Era uma das mais flamantes promessas do futebol gaulês quando a perna se rompeu e com ela muitos dos sonhos que tinha desenhados na cabeça com a mesma imaginação com que passeava sobre os rivais. Dois anos depois Hatem Ben Arfa tem razões para sonhar. O seu despertar em St James´s Park relançou-o para a ribalta do futebol europeu e levou-o de forma tão justa como inesperada para a pré-lista gaulesa do próximo Europeu. Um regresso em força de um peso pluma de máximo nível.
Na notável época do Newcastle de Alan Pardew há um imenso colectivo e poucos nomes próprios. Hatem Ben Arfa é um deles.
O extremo francês chegou ao clube do Tyne depois de uma azeda disputa com o Marseille. Na Riviera gaulesa explodiu como craque mas também encontrou os seus primeiros problemas com os directivos de um clube problemático na gestão das suas estrelas. No meio desse conflito surgiu a oportunidade de emigrar e, como com tantos outros antes de si, a Premier tornou-se no refúgio ideal. Chegou ao norte de Inglaterra na máxima expectativa e depois de três jogos interessantes, rompeu a perna num duelo com o Manchester City. Para muitos a sua carreira tinha terminado antes de ter realmente começado. Para Ben Arfa era só um contratempo como tantos outros que teve de fintar na sua vida. Dois anos depois a sua época notável relançou-o como um dos futebolistas franceses mais excitantes da actualidade.
Laurent Blanc, o seleccionador que o chamou para o duelo com a Noruega em 2010, a sua oitava internacionalização à altura, seguiu a sua evolução e não hesitou em selecioná-lo numa pré-lista de doze gauleses que actuam fora da Ligue 1. Uma lista que muitos acreditam que se manterá até ao final e que os eventuais descartes realizados serão dos jogadores a actuar no campeonato nacional. A França de hoje não é a mesma potência futebolistica que chegou à Austria e Suiça, em 2008, como vice-campeã do Mundo. Faltam-lhe referências criativas e emocionais. No meio desse dilema moral, não é de estranhar que Blanc convoque um jogador que há dois anos não veste a camisola dos Bleus. Ben Arfa tem fome de glória, sofreu para chegar onde chegou e esse apetite pelo impossível transforma-o num jogador intenso, algo que os seleccionador valorizam muito para torneios de curta duração. À primeira vista o esquema táctica do seleccionador francês, um 4-3-3 claro, deixa poucas vagas no ataque com Nasri, Ribery e Benzema como primeiras opções e Gameiro, Giroud e Menez como alternativas imediatas. Mas nenhum deles é um driblador nato, um extremo veloz e hábil com ambas as pernas e, sobretudo, um jogador que não conhece limites em si mesmo.
Aos 25 anos esta é a oportunidade de ouro para o futebolista de origem tunesina se reencontrar com a glória.
Como tantos cresceu em banlieus pobres nos arredores de Paris e encontrou no futebol o escape. Tinha tanto de talentoso como de problemático e essa fama acompanhou-o sempre, da passagem pela cantera do Lyon à sua ascensão no Marseille. Depois de se fartar de ser uma figura quase secundária num Lyon que ainda coleccionava títulos atrás de titulos, a promessa de um papel estelar em Marseille foi suficiente para rubricar um contrato milionário. A paciência não durou muito e dois anos depois o clube convenceu o Newcastle a levá-lo por empréstimo. Apesar da grave lesão sofrida os técnicos do clube inglês entenderam que por detrás daquele carácter problemático havia um imenso talento e arriscaram. O empréstimo tornou-se em transferência e Ben Arfa recuperou da sua lesão, primeiro em Clairefontaine onde passou parte da adolescência, e depois em Inglaterra. No arranque desta temporada o técnico Alan Pardew prometeu-lhe o que ninguém lhe tinha sabido dar: protagonismo e um ombro amigo nas horas mais difíceis. A recompensa transformou-se numa temporada inacreditável ao lado de Yohan Cabaye e Papisse Cissé. A partir de Dezembro tornou-se num dos elementos nucleares na progressão do clube do norte na tabela classificativa até à luta final pelos postos europeus, algo que não estava nos projectos do clube no arranque da época. O seu magnifico golo ao Bolton, um dos melhores da temporada em todas as ligas, selou o seu regresso em estilo. Só faltava que Blanc estivesse atento. E estava.
Ao serviço da selecção francesa Ben Arfa nunca mostrou uma ínfima parte do seu talento inato. Oito jogos não deram para muito, em especial na difícil transição que os gauleses viveram na era pós-Zidane. Brilhar no próximo Campeonato da Europa não é um desafio fácil para qualquer jogador, mais ainda se se considera que não deixa de ser um joker num plantel com muita oferta para as poucas posições da linha ofensiva. Mas jogar sem expectativas também funciona, de certa forma a seu favor. Sem a pressão dos grandes nomes ele pode ser o ás na manga que Laurent Blanc está disposto a lançar quando as coisas se compliquem para os Bleus. Num grupo com Inglaterra, Suécia e Ucrânia pode ser que não tarde muito até que o extremo tenha finalmente a sua oportunidade.

