Numa mesma semana a liga italiana sofre uma profunda metamorfose moral. Velhos bastiões, simbolos dos anos gloriosos de uma liga que tem vivido a alguma década em profunda decadência, anunciam o seu adeus, ora do clube de largos anos ora do futebol em geral. Muitos rostos que ajudaram a manter o perfil alto da competição que abrem caminho a uma nova geração que terá a dificil missão de superar os simbolos de uma época dourada.
Alessandro Del Piero. Gennaro Gattuso. Alessandro Nesta. Clarence Seedorf. Mark van Bommel. Kakha Kaladze. Filipo Inzaghi.
A lista parece infindável. Não é habitual no final do mesmo ano tantos nomes ilustres dizerem adeus. Prova de que o Calcio há muito que é uma prova agarrada ao passado. Neste listado de estrelas estão campeões do Mundo, emblemas da equipa que em 2006 venceu, contra todo o prognóstico, o Mundial de Futebol. Estão estrangeiros de renome que deram outro brilho a uma prova que se habituou a perder as suas estrelas mais cintilantes para a Premier e a La Liga. No fim de contas, nomes que definem uma era.
O adeus mais doloroso será, sem dúvida, o de Del Piero.
O avançado nunca jogou noutro clube, caso único no Calcio depois do adeus de Paolo Maldini. Foi campeão de Itália, da Europa e do Mundo com a Juventus. E um dos heróis que aguentaram a descida à Serie B e ganharam direito a celebrar o titulo de campeões este ano com Antonio Conte ao leme. Del Piero já sabia, antes da época começar, que este seria o seu último ano. Muito se especulou sobre o seu destino, nada ficou claro, mas a certeza é que a história de amor de quase 20 anos à Vechia Signora, e ao Calcio, termina aqui. Com a braçadeira e o titulo na mão.
De certa forma a outra despedida que mais doi aos adeptos é a de Filippo Inzaghi. Até à bem pouco tempo era o avançado com mais golos na história das competições europeias. A sua veia goleadora não tem igual no panorama internacional e "Pippo" emergiu para a posteridade como um digno sucessor de Piola ou Rossi como verdadeiro matador de área à italiana. Os problemas fisicos há muito que o atormenteram, mas a poção da eterna juventude que se distribuiu em Milanello sempre permitir sonhar com um ano mais. Inzaghi é da mesma geração de Del Piero e depois da sua passagem por Verona e Atalanta, ambos foram colegas na Juventus. Quando o clube turinês preferiu apostar numa linha ofensiva rejuvenescida, Inzaghi acabou em Milão ao serviço dos rossoneri. Durante mais de dez anos foi o avançado perfeito, nunca queixando-se do trato preferencial a outros jogadores, sempre pronto a aproveitar todas as oportunidades. Ambos eram o que resta do mágico Calcio dos anos 90, altura em que a prova ainda era a mais admirada do futebol internacional.
Mas se Inzaghi e Del Piero são espelhos dessa era, Alessandro Nesta e Gennaro Gattuso são metamorfoses perfeitas do que foi e no que se tornou a Serie A.
O defesa central começou a sua carreira fulgurante na AS Lazio, confirmando-se rapidamente como um dos mais espectaculares centrais do futebol europeu, um titulo dificil de contestar numa era onde os laziale eram um conjunto a temer. O AC Milan apareceu com uma proposta irrecusável e Nesta juntou-se à constelação de estrelas rossoneri mas nunca se exibiu em Milão ao mesmo nivel que logrou no Olimpico. A mudança dos parceiros na defesa e as sucessivas lesões foram lastrando o final de uma carreira que prometia algo mais. Se o curriculum é impressionante e dificil de igualar, a sensação que Nesta dava de há alguns anos era que o final da sua ligação ao Milan era algo mais do que iminente. O defesa não sabe se seguirá em Itália, se procurará o dinheiro fácil do Medio Oriente ou, como é mais provável, se provará a MLS. Uma decisão que contrasta com a do seu, até agora, colega de equipa. Gennaro Gattuso é, para muitos adeptos, o icone perfeito do Calcio do século XXI.
Mais raça do que talento, mais instinto do que criatividade, mais defesa do que ataque, mas sempre a mesma determinação e devoção, Gattuso é um jogador dificil de não se gostar profundamente. Começou por baixo, passou pela Escócia onde se casou e foi feliz e entrou de novo no futebol italiano como baluarte do AC Milan de tracção dianteira de Shevchenko, Inzaghi, Rui Costa e Kaká. Deu o equilibro fundamental ao conjunto milanês que em dez anos chegou a três finais europeias e foi um dos jogadores mais importantes da Azzura que venceu na Alemanha o Mundial. À medida que foi perdendo os companheiros de associação (Kaká primeiro, Pirlo depois), o seu jogo viu-se claramente afectado e Gattuso tornou-se num ente estranho num meio-campo de remendos. O seu problema de visão soava já como despedida, o final da época confirmou as suspeitas. Glasgow seria o seu destino mais do que provável mas os enormes problemas financeiros do Rangers deixa a transferência em suspenso até que se aclare o que vai suceder com o seu antigo clube em terras escocesas.
Quanto à legião de estrangeiros do Calcio, seguramente a saída mais marcante é a de Seedorf. O holandês van Bommel volta ao PSV Eindhoven, onde para ele tudo começou naquela magnifica geração liderada por van Nistelrooy e Guus Hiddink, e Kaladze troca a bola pelo boletim de voto e mergulha na politica georgiana de corpo e alma. Seedorf, talvez o jogador mais subvalorizado do futebol europeu das últimas duas décadas, tem a palavra. Aquele que foi o único jogador a vencer uma Champions League com três equipas distintas (Ajax, Real Madrid e AC Milan, quatro em total) demonstrou ao longo do ano que tem ainda qualidade suficiente para fazer a diferença onde quer que jogue. Mas as pernas já não são as mesmas, o desgaste fisico da alta roda faz-se notar e o seu caracter exige desafios. Fala-se numa eventual experiência no Brasil, numa viagem aos Estados Unidos ou num regresso ao Ajax. Em qualquer um dos casos, Seedorf continuará a ser um dos grandes.
Sem o peso dos velhos nomes surge a hora das novas gerações do futebol italiano darem um passo em frente. Montolivo chega a Milão para ser o novo Pirlo. Marchisio começa a dar cartas em Turim. O talento de Giovinco, Motta, Bonucci, Nocerino, Lazzari, Balzaretti, Pepe, Chiellini, Marilungo, Schelloto é suficiente para rearmar uma nova vaga. E com ela lançar as bases de um renascimento profundo do futebol italiano.