Não é coincidência que um clube marque presença em duas finais europeias no espaço de três anos. Sem ter o poderio financeiro e o glamour de Barcelona e Real Madrid, os bávaros do Bayern são actualmente o clube mais bem gerido do futebol europeu. E no entanto o momento de maior esplendor continental numa década não coincide, como no passado, com uma clara hegemonia interna. Duas caras de um mesmo escudo que parte para a final do próximo sábado como o grande favorito moral. Condição onde o Bayern se move, historicamente, muito mal.
Os mais nostálgicos sempre se lembrarão dos três títulos consecutivos ganhos pelo Bayern Munchen entre 1974 e 1976.
Os que viram os jogos lembram-se, no entanto, da tremenda sorte no duelo contra o Saint-Ettiene - que foi claramente superior - e no golo no último segundo contra o Atlético de Madrid, que provocou um replay inédito que os bávaros, fisicamente mais fortes, resolveram. A essa trilogia de títulos há que somar um quarto, ganho nos penaltys, depois de 120 minutos onde o Valencia esteve melhor mas não teve cabeça para aguentar a pressão. Quatro títulos europeus e o sonho de um quinto, em casa. O quinto, que sempre escapou.
O Bayern é, com o Benfica e o Barcelona, a equipa europeia com mais finais perdidas. Com o Aston Villa e o FC Porto nos anos 80. Com o Manchester United em 1999 e com o Inter em 2010. Quatro derrotas dolorosas que dizem muito de quando o Bayern chega como favorito à grande final. Um problema com que Jupp Heynckhes terá de lidar no próximo sábado. Não por acaso, os jogadores subirão ao seu estádio, para convencer a Europa que eles são os verdadeiros reis do continente.
Esse historial pretérito dista muito da ideia de gigante supremo que ostenta o clube. Uma supremacia real na Bundesliga mas que nos últimos anos se tem vindo a perder, com o crescimento sustentando do Borussia de Dortmund e o aparecimento ocasional de campeões surpresa como foram Stuttgart e Wolfsburg. Depois de dois anos sem vencer a prova nacional, o Bayern sabe que só um titulo europeu é capaz de tapar a má gestão de forças internas. E no entanto os adeptos parecem menos preocupados do que seria de esperar. Porque no Allianz as coisas são feitas de maneira diferente.
Não há um clube gerido como o Bayern Munchen.
Pelo décimo quinto ano consecutivo o clube irá apresentar lucros no final da temporada, algo inaudito no futebol internacional. Sem ter o mercado asiático e americano, como os grandes de Inglaterra e Espanha, e sem abdicar de ter jogadores de primeiro nível mundial como são Robben e Ribery, os bávaros são um modelo de gestão único a seguir. A construção do Allianz Arena, patrocinado pela organização do Mundial de 2006, aumentou o impacto financeiro nas contas do clube mal amado dos alemães e permitiu manter uma frescura financeira invejável, dando capacidade de manobra num mercado internacional repleto de xeques e bilionários russos e asiáticos. Com esse fundo bancário o clube conseguiu atrair estrelas mas, sobretudo, não se esqueceu de apostar no produto da casa, um dos melhores da regenerada formação alemã.
Lahm, Schweinsteiger, Muller, Kroos, Badstuber e Alaba são figuras nucleares na estratégia de Heynckhes e filhos da formação local. E atrás deles segue já uma nova geração de talentos que terão como objectivo manter a média de duas finais europeias por década que o clube mantém desde os anos 70.
Sem poder contar com David Alaba - uma das revelações da época - Holgen Badstuber e Luiz Gustavo, o técnico alemão que já sabe o que é ser campeão da Europa (1998 com o Real Madrid), sabe que terá de mudar rostros mas não estilo no duelo em que se prevê que o Chelsea abdicará da bola e procurará, como sucedeu na semi-final contra o Barcelona. Kroos deverá acompanhar a Schweinsteiger no miolo, com Muller como falso pivot atrás do trio mais eficaz da prova, Ribery-Robben-Gomez. Na defesa as baixas são mais sensíveis e o cenário mais provável é ver a Pranjic e Contento no lugar da dupla de titulares. Tendo em consideração que a esmagadora maioria do jogo previsivelmente se disputará no meio-campo inglês, será mais problemático para Heynckhes encontrar forma de destapar a teia defensiva de Di Matteo do que preocupar-se com as próprias baixas, por muito sensíveis que sejam.
Jogar no seu Allianz foi um prémio que estimulou o plantel bávaro desde o primeiro dia da época. O clube aguentou perder a liga e a taça para o seu grande rival, sabendo que o objectivo da época era outro. A 90 minutos de igualar o Liverpool em títulos europeus, tornando-se assim o terceiro clube com mais troféus na máxima competição da história, apenas por detrás de Real Madrid e AC Milan, não há baixas nem derrotas nacionais que desmoralizem uma equipa que vivem oito meses a pensar neste momento. Depois de vencer o favorito Real Madrid, chegou a hora do Bayern destapar fantasmas antigos e reclamar um lugar que é seu por direito, entre os melhores do mundo!

