnico escocês mas sem grande sucesso, tendo sido emprestado durante uma época ao Zaragoza. Cansado de esperar por aquele que viria a ser um dos melhores centrais do Mundo, Ferguson permitiu-lhe negociar com o Barça de Guardiola. Por 5 milhões de euros.

Cesc Fabregas, amigo de formação de Piqué e de outro rapaz a quem o clube sim prestou mais atenção - um tal de Lionel Messi - também teve de encontrar espaço em Inglaterra porque na Masia pensavam que a sua adaptação às exigências do futebol profissional seria complexa. Fabregas percorreu os mesmos passos de Piqué nas camadas de formação e a custo zero marchou para Londres onde Wenger lhe prometeu protagonismo. E teve-o. Tornou-se no maestro do meio-campo do Arsenal e depois das saídas de Henry e Bergkamp, o lider espiritual do projecto gunner. Referência absoluta do jogo do Arsenal, sofreu ano atrás ano com o desejo de incorporar-se a uma equipa que, pela primeira vez, estava a fazer exactamente aquilo com que ele sonhava de pequeno. Com o seu mentor como técnico, o seu idolo de maestro e os seus colegas de formação de protagonistas, a Fabregas jogar no Barcelona era mais do que um desejo, tinha-se tornado numa necessidade. O negócio, a duras penas, concretizou-se finalmente em 2011 por 45 milhões de euros.

Esta Verão junta-se a esta dupla outro filho rejeitado da Masia. Quando era pequeno, Jordi Alba jogava de extremo e era uma das máximas referências das equipas de infantis do Barcelona. O seu protagonismo era tal que foi escolhido para protagonizar, com Louis van Gaal, o video de inauguração das obras do novo centro de treinos. Mas, de um momento para o outro, o clube desprendeu-se dele e Alba teve de deixar o seu sonho encostado num canto enquanto convencia Unay Emery, em Valencia, de que era o jogador que ele procurava. O técnico basco transformou-o em lateral ofensivo e fez dele uma das referências de futuro para o futebol espanhol. Sem Capdevilla ou Arbeloa, o seleccionador Vicente del Bosque não hesitou em entregar-lhe o flanco e Alba correspondeu com um torneio inesquecível. Pelo meio apareceu, arrependido, o Barcelona e por 14 milhões (um negócio facilitado por este ser o seu último ano de contrato com os che) o jovem lateral cumprirá o seu sonho. 

 

São três casos que exemplificam bem como o clube blaugrana sempre lidou mal com a sua própria essência.

Nos anos 70, quando chegou a Can Barça, Laureano Ruiz, o homem por detrás do espirito de rondo e da Masia - ainda por construir - queixou-se que os dirigentes do Barcelona eram os que menos acreditavam nos seus próprios jogadores. As declarações de Xavi Hernandez, revelando que o clube pensou vendê-lo por várias vezes, antes da chegada de Guardiola, dão-lhe razão.

Apesar de agora vender a aposta na formação como uma imagem quase exclusiva, o Barcelona sempre foi um clube de negócios, de mercado e muito pouco de formação. Quando Johan Cruyff, outro dos teóricos da revalorização da cantera, chegou a Barcelona, a primeira coisa que exigiu a Josep Lluis Nuñez foi a contratação de um batalhão de jogadores bascos, entre os quais Andoni Zubizarretta, Julio Salinas, Andoni Goikotchea e José Maria Bakero porque considerava que os alunos da formação blaugrana não tinham capacidade mental para aguentar a alta competição.

Durante o arranque do Dream Team apostou apenas em três jogadores da casa, Luis Milla primeiro, e depois Josep Guardiola e Albert Ferrer. No meio das estrelas compradas a peso de ouro (Romário, Koeman, Stoichkov, Laudrup) e de jogadores do norte do país, esse foi o impacto real do cruyffismo na aposta determinante pela formação do clube catalão.

Durante a década que mediu a saida de Cruyff e a chegada de Rijkaard, o clube viveu tremendos altos e baixos, financeiros e instituicionais, mas pela mão de Louis van Gaal alguém finalmente compreendeu a importância real da Masia. Quando o técnico holandês - a quem não se lhe conhece sentimentos pró-catalães - declarou que o seu sonho era ganhar uma Champions League com onze jogadores formados na Masia, a imprensa da cidade Condal riu-se, os jogadores riram-se, os directivos riram-se e Guardiola fechou os olhos e sonhou. Dez anos depois, em Londres, quase que logrou cumprir esse sonho. Com os homens a quem van Gaal deu oportunidades. Gaspart quis vender Valdés, Xavi e Puyol para pagar o investimento em Rustu, Christanval e Rochemback mas van Gaal apostou tudo neles. Também deixou depositadas esperanças em Luis Garcia, Oleguer Presas e Andrés Iniesta. Nomes resgatados de um túnel desconhecido para a maioria dos adeptos blaugrana. Rijkaard colheu os lucros imediatos, Guardiola aperfeiçoou o modelo e hoje a imprensa faz eco desse amor histórico entre as "gents" de Barcelona e os filhos da "Masia". Os casos de Piqué, Fabregas a Alba, resgatados a peso de ouro e vendidos agora como filhos pródigos que voltam a casa funcionam num espaço mediático onde a memória é escassa mas como eles há dezenas de outros jogadores que algum dia poderão voltar nas mesmas condições ao Camp Nou. 

 

Tito Vilanova, outro filho da Masia que teve de ir fora para voltar para casa com galões aos ombros, poderá este ano alinhar mais do que um onze de miudos que passaram pela fabrica de formação. Valdés, Fontás, Puyol, Piqué, Alba, Busquets, Xavi, Iniesta, Fabregas, Cuenca, Tello, Thiago, Messi e até Pedro (que chegou a Barcelona já com 17 anos). Mas lembrando os 65 milhões gastos em três jogadores fica no ar a sensação de que se não fosse por dois holandeses como van Gaal e Rijkaard, talvez a directiva de Sandro Rossell tivesse de andar a pescar Iniestas, Xavis, Puyols, Valdés e Messis por esse mundo fora. O FC Barcelona sempre foi um clube com muitos esqueletos no armário. A sua politica de formação é, paradoxalmente, o maior de todos eles e, hoje em dia, a sua melhor arma para uma politica de comunicação que consegue multiplicar fora dos relvados os triunfos logrados sob o tapete verde. 


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publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:49 | link do post | comentar

10 comentários:
De Afonso a 19 de Julho de 2012 às 16:14
gostei do texto.

tenho uma pequena grande duvida em relação á influência de Van Gaal nessa aposta na cantera porque me lembro de ver um Barça com 7 ou 8 holandeses treinado por ele (Reinzinger, Overmars, Bogard, Zenden e outros que tais). Ora as duas coisas, não sendo mutualmente exclusivas, estão lá perto.

essa desconfiança quase religiosa com que a maioria dos adeptos vêm os jogadores saidos da formação dos seus clubes é um tema interessante, o meu clube é prodigo nisso.

qual achas que serão os clubes cujas massas adeptas melhor encaram essa transição?
provavelmete clubes ingleses, tipo Arsenal, mas é apenas um palpite.

congratulo-me por finalmente estares convencido com o Alba, não me posso esquecer que lhe chamaste o ponto fraco da Roja antes do Euro, quando antes, com o Capdelvilla, é que era mesmo.



De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Julho de 2012 às 18:55
Afonso,

Sem dúvida o Alba oferecia-me sérias dúvidas quanto ao rendimento no colectivo espanhol mas acabou por realizar um Europeu brilhante e, a nível individual, em Espanha só o Casillas e o Iniesta estiveram melhor.

Quanto ao Barça do van Gaal, a sua aposta na formação fez-se com jogadores que estavam ainda muito verdes e não podiam ter muito protagonismo. Apostou em holandeses, que conhecia bem, mas aguentou Puyol, Xavi, Luis Garcia, Fernando Navarro, Oleguer, Valdés e Iniesta porque sentia que com o passar dos anos os holandeses sairiam e eles seriam a estrutura da equipa principal. E assim foi.

Sinceramente acredito que os clubes médios são os que têm adeptos que melhor ligam ao conceito de formação porque sabem que daí sacam bons rendimentos e que dificilmente poderão contratar jogadores top. Em Inglaterra há um respeito muito grande pelos jogadores jovens mas acredito que é na Holanda e em França (e agora Alemanha) onde se aceita melhor essa transição.

um abraço


De Calheiros a 19 de Julho de 2012 às 20:13
também escreves no zerozero?

http://www.zerozero.pt/noticia.php?id=73816


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Julho de 2012 às 22:04
Calheiros,

Obrigado pelo link. Não escrevo no ZeroZero mas parece que quem lá escreve lê atentamente o Em Jogo. Vou contactar os autores do site para tentar descobrir como é que é possível tantas coincidências num só texto.

um abraço


De Eugénio a 20 de Julho de 2012 às 04:48
Boas,

Em primeiro lugar queria dizer que, normalmente, penso sobre como será possível passarem-se possivelmente mais de 10 posts sem que ninguém comente nada por aqui, mas admito a mea culpa, raramente comento. E como eu, tenho a certeza que muito mais pessoas, tanto que ocasionalmente aparece muita gente a comentar... Keep up.


Posto isto, segue a parte não tão boa. Não me parece o post mais sincero deste blog (como é mais ou menos frequente na forma como analisa o que se passa em Barcelona, no hatin')... Começa por dizer que o Piqué foi comprado por 5 milhões, na conclusão "vende-o" como um dos produtos comprados a peso de ouro, não me parece natural.

Depois a forma como se diz que o Fabregas foi a custo 0 para o Arsenal, apesar de verdadeira, não explica alguns fatos, a começar pela fome gunner de ter todos os melhores miudos de 15 anos (não foi o Wenger falar com ele pessoalmente na altura?), e o Fabregas saiu sem querer passar sequer pela equipa B, o clube até lhe fez uma proposta mas ele preferiu ir para outro lado ser uma estrela da equipa aos 18. Até o entendo, em Barcelona quem lá fica só costuma ser minimamente relevante na equipa uns anos mais tarde.

Continuando, aqui que era conveniente falar do tema, não quis justificar também a mudança de mentalidade dos dirigentes em relação ao aparecimento de novos talentos com a valorização do desenvolvimento local em todo o país nos anos 90. E isso tinha sido referido num post anterior recente sobre o mesmo assunto, canteras.

Na conversa em que engrandece o grande Van Gaal e a forma como vê a cantera, à partida é logo esquecido que foi ele quem acabou com o método de treino individual que se praticava no Ajax pelo menos desde os tempos do Michels, e depois disso nunca mais foi possível ter uma equipa como a que o próprio Louis comandou em 1995- entretanto já foi resposto, mas isso é outro asusnto. Enfim, óbvio que ele sonhava em ganhar a Champions só com jogadores da cantera, sabia que o trabalho desenvolvido na Masia haveria de ser próximo do que ele tinha encontrado em Amesterdão, onde já tinha estado relativamente perto de conseguir um feito desses.

Mas não sei se entendo quando diz que o Van Gaal percebeu a importância da Masia, ele também quem tratou de encher a equipa de estrangeiros (que eu nem acho mal, sem dúvidas que sem Overmars não havia lá Tello nenhum hoje); e foi ele quem vendeu o primeiro sucessor anunciado do Guardiola, de la Peña; e sinceramente, até pela diferença das condições para se lançar um jovem hoje em dia, duvido que o Van Gaal tenha lançado metade dos jogadores que o Guardiola lançou, portanto parece-me injusto dizer que a imagem de clube que aposta na cantera é "manipulada". isso hoje é efetivamente uma realidade.

Bem, é tarde e já escrevi o suficiente para me perder... Mas é isto, continue que é bom de ler. Já agora, pessoalmente não sou tão fã das análises aos jogos, mas no que toca a assuntos históricos e sociais do jogo já me despertou para muitas coisas por estes lados.

PS: Ah, o Tello é outro jogador dispensado nas camadas, custou quanto de volta?


De João Varela a 20 de Julho de 2012 às 10:53
Estou de acordo em muito do que disse Eugénio.

Também não consigo perceber como é que a compra do Piqué por 5 milhões de euros pode ser considerada uma transação a preço de ouro, ou até mesmo a de Alba por 14 milhões.

E sim é verdade que o Barcelona teve algumas (poucas) más decisões durante estes anos em que começou a basear o seu plantel na formação, mas é algo absolutamente natural, dado que nem todos os jogadores nos últimos escalões de formação conseguem mostrar o seu real valor. Para além disso acho que é de louvar, a capacidade de voltar atrás nessas supostas más decisões, e mesmo depois de ter "dispensado" dado jogador voltar a contratá-lo em vez de se decidir por outro jogador qualquer que ainda não tenha contactado com a cultura barcelonista.

Este seu texto no fundo volta a valorizar mais uma vez o trabalho de Guardiola, que quanto a mim podia já não treinar durente a vida inteira, e mesmo assim ser considerado um dos treinadores que mais revolucionou o jogo e toda a compreensão que o envolve.

Cumprimentos,
João Varela



De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Julho de 2012 às 13:06
João,

Como disse antes, as compras são bagatelas no mercado mas podiam ter sido evitáveis se não tivesse existido uma má gestão prévia. Claro que o clube faz bem em voltar atrás e a figura de Guardiola é nuclear no Barcelona moderno, um génio a todos os níveis.

Mas aqui o que está em causa é a forma como o clube joga mediaticamente com o seu passado e cria como nenhum outro imagens que distam da realidade. A Masia, realmente, só faz parte da história do Barça nos últimos 10 anos ao contrário de Lezama com o Bilbao ou a Ciudad Deportiva do Real Madrid, abandonada na última década mas a dar frutos desde os anos 70.

um abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Julho de 2012 às 13:03
Eugénio,

Obrigado pelas palavras!

Começo pelo final. A imagem actual de aposta na cantera é bem real, manipulada é a associação histórica que se vende na fase pré-Guardiola e que, realmente, só fez sentido no mandato de van Gaal. Vendeu de la Peña porque sempre demonstrou problemas fisicos dificeis de superar e contratou holandeses, como expliquei acima, porque vi ainda muito verdes os miudos que queria lançar - e lançou. Não fez uma gestão perfeita e faltou-lhe talvez a Champions para ter um mandato perfeito, mas foi bicampeão espanhol numa era em que o Real Madrid venceu duas Champions, o Valencia era uma potência real e entre Atlético e Deportivo havia grandes equipas.

Os 5 milhões do Pique e os 14 milhões do Jordi Alba são bagatelas de mercado, mas se o clube tivesse apostado por eles directamente seriam 20 milhões poupados. O problema não está em ir recomprar os jogadores, o problema está na forma como saem. Tanto nesses casos como nos de Cesc, os jogadores não queriam sair e foi o clube, ora dispensando-os ora oferecendo contratos ridiculos, quem lhes abriu a porta de saída. E com eles outros como o Arteta, Ignasi Miquel, Iago Falqué, para não falar no Pedro e no Busquets, que quando chegou Guardiola ao Barça B eram vistos pelo clube como dispensáveis.

Claro que isto só agranda mais a lenda do Pep Guardiola, mas continuo na defesa da gestão van Gaal, até ele ter chegado era o Barça que gastava fortunas em "galácticos" e a partir da sua gestão começou finalmente a olhar-se para os filhos da Masia com outros olhos!


De fff a 20 de Julho de 2012 às 17:24
Há algum texto neste blog onde não se use o verbo lograr?


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Julho de 2012 às 17:34
FFF,

Não faço a mínima ideia, se descobrir avise!


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