Há algo no futebol inglês que seduz. Talvez a sua eterna incapacidade para impressionar a todos. Ao contrário de holandeses, brasileiros, espanhóis, franceses ou argentinos, ninguém se lembra de uma selecção inglesa que tenha reunido um consenso universal. É sempre o patinho-feio dos torneios, a equipa que quer e não pode, a selecção de uma liga que só encanta pela legião estrangeira que lhe dá cor e forma. Nesse panorama cinzento a FA já tentou seleccionadores de distintas personalidades e experiência. Agora opta por Roy Hodgson. O técnico mais cinzento para uma selecção em que já ninguém consegue acreditar.
Fabio Capello saiu pela porta pequena como não lhe é habitual. Estava farto. E Capello farta-se depressa das coisas.
Farto da pressão dos media, da relação dos jogadores e da incapacidade crónica do futebolista inglês a aprender conceitos de jogo colectivos. A prestação no Mundial da África do Sul foi um desastre. Muitos culpam a falta de arrojo do italiano, outros o espírito bélico dos próprios jogadores, incapazes de lidar com o ritiro inventado por Capello. Estava claro que este casamento não ia ter final feliz porque Capello, ao contrário de Giovanni Trapattoni, é demasiado inflexível. E só alguém ainda mais hermético do que um técnico italiano. Um jogador inglês.
O cinzentismo da equipa que deixou Capello contrasta com o excesso de juventude e inexperiência que parece estar reservada para as próximas concentrações dos Pross. Como sucede com o caso português, a Geração de Ouro inglesa afinal não o foi e há um hiato tremendo entre jogadores com lugar cativo no onze e novos nomes que bebem já outros conceitos aprendidos numa Premier League que começa a assimilar algumas das características do jogo de toque continental. É preciso relembrar que a única vez que a Inglaterra não jogou como a Inglaterra é suposto jogar, os leões foram campeões do Mundo. Essa ideia ronda pela cabeça de muitos jornalistas e treinadores britânicos e depois da consagração do modelo espanhol, há quem tenha a tentação de seguir esse ideário deixando para trás décadas de kick-and-rush e desilusões. A tentação inicial era procurar dentro de casa alguém que fosse seguir esse caminho. O treinador inglês é um oásis de originalidade e há tão poucos técnicos de sucesso na Premier de origem inglês (a maioria são os escoceses ou irlandeses) que reduzir o leque de candidatos não era tarefa complexa. Harry Redknapp parecia, desde o primeiro instante, o mais claro favorito. Mas este não é um país para suspeitos, pode dizer-se, e apesar de ilibado o nome de Redknapp ficará sempre ligado ao escândalo de fuga de impostos, algo que a FA nunca viu com bons olhos. A recusa do treinador em abandonar de imediato o Tottenham Hotspurs - então a lutar pelo titulo - também não ajudou e a federação quis provar com o treinador dos sub-21, Stuart Pearce. A falta notória de habilidade de Pearce e a péssima segunda volta dos homens de Redknapp acabaram com as duas opçoes e o vazio voltou a aparentar ser maior do que nunca. O dinheiro não comprou Mourinho e Guardiola e no meio do desnorte, o cinzentismo voltou a imperar.
Roy Hodgson é o mais continental dos treinadores ingleses.
Por continental não digo pelo estilo de jogo. Não é uma reencarnação de Jimmy Hogan como Niels Egen era um primo afastado de Stan Cullis. Mas grande parte da sua carreira foi feita longe da Velha Albion. Foi seleccionador da Finlândia, dos Emirados Arabes Unidos e, sobretudo, da Suiça a quem levou ao Mundial de 1994 em grande estilo para depois assinar uma fase final deprimente. Foi treinador principal do Inter de Milão e não só não venceu o Scudetto como perdeu a final da Taça UEFA com o Schalke 04. Em Inglaterra passou toda a carreira em equipas de low profile até que levou o modesto Fulham à final da Europe League, perdida, claro está, nos últimos minutos diante do Atlético de Madrid. Um logro emocional que o levou a Anfield Road onde assinou talvez o pior arranque de época da história do Liverpool. Não durou meio ano (não que Kenny Dalglish tenha feito muito melhor esta época) e acabou no West Bromwich equipa que luta por sobreviver com poucos recursos e menos imaginação ainda.
A um mês de que arranque o Europeu poderíamos imaginar mil treinadores diferentes para orientar a selecção inglesa. Menos Hodgson.
Talvez por isso tenha sido o escolhido.
Dele não se espera nada a não ser um low profile. Não é um inovador táctico apesar de ter bebido de várias culturas. Não é um lider de balneário e nem sequer é uma inspiração para os adeptos. E como já poucos esperam algo de uma equipa sorteada no mesmo grupo de uma França revitalizada, uma sempre complicada Suécia e a equipa da casa, Ucrânia, há quem pense mesmo que passar à segunda fase é algo a que os ingleses não podem ambicionar. Redknapp teria sido uma escolha de inspiração genuína mas o seu estilo de liderança provavelmente entraria em choque com o balneário. Hoddson formará consensos. Apesar de todos saberem que a geração de John Terry, Ashley Cole, Rio Ferdinand, Frank Lampard e Steven Gerrard tem os dias contados, a verdade é que não há jogadores de nivel internacional para substituir-lhes. Jack Whilshire, talvez a melhor aposta de futuro, está de fora do torneio por lesão. Wayne Rooney não jogará os dois primeiros jogos e nem Ashley Young, Danny Wellbeck, Phil Jones, Kyle Walker, Tom Cleverley ou Micah Richards têm o espirito de liderança e sangue frio que se exige nestes momentos.
Hodgson sabe que terá de formar uma equipa que capte o melhor de dois mundos. Terry jogará, Lampard também, Ferdinand e Gerrard terão os seus momentos. Hart resolveu, de momento, o problema da baliza mas a falta de cabeça de Rooney abriu outro no ataque. Entre Bent, Defoe, Wellbeck, Carroll e Sturridge estará a solução momentânea. No meio o enigma, entre o 4-4-1-1 e o 4-3-3, mais do que no dispositivo táctico nos nomes que sobem ao terreno de jogo e que podem fazer dos Pross uma equipa mais especulativa ou frontal. Conhecendo Hodgson, não esperemos milagres.
A eleição de Roy Hodgson como novo seleccionador inglês deixa claro que há federações que continuam a querer acreditar que um seleccionador é uma figura menor, de perfil baixo, que existe apenas para resolver problemas humanos durante duas semanas. São os que acreditam que os jogadores já vêm com as lições tácticas debaixo do braço e que apenas é necessário ordenar os nomes no tabuleiro. Essa postura britânico não é nova e não tem dado frutos positivos. O último grande técnico de vertente táctica que orientou a selecção foi campeão do Mundo. Todos os que o seguiram tentaram encarar as fases finais como meros torneios motivacionais. Todos falharam e o novo seleccionador sabe-o bem. O problema para os ingleses é que tão poucas expectativas num homem tão cinzento como é Hodgson podem ter precisamente o efeito contrário no balneário e o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Sven-Goren Erikson sofreu-o na pele na Alemanha em 2006. E todos sabemos como esse filme acabou.