Há poucos jogadores tão fáceis de admirar no universo futebol actual como Carles Puyol. O capitão do Barcelona representa o melhor de dois mundos, exemplo perfeito do que foi o futebolista cavalheiro de outros eras e o super-profissional a que se exige nos dias de hoje. Um lider dentro e fora do balneário, um jogador tacticamente perfeito e um dos esteios do sucesso da última década blaugrana e da Roja. A sua ausência no próximo Europeu não é só um problema para Vicente del Bosque mas uma séria perda para os mais românticos amantes do jogo.
É curioso pensar que muitos analistas da imprensa espanhola tinha escrito no arranque desta época que a passagem de Sergio Ramos a central, no eixo da defesa do Real Madrid, imaginando uma dupla com Gerard Pique, então o defesa mais cotado do futebol internacional. Mas a péssima época do número 3 blaugrana e o espirito de sacrificio tremendo de Puyol, capaz de superar intensos problemas fisico mudaram rapidamente o panorama. Em Janeiro parecia evidente que o capitão do Barcelona era o primeiro insubstituivel do sector defensivo catalão e, consequentemente, da campeã da Europa e do Mundo. A sua perda, a apenas um mês de que arranque a prova, é um golpe duro e dificil de encaixar, especialmente porque Piqué nunca recuperou a boa forma e Del Bosque não tem alternativas à altura para uma prova de elite.
Javi Martinez, adaptado por Bielsa à posição, é demasiado similar no estilo de jogo a Piqué para possibilitar uma dupla com o catalão. Albiol teve escassos minutos durante todo o ano, Dominguez foi preterido no Atletico de Simeone, Victor Ruiz não mostrou o seu melhor rosto em Valencia este ano e Botia do Sporting Gijon parece demasiado verde para tanta exigência. O grupo C, onde está colocada a equipa espanhola, conta com rivais de peso (Itália e Croácia) e uma Irlanda que pode surpreender a qualquer momento. Se Arbeloa não convence totalmente a lateral direito (e até agora parecia claro que Sergio Ramos voltaria à sua posição do último Mundial e Europeu com a selecção), o posicionamento de Ramos ao lado de Pique abre um novo problema dificil de resolver para o seleccionador espanhol.
A Espanha do último Mundial foi, sobretudo, uma equipa tremendamente eficaz. Manteve a posse de bola mais do que qualquer outra equipa em prova e marcou menos golos do que qualquer outro campeão mundial. A sua segurança defensiva foi determinante, especialmente a liderança de Puyol, autor do golo decisivo das meias-finais, e do jogo de Ramos pela ala direita. Sem duas das suas grandes armas tácticas, e talvez sem a veia goleadora de David Villa, que ainda tem o país vizinho em suspense, parece evidente que o campeão europeu chega à Polónia com mais dúvidas que certezas na corrida pelo histórico tri Euro-Mundial-Euro, um feito que nunca nenhuma selecção europeia logrou conquistar no passado.
A liderança moral de Puyol é um exemplo único no futebol actual.
Enquanto o Chelsea inglês conta com um capitão que se dedica a agredir e insultar jogadores rivais, "el Capi" de Barcelona prefere impedir uma celebração polémica de Dani Alves e Thiago Alcântara numa goleada implacável em Vallecas. É só mais um gesto para uma longa galeria de um atleta que foi impiedosamente assobiado na sua época de estreia. Louis van Gaal lançou-o a titular como lateral direito e depois de alguns erros tácticos nas primeiras exibições tornou-se num dos bodes espiatórias preferidos da afficion. Mais de uma década depois é o seu menino dos olhos.
De lateral a central, de assobiado a capitão de pleno direito, Puyol percorreu um largo caminho que, de certa forma, define o próprio historial recente do Barcelona. Esteve em quatro finais da Champions League, sempre como capitão. Em 2011, num dos seus gestos humanos tão habituais, abdicou levantar o troféu das mãos de Michel Platini cedendo a honra ao colega de defesa Eric Abidal, acabado de recuperar de um perigoso tumor que o levou, este ano, à mesa de operações. Com Rijkaard o central manteve sempre uma forte cumplicidade, com Guardiola a amizade e admiração mutua era mais do que evidente. Foi a base sobre a qual montou o seu esquema defensivo e, apesar da explosão de Piqué, manteve no jogador em quem o técnico realmente confiava. Percorreu os lugares da defesa à medida que as leões e suspensões iam deixando as suas baixas e quando Pep decidiu adoptar esta época num esquema de três centrais, a sua omnipresença era fulcral. É dificil quantificar a sua importância na estrutura do Pep Team mas a sua ausência fez-se sempre notar nas noites mais ágrias do mandato do técnico em Camp Nou. Del Bosque, homem sábio e sensato, sempre soube que o lider do balneário blaugrana era uma das pessoas ideais em quem se apoiar para conquistar o coração dos campeões europeus orfãos de Aragonés. A dupla Puyol-Pique, a sensatez do blaugrana no momento mais tenso das relações entre os jogadores do Real Madrid e do Barcelona, e a sua capacidade fisica inimitável faziam dele peça nuclear para a estratégia defensiva para o próximo Europeu. Um problema de resolução impossivel. Opte por quem opte, a presença gigante de Puyol é insubstituivel.
Mais triste é pensar que este pode ser o adeus definitivo de um dos maiores jogadores da história do futebol espanhol à sua selecção. Puyol tinha previsto abandonar a Roja no final do torneio (algo de que se espera também que passe com Xavi Hernandez) e já o teria comunicado a Del Bosque que esta seria a sua última aventura. Perto da centena de internacionalizações, um dos melhores curriculos do futebol mundial, Puyol preparava a sua retirada deixando primeiro a selecção e depois dando lugar no Barcelona a uma nova geração de promessas, lideradas por Fontás. Com este rude golpe é dificil imaginar que o jogador não volte uma vez mais, para ter a despedida que se merece. Se há um jogador espanhol (e há muitos nesta esplêndida e apaixonante geração) que merecia outro destino, sem dúvida quer era "Puyi", um central feroz como um leão mas com a alma de um trovador.

