Coerente, surpreendente, digno, entusiasmante. O Barcelona decidiu o seu futuro com base no seu presente e fê-lo com a certeza de que acredita numa ideia, mais do que nos nomes que a guiam. Se a saída de Pep Guardiola era um segredo mal guardado, o nome do sucessor deixou até os próprios blaugranas em estado de choque. Durou pouco. Guardiola continua a manobrar o clube na sombra, o Barcelona da próxima época será fiel ao que se viu nos últimos anos e, sobretudo, o clube catalão decidiu seguir o caminho que fez do Liverpool dos anos 70 um mito da história do futebol. Agarrou-se à ideia de um "boot room" eterno que pode trazer mais alegrias do que suspiros ás bancadas do Camp Nou.
Bob Paisley é o treinador do Liverpool com mais títulos. É um dos treinadores mundiais com mais títulos. E no entanto quem se lembra dele?
Bill Shankly saiu do Liverpool demasiado cedo, muitos pensaram. Sem vencer a Taça dos Campeões, sem somar mais de quatro títulos de liga inglesa. E no entanto quem se esquece dele?
O grande mérito de Shankly não foi vencer. Foi definir a forma como se iria ganhar. Resgatou o Liverpool das trevas, trabalhou uma ideia táctica, rodeou-se de jogadores locais e aquisições certeiras e lançou as luzes do futuro. Quando saiu tinha deixado atrás de si o trabalho feito e, sobretudo, o conceito do "Boot Room", o pequeno gabinete onde se juntava com os seus adjuntos para falar de futebol e da vida, que é o mesmo. Durante 15 anos o Liverpool sobreviveu, cresceu e um ano até chegou em segundo, como diria Paisley, sempre partindo do "Boot Room". Depois de Shankly veio Paisley, depois deste Joe Fagan e por fim Kenny Dalglish, que entrou como jogador e saiu como mentor emocional. Essa longa saga coroou os anos dourados da história de Anfield Road porque, independentemente dos grandes jogadores no terreno, partiu sempre de uma ideia de clube bem definida.
Josep Guardiola sabe mais de futebol do que a maioria das pessoas e sabe também investigar a história do jogo. Quando Johan Cruyff saiu do Barcelona, pela porta de atrás, a direcção de Josep Luis Nuñez quis romper com o cruyffismo e chamou Bobby Robson. O inglês durou um ano, ano em que só perdeu o titulo de liga, até que os directivos emendaram a mão e voltaram a apostar na escola holandesa, primeiro com van Gaal e depois com Rijkaard, com um hiato desastroso que tem mais a ver com a figura de Gaspart do que com a mentalidade por detrás do clube. Essa transição sempre foi feita com consciência de que o legado de Laureano Ruiz, Rinus Michels e Johan Cruyff faz mais sentido em Can Barça do que em qualquer outro sitio. Se houve equipa capaz de suceder ao Liverpool nessa ideia de clube, com um projecto e uma cartilha comum, essa equipa sempre foi o Barcelona. Mas o clube nunca tinha arriscado tanto como hoje. Arriscado tanto como Shankly quando se virou para os directivos com o nome do estimado Paisley como o homem da glória futura. Na altura poucos o levaram a sério, a história mostrou que o "Napoleão de Mersey" não se enganava.
Tito Vilanova não tem experiência como treinador de elite, como também não tinha Guardiola.
Mas quem segue o clube blaugrana sabe que por detrás destes quatro anos de sucesso há muito dedo do homem a quem Mourinho quis penetrar mais profundamente no olhar. Villanova é o responsável das jogadas de estratégia do clube, inspirando-se no basket e no futebol de sala. Foi o homem que orientou a celebre equipa juvenil da geração de 1987 quando tinham apenas 14 anos, a equipa dos Messi, Pique, Fabregas e companhia. E foi sempre o amigo e confidente a quem Guardiola recorreu. Não é um mero segundo treinador, é um dos ideologos do projecto e isso faz toda a diferença.
Os adeptos portugueses podem lembrar-se da imagem de Vitor Pereira mas o técnico do FC Porto nunca foi o segundo de André Villas-Boas. Escolhido por Pinto da Costa para completar a equipa técnica, partilhou a da experiência mas nunca existiu essa comunhão de ideias, de modelos, de longos anos a falar de futebol que unem dois homens que são colegas e amigos desde a mais tenra infância. Não se pode entender a imagem de Guardiola sem Vilanova e o mesmo agora será válido quando Pep passe para o segundo plano.
A ideia do técnico de Santpedor tem a mesma dose de genialidade que os seus dispositivos tácticos. Imitando a Shankly, ele ergue-se como a figura de fundo do clube, o homem que controla tudo sem ter de expor-se aos momentos duros que virão. Guardiola não vai treinar outro clube porque continua, de certa forma, a treinar o Barcelona.
Na conferência de imprensa de hoje tanto ele como Sandro Rossell - o grande derrotado desta decisão, felizmente para o clube - e Andoni Zubizarreta confirmaram que Guardiola será uma voz de peso no projecto, um consultor externo. Será mais do que isso. Guardiola leva quatro anos mas o seu rosto faz parecer que são quarenta, no Camp Nou. É um homem honesto e coerente e sabe que a motivação no desporto da alta competição é dificil de conseguir. Ao dar um passo para trás mas não um adeus definitivo, o técnico consegue esse golpe de teatro que pode ter ao seu plantel em alerta máximo. Seguramente que alguns nomes irão sair, Dani Alves e David Villa antes de mais, e que outros vão ver o seu papel alterado pela idade (Puyol e Xavi) ou pelo estilo de jogo que Vilanova vai aprofundar. A chegada de Fabregas, homem que Vilanova conhece bem, promete fazer mais sentido na equipa do próximo ano. O 3-4-3 que tanto tem explorado Pep voltará a ser um 4-3-3 mais dinamico, com Fabregas, Messi e Alexis na primeira linha de fogo e Iniesta, Busquets e Thiago no apoio directo. A cantera voltará a ser a base de tudo, Vilanova já falou várias vezes sobre a admiração que nutre por muitos dos homens da equipa B como Rafinha, Sergi Robert e Grimaldo. E será mais fácil tomar decisões dificeis no balneário sem a condescendência de um Guardiola que é muito menos aguerrido, tanto para fora como para dentro, como é Vilanova. Mas quanto ao ideário táctico é fácil adivinhar que o fantasma de Guardiola aí estará, na preparação dos jogos, no estudo dos rivais. A sala de imprensa será mais bélica do que nunca - Vilanova e Mourinho têm contas a ajustar - e o balneário mais disciplinado, mas no campo pouco mudará.
Guardiola logrou o que Cruyff não conseguiu. Não só em titulos mas, sobretudo, em fazer prevalecer essa ideia que remonta a 1972. O holandês saiu do clube com a intenção de deixar Charly Rexach como seu sucessor mas nunca o conseguiu. Guardiola encontrou o poder suficiente para desafiar a ideia de Rossell e impor Vilanova. Ao manter o seu melhor amigo e co-autor do majestuoso Pep Team, o técnico garante que continua a pairar sobre Barcelona. Não vai treinar outro clube e não fecha a porta a voltar ao Camp Nou pela porta grande. De certa forma cria o "Boot Room" à catalana, com o futuro garantido para os seus homens de confiança, os que partilham o mesmo ADN e a sua linguagem, um espaço onde gravitam as figuras de Juan Manuel Lillo, Lluis Carreras, Luis Enrique e Xavi Hernandez. Se a dinastia guadiolista só agora arrancou é fácil imaginar que, com este plantel e esta fortissima ideia, o Barcelona se mantenha na elite durante largos anos. Como com o Liverpool de Shankly, a ideia triunfa e os nomes vão-se sucedendo e os titulos vão chegando. Quando se abandona a ideia, como sucedeu com os Reds, o desastre é inevitável. Guardiola sabe melhor do que ninguém e tomou para si a responsabilidade de garantir que esse dia não chegue ao Camp Nou.

