A Grécia soube empatar. Soube enervar. Obrigou Angela Merkel, pela primeira vez no palco, a suspirar de alivio quando Klose apontou o terceiro golo. E depois, como seria normal, foi subjugada pela maldade alemã que não teve nem dó nem piedade de uma equipa manifestamente inferior e que partiu para a goleada que os confirma como semi-finalistas do torneio.
O golo de Samaras, depois de mais um sprint épico dessa figura icónica que já é Salpingidis, podia ter sido o principio de uma bonita história.
Não o foi. A Grécia nunca causou perigo sério antes. E quando causou depois, um penalty que o árbitro não hesitou em marcar, já de pouco servia.
O tento do empate foi um golpe de raiva no meio de um longo bocejo de uma equipa que, como a República Checa, assumiu a sua condição de underdog e decidiu-se a fazer o que melhor sabe, defender. E mesmo assim fizeram-no manifestamente mal, sem a solvência do duelo com polacos e russos e lembrando os fantasmas que deixaram os primeiros 30 minutos do duelo com os checos. Sifakis confirmou a ideia de que o pior lote de guarda-redes do Euro é grego. Um erro garrafal no terceiro golo, um erro menor, mas erro, no primeiro e uma sensação de desnorte constante, foram uma das principais razões para a derrota grega. Mas não a única.
Fernando Santos, sem o seu general em campo, Karagounis, fez o que podia com o pouco que tinha à mão. Desenhou um esquema defensivo de contenção e a esperar, pelo milagre de Gdansk.
A Alemanha de Low também surpreendeu, mudando toda a linha ofensiva. Sairam Podolski, Gomez e Muller, todos eles bastante criticados, e entraram Reus, Klose e Schurrle. O primeio trouxe mobilidade às transições e o segundo, veterania à frente da baliza. Marcaram ambos mas nenhum deslumbrou. Schurrle foi um erro de casting (continua o enigma da ausência de Gotze) e obrigou a Ozil e Khedira a trabalho extra no processo criativo. Felizmente para os germânicos, eles são também os jogadores mais em forma da Mannschaft. Na primeira parte, atados na teia montada pelos gregos, sofreram na pele a marcação cerrada dos helenos. Na segunda, com mais espaço disponível, sentiram-se mais cómodos do que nunca e lideraram a cavalgada alemã.
O golo de Lahm parecia indicar que a lata finalmente tinha sido aberta e que não havia nenhuma opção dos gregos a dar um susto à equipa alemã. Mas se os analistas levam três jogos a dizer que este equipa germânica está a dosificar a sua forma, este jogo começou a deixar no ar a pregunta. Será realmente Low quem dosifica os seus homens ou estarão estes fisicamente incapaz de dar mais, de dar aquilo que se pensava que esta Alemanha seria capaz de dar?
A Grécia - como a Irlanda com a selecção espanhola, que sofre o mesmo problema (e criticas) - não é o melhor rival para testar essa teoria, mas a falta de frescura de pernas de Schweinsteiger já não é o único problema que Low tem. Apesar da goleada infligida aos gregos, o seleccionador alemão tem nos jogadores do Bayern Munchen um problema sério a resolver. Gomez e Muller hoje já começaram no banco mas Boateng e Badstuber também deram mostras de não estar com o mesmo ritmo de Hummels ou Lahm (este é incombustível), no eixo defensivo, criando demasiados espaços que os gregos tentaram, em vão, explorar.
O empate de Samaras podia ter dado esperança aos adeptos mas em campo era claro que só um milagre podia permitir aos gregos dar a reviravolta ao marcador. Khedira, num remate fabuloso depois de uma grande jogada colectiva, e Klose, criaram a cómoda vantagem que levou a chanceler a dizer, finalmente, que os gregos não iriam conseguir no relvado aquilo que não conseguem nas reuniões com o seu gabinete. O último tento, um belo disparo de Marco Reus, selou a goleada. Podiam ter sido mais, mas uma vez mais a Alemanha procurou baixar o ritmo, gerir a vantagem, e evitou chegar a números maiores. Longe desse ideário de eficácia demoledora de outras versões da Mannschaft.
Contra italianos e ingleses os alemães voltarão a ter o mesmo problema de hoje, uma equipa bem organizada atrás que dará, com toda a certeza, a iniciativa de jogo aos teutónicos. Vão precisar da mesma paciência de hoje mas com mais acerto no passe e com mais força nas pernas. É provavel que Low recupere a sua guarda pretoriana, mas também é normal que a velocidade de ingleses e italianos explore melhor os imensos espaços que o meio-campo alemão deixará atrás. Será o jogo que, realmente, definirá que Alemanha veio realmente a este Europeu.

