Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Durante 365 dias repetiu-se até à imensa exaustão que a final da edição desta temporada da Champions League tinha local e equipas pré-definidas. O futebol, como sempre, não quer saber de razões, não se importa com prognósticos e não dá a mesma importância às inevitabilidades como podemos pensar. O futebol é e sempre foi para quem mais acredita. O Chelsea ontem, em Barcelona, e o Bayern Munchen, hoje, em Madrid, souberam carimbar o bilhete para a final porque nunca deixaram de acreditar. Suportaram o insulto, o menosprezo e os prognósticos. E no final decidirão a final mais improvável da história.

Era fácil de prever o resultado final ao intervalo.

Os jogadores do Real Madrid tropeçavam uns nos outros, o posicionamento no terreno de jogo era desconcertante e não havia uma figura que chamasse à ordem, que impuse-se a calma. Cristiano Ronaldo fez o que Lionel Messi foi incapaz de fazer em 180 minutos e marcou duas vezes. Mas foi só. A orquestra branca emperrou no segundo golo do seu lider mediático e nunca encontrou um lider espiritual em Mezut Ozil e Xabi Alonso. A defesa tremeu como o Bernabeu há muito não via, Pepe cometeu um penalty que teve tanto de estúpido como de inevitável e os alemães demonstraram ser o que sempre serão, máquinas inesgotáveis de auto-confiança. Olhando para Ribery, Robben, Gomez e, sobretudo, Bastian Schweinsteiger, nunca se viu descrença, nem com o 2-0. Isso foi o que decidiu a eliminatória. O mesmo olhar de Frank Lampard ou Didier Drogba ontem no Camp Nou, o olhar que a crença de superioridade moral dos jogadores do Real Madrid e Barcelona nunca conseguiram transmitir.

O Real Madrid apelou á épica e o seu lider respondeu. Depois o Bernabeu calou-se, acreditando na inevitabilidade da história. E esqueceu-se que a bola continua a rolar. E rolou, nos pés dos alemães, tremendos nas transições, imensos no posicionamento táctico e divinos na capacidade crónica de nunca perder a concentração. Apesar de ter perdido o jogo o Bayern teve sempre as melhores oportunidades, causou sempre os maiores sustos e aguentou as investidas desesperadas de uma cavalaria sem general. José Mourinho perdeu a meia-final da mesma forma que perdeu quando treinava o Chelsea, sem escândalos arbitrais mas com um conservadorismo crónico. A insistência em Angel Di Maria, a incapacidade de alinhar um dueto Benzema-Higuain quando a equipa precisava de um, talvez até de dois golos, foram evidentes. Granero entrou tarde para dar respiro, as linhas pareceram sempre demasiado distantes e só Deus poderia imaginar o que seria do jogo no Allianz Arena se tivesse jogado Marcelo, hoje o melhor jogador merengue no terreno de jogo. O brasileiro foi o único que lutou contra o que parecia inevitável à medida que o relógio seguia. Jogar para os penaltys com uma equipa que, é fácil de ver, não é propriamente forte mentalmente para aguentar a pressão das grandes penalidades. Uma equipa que se desmorona com tremenda facilidade e que diante de um imenso Manuel Neuer, se empequeneceu. 

 

Da mesma forma que o Chelsea mereceu seguir em frente porque acreditou em Munique, também o Bayern Munchen fez mais do que qualquer outra equipa em prova para cometer a possível proeza de sagrar-se campeão da Europa diante dos seus, no belissimo Allianz.

O Chelsea e o Bayern podem não ser melhores que Barcelona e Madrid, não têm plantel, individualidades e técnicos do mesmo nível. E, no entanto, acreditaram. Drogba acreditou mais do que Messi, Schweinsteiger mais do que Ozil e a Di Mateo e Heynckhes não fez falta ser Guardiola e Mourinho para desenhar uma teia de aranha tremendamente eficaz.

O Chelsea entregou a bola ao Barcelona e disse-lhe na cara, faz o teu jogo, tem 99% de posse de bola, dá 14000 passes mas não entrarás nesta muralha e quando eu tiver a bola, mato-te. O Bayern pediu a bola, fez o rival correr, manteve uma defesa de quatro atenta aos contra-golpes e entregou-se ao nervosismo do rival. Ambos souberam lidar com os pontos fracos dos oponentes, ambos acreditaram mais em si do que qualquer outro. O Chelsea e o Bayern assumiram-se inferiores na eliminatória e acreditaram nisso. Essa crença deu-lhes ar aos pulmões, critério nas movimentações e sorte na concretização. Ronaldo e Kaká não costumam falhar penaltys. Messi também não. E no entanto as grandes estrelas, as que valem milhões, empequeneceram perante o trabalho e crença de Ramires ou Toni Kroos, os melhores em campo nos dois duelos, os que melhor souberam ler e assimilar o encontro.

Guardiola enganou-se no onze, enganou-se nas substituições e enganou-se em não ter um plano B. Mourinho pagou a sua falta de coragem, atrasou-se nas substituições e, sobretudo, foi incapaz de transmitir crença e coragem. Nem o projecto desportivo do Barcelona pode estar em causa nem o mérito de uma época tremenda do Real Madrid. Mas o jogo de hoje deixou claro que os merengues não sabem controlar um jogo de 90 minutos, que têm muita dificuldade em fazer respirar a bola e que dependem em excesso de Cristiano Ronaldo para marcar a diferença (e numa noite em que nem dois golos chegam, está tudo dito). O Real Madrid perdeu a eliminatória no péssimo jogo de Munique, na displicência defensiva dos três golos dos bávaros e, sobretudo, na incapacidade de reeditar o espirito de remontada que faz parte da história do clube. A Décima terá de esperar e provavelmente nunca houve uma oportunidade tão grande para o clube somar a sua dezena de trofeus europeus. O Bayern Munchen foi uma equipa, na total acepção da palavra, e assim se manteve durante 210 minutos, sem quebrar, sem cair de joelhos e com a cabeça bem alta. A final de Munique não poderia ter mais digno finalista.

 

Schweinsteiger e Drogba, dois exemplos perfeitos da crença no futebolista total, podem ganhar a sua primeira Champions League. Em vez de Messi e Ronaldo somarem mais troféus ao seu impecável curriculum, em vez de se entregar de antemão o Ballon D´Or 2012, teremos a alegria de ver jogadores com verdadeira fome de glória disputar um jogo que promete ser épico. Torres, Lampard, Drogba, Cech, Schweinsteiger, Ribery, Robben ou Lahm são homens que valem tanto ou mais do que muitas das estrelas milionárias da galáxia, mas sempre se viram condenados a assistir numa final a glória dos seus rivais. Metade deles no dia 19 de Maio poderá esquecer, de uma vez por todas, que alguma vez foi um perdedor. Acreditar neles mesmos permitiu-lhes sobreviver à dor. Acreditar neles mesmos vai levá-los à glória. O futebol, no seu aspecto mais puro, é muito mais isso do que acreditar na superioridade de uma final Barcelona-Real Madrid, o jogo que a imprensa vende como la creme de la creme mas que não transpira nos poros a crença de quem sabe que um jogo de futebol é algo mais do que uma questão de vida ou morte.



Miguel Lourenço Pereira às 22:28 | link do post | comentar

77 comentários:
De MM a 26 de Abril de 2012 às 19:44
Miguel,

Grato pela última resposta mas só para dizer que não a subscrevo. Em nenhuma das suas parcelas:

. Há caminhos correctos e errados no futebol e em tudo. Alguns correctos e muitos errados.

. O que este (este diz bem, porque não falamos de Barça e Real enquanto 2 organizações imensas cheias de qualidades e defeitos como sempre terão uma e outra e cheias de história uma e outra), mas "este" Barcelona não só é diferente do Real como é diferente de qualquer outro clube de topo de qualquer outro campeonato.

. O que este Barcelona de Guardiola faz nos últimos 3 anos não é minimamente parecido com os Zidanes, Becham, Owen, Ronaldo, Cannavaro, Nistelroy e tantos outros de Florentino.

. O termo "formação" está tão banalizado que reduz-se a um "só que tem". Isto é insano Miguel.

São mil-e-uma as razões para este FCB seja tido como exemplo. O futebol é só uma entre mais.

O Bayern foi melhor nos 2 jogos. Ao Real antes dos penalties faltou futebol e a qualificação dos Alemães não se alicerçou no "querer". Querer querem todos, as competências são é diferentes. Ao FCB não faltou futebol e você não pode sugerir tendo visto os 2 jogos que a final foi esta também porque a UEFA este ano não quis interferir.

Isto é simplesmente errado. Não questiono a sua boa-fé e compreendo que não queira ver sempre o mesmo ganhar mas não deixa por isso de estar errado.

Miguel mantenha o entendimento errado mas espero que um dia o questione. Reitero os cumprimentos e não insisto mais.


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Abril de 2012 às 19:55
MM,

Eu nunca disse que ao Barcelona lhe faltou futebol. Aliás, sobrou-lhe futebol, o seu,o estilo de toque quando o que faltou foi mais contundência. E é evidente que o Bayern foi superior nos dois jogos ao Real Madrid e não mereceu o sofrimento dos penalties, isso está no texto como lhe disse no primeiro comentário.

Quanto ao Barcelona, é evidente que há uma imensa diferença entre o Real Galáctico e este Barça Universal: uma ideia.

No futebol é preciso ter ideias para passar a outro nivel e este Barcelona tem uma ideia de 30 anos e que agora se transformou em santo-e-senha mas que durante muito tempo foi questionado em Barcelona. A mesma ideia que esteve por detrás da Quinta del Buitre e que, desde então, foi trocada pelo dinheiro como único elemento de identidade no Real Madrid.

Eu admiro mais do que o MM possa imaginar este Barcelona, admiro a Laureano Ruiz quando a maioria dos adeptos deste Barça nem sabe quem é. Admirei a van Gaal, eterno questionado, a Rijkaard, que também atingiu a perfeição mas durante menos tempo, e admiro muito a Guardiola, durante anos um dos meus jogadores preferidos por ser então no campo o que hoje é no banco de suplentes.

Este Barcelona distingue-se de quase todos os clubes do Mundo por ser fiel à sua ideia, com o dificil que isso é. Nesta eliminatória, como com o Inter, perdeu-lhe não acreditar que há outras ideias que podem ser uteis em momentos de aperto.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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