A história repete-se. Nunca se repetiu a final de um Europeu. De duas em duas edições, repete-se o duelo entre equipas que se encontraram na fase de grupos. Esta edição confirmou isso mesmo. Itália e Espanha reencontram-se depois do duelo inaugural que ditou um empate (justo) entre ambas as selecções. A Bela Itália, mais bela do que nunca, assinou o melhor jogo do torneio destroçando por completo uma Alemanha que nunca viveu na prova à altura do nome com que chegava. Prandelli derrotou Low e Pirlo, o jogador mais perfeito dos últimos 10 anos, liderou a tempestade azzura.
Em 30 minutos o sonho alemão estava destroçado.
Angela Merkel nem podia acreditar. Afinal, não era suposto este torneio ser uma confirmação da superioridade alemã na Europa, em todos os aspectos possíveis e imaginários. Antes do torneio a maioria das pessoas pensava que ia ser dificil travar a selecção germânica. Mas durante a prova os alemães foram eficazes, mas nunca entusiasmantes. E estiveram longe do nome que traziam. Por culpa de Joachim Low, incapaz de dar oxigénio a uma equipa demasiado dependente do conjunto bávaro de Munique, destroçada fisica e psicologicamente depois de um final de época para esquecer. Bastian Schweinsteiger pode ser o melhor jogador alemão, mas os seus problemas fisicos foram uma constante e era evidente que mais do que uma solução, era um problema. Low manteve-se fiel ao seu braço direito e com ele (e não só) afundou-se.
Como sucedeu em 2008 e 2010, no jogo decisivo em vez de manter-se fiel à sua ideologia, Low abdicou e preferiu pensar primeiro no rival. Devolveu Gomez ao ataque e Podolski ao lado esquerdo mas adicionou outro médio, Toni Kroos, para vigilar Pirlo. Perdeu solvência no ataque, Mezut Ozil teve de trabalhar a dobrar e nem o uso de três médios travou o magnifico jogo do miolo italiano. Ao abdicar de ser a Alemanha de sempre, Low confirmou que nos momentos decisivos o ADN ganhador alemão viajou até Espanha e abandonou definitivamente a Mannschaft. A equipa perdeu esse killer instinct e iguala assim a sua pior série histórica de sempre. Até 2014, quando se jogue o próximo Mundial, vão-se cumprir 18 anos sem um só troféu alemão. Muito para uma selecção que só é superado em titulos pelo Brasil.
Mas se a selecção germânica foi vulgarizada, isso deve-se sobretudo à qualidade italiana.
Prandelli já tinha avisado quando chegou que ia mudar o rosto da selecção e cumpriu a promessa. O futebol de toque, a pressão alta e a mobilidade ofensiva tornaram-se imagens de marca desta nova azurra, mais fresca e sedutora do que nunca. Uma selecção moldada à figura de Andrea Pirlo, o melhor jogador do torneio sem margem para dúvidas. Mais do que isso, o italiano é o melhor jogador da última década.
Nenhum jogador no futebol mundial foi tão bom durante dez anos consecutivos. Houve alguns que tiveram momentos de altos seguidos de baixos, mais ou menos acentuados. Pirlo tem sido figura omnipresente desde que em 2002 tomou conta do meio-campo do Milan, vencendo a sua primeira Champions no ano seguinte (voltaria a vencer em 2007), e o Mundial (onde foi o melhor italiano) em 2006. Aos 33 anos, para fechar uma carreira de sonho, o Mundo finalmente se começa a dar conta do seu génio. Não é demasiado tarde.
Pirlo foi a bússula, Balloteli a metralhadora. O jogador do Manchester City fez o melhor jogo no torneio, apontou dois grandes golos (especialmente o segundo) e foi uma arma constante apontada à defesa italiana. Apoiado por um superlativo Cassano, o dianteiro igualou Gomez, Madzukic e Dzagoev na lista dos melhores marcadores e está a um jogo de ser o goleador do torneio.
Com esses dois golos em 35 minutos, a Itália resolveu a eliminatória com uma solvência assustadora e depois, em vez de defender o resultado como era habitual, dedicou-se a destroçar o jogo do rival, com sucessivas trocas de bola no miolo e contra-golpes rapidissimos onde só a ineficácia de Marchisio, Di Natale e Diamanti impediram uma vitória maior.
O golo alemão (um penalty no último minuto apontado friamente por Ozil) trouxe uma incerteza injusta no tempo de desconto porque nunca os alemães deram a sensação de poder discutir a eliminatória. As substituições de Low foram um desastre, as de Prandelli uma declaração de intenções e a segunda parte sucedeu-se com Buffon a dar tranquilidade à defesa alemã e Neuer a assustar os adeptos alemães. Noutro mundo andava Pirlo, entre recuperação e recuperação, entre passe e passe, entre sonho e sonho. Sem ninguém dar por nada, a Itália está na final, doze anos depois. E com todo o mérito.

