O futebol, como a vida, sabe ser injusto para ser justo, sabe transformar os momentos tristes em explosões de êxtase e sabe, sobretudo, jogar com os sentimentos de quem encontra no beautiful game o espelho perfeito de uma sociedade sem referências morais e humanas. Mas é como os deuses, uma criação dos homens, e portanto peca de falta de memória quando mais interessa. A pior semana desportiva da vida do Josep Guardiola treinador começou a servir para que saiam das grutas os lobos ferozes dispostos a questionar a sua figura. Era de esperar, o futebol funciona assim, e por isso parece que é necessário relembrar a grandeza de um treinador que ajudou a redefinir um jogo mágico.
Guardiola pode ou não seguir, o seu lugar na história é intocável.
Esse é o primeiro ponto para qualquer discussão sobre o guardiolismo e o seu papel na definição do Barcelona actual e no panorama do futebol actual. Não só porque é o treinador com melhor ratio de títulos ganhos em apenas cinco anos como treinador mas, essencialmente, porque é o autor de um trademark desportivo. Se há técnicos que fazem do verbo ganhar o sinónimo perfeito ao seu nome e apelido, o filho de Santpedor fez do estético o seu alter-ego. Quando o ganhar conjugou com a estética, o Mundo rendeu-se. Quando as letras se misturaram numa sopa sem verbos nem predicados, os lobos salivaram. Sem motivos.
O treinador do Barcelona não inventou nada novo e, no entanto, foi mais refrescante do que qualquer treinador de top dos últimos anos. Completou a evolução do ideário lançado por Laureano Ruiz em 1972, seguido por Johan Cruyff e aperfeiçoado por Frank Rijkaard. Pegou no estilo aguerrido e profundamente intelectual do futebol sul-americano depois de ter estudado bem as lições dos maestros Marcelo Bielsa e Juanma Lillo nas suas viagens pelo outro lado do charco. Em Itália, ao lado do seu amigo Baggio e sentado atrás do furioso Capello, soube ler e reler as cartilhas mais básicas do catenaccio. A sua aprendizagem aperfeiçoou o seu próprio ADN e quando Joan Laporta decidiu que era o seu antigo idolo, o capitão do Dream Team, e não José Mourinho quem devia ser o sucessor do injustiçado Rijkaard, a estratégia resultou em pleno. A geração era a mesma e os que foram descartados por motivos extra-desportivos encontraram em casa alternativas. Saiu Edmilson, entrou Busquets. Saiu Deco deu-se o protagonismo a Iniesta. Pedro entrou por Messi que fez de Ronaldinho e Henry substituiu Giuly. Pique rendeu Marquez e Dani Alves, o único alien do projecto, foi a evolução lógica de um Beletti que marcou o golo decisivo da final de Paris fazendo aquilo que Alves tem feito desde que aterrou na liga espanhola. A matéria-prima estava lá, os conceitos também. Guardiola encontrou a dose certa da poção mágica, deu-a a provar aos seus e transformou-os a todos em pequenos Asterix do futebol. O Mundo, inevitavelmente, rendeu-se ao papel homérico do técnico. O mesmo Mundo que hoje começa a esquecer-se. Por dois jogos não ganhos em 220.
A coragem é talvez a palavra que melhor define o Guardiola treinador.
Coragem em apostar numa formação desprezada pelas próprias bancadas do Camp Nou. Os mesmos que queriam Xavi fora, que suspeitavam de Iniesta, que não se importaram com o adeus de Guardiola num Barcelona-Celta com o estádio vazio. Os mesmos que não suportavam Louis van Gaal, o homem que lançou Puyol, Xavi, Valdés e Iniesta e os mesmos que estavam fartos com um Frank Rijkaard fundamental em levantar o clube da depressão da segunda era Van Gaal, de Antic e Serra Ferrer e do gaspartismo que destroçou o clube. Busquets, Pedro Rodriguez, Isaac Cuenca, Rodrigo Tello, Thiago Alcantara, Jonathan dos Santos, Marc Montoya, Marc Bartra...nomes próprios do futuro de um clube que será inevitavelmente grande depois de Guardiola, mas forçosamente com as sementes do seu trabalho.
Coragem pela sua inovação táctica, nessa tentativa de fugir do 4-3-3 de Rijkaard e do 4-2-3-1 que quase todos os treinadores seguem piamente actualmente. O seu 4-3-3 sempre foi uma versão invertida do projecto rijkaardiano, o seu 3-4-3 uma concessão ao cruyffismo e o 4-6-0 (ou 3-7-0) a confirmação da sua fé no centro-campista em detrimento da defesa e ataque. Com esses variantes Guardiola destroçou cada um dos seus rivais, venceu 13 de 18 títulos em quatro anos e rompeu todos os registos.
Coragem em dar a cara por uma instituição que viveu os complicados dias finais do laportismo e que nunca se entendeu com o ideário de Sandro Rossel. Coragem em entrar em guerra com o seu antigo amigo José Mourinho na sala de imprensa do Bernabeu, de acreditar cegamente nos seus jogadores e de manter um discurso igual hoje ao que tinha como jogador, há mais de 20 anos. Esse Guardiola marcou a história do futebol de forma épica e inevitável e perder uma liga de quatro e duas Champions de duas não pode deixar cair essa fria realidade no mais puro esquecimento.
Mas claro, o problema não é apenas esse. Nos últimos quatro anos a imprensa e o próprio Barcelona entraram numa espiral perigosa de aperfeiçoamento moral, do qual Guardiola também fez parte. A demonização de qualquer estilo de jogo que não fosse o da posse de bola, o desprezo por qualquer jogador que ofuscasse a Lionel Messi, as palavras azedas com as equipas que se queixaram, com razão, de muitos benefícios arbitrais, especialmente nas provas europeias, mostraram um lado menos agradável. O lado que muitos dos que esperavam uma semana assim querem sacar à luz. Guardiola enganou-se ao seguir esse caminho mas sempre foi coerente, a maioria da imprensa (especialmente a de Barcelona) e dos adeptos por esse mundo futeboleiro fora é que realmente cometeram o erro de acreditar na história do bem e do mal, da perfeição dos pequenos deuses de blaugrana face à crueza humana de todos os outros. Pep, como qualquer outro técnico, engana-se. Enganou-se tacticamente nos últimos jogos, não só pelo dispositivo no terreno de jogo (melhorou de Stanford Bridge ao jogo com o Real Madrid e daí ao jogo com o Chelsea, mas não foi suficiente). Errou ao renunciar ao plano B, ao plano C, ao plano D. A sua devoção absoluta à figura de um Messi que é intocável no balneário do Barcelona, dentro e fora do clube, como nunca foram Ronaldinho, Rivaldo ou Romário (cujas saídas nocturnas eram filtradas pelo clube) levou-o a fechar os olhos a outros jogadores, outras ideias. Deixou de acreditar na imagem do ponta-de-lança (abdicou de Etoo, virou as costas a Ibrahimovic, nunca acreditou em Bojan, suspeitou de Villa), apostou em excesso no jogo interior e desgastou em excesso os seus jogadores-chave (Xavi, Iniesta, o próprio Messi estão fisicamente destroçados há um mês) e mesmo a sua aposta na defesa de três encontrou-se com um plantel curto que obrigou a adaptar a Mascherano e a dar demasiados minutos a Adriano, dois jogadores fora de posição. Esses erros de gestão, tão comuns na vida de qualquer grande treinador, destoam da imagem imaculada vendida sobre a figura de um Guardiola que agora, seguramente, irá provar noutras paragens o seu imenso génio.
Guardiola sabe bem a casa que habita. Os adeptos do Barcelona devoram os seus com mais ferocidade do que qualquer clube do mundo. Van Gaal é desprezado, Cruyff durante muitos anos foi assobiado e Frank Rijkaard é o eterno esquecido. Na época do holandês o onze blaugrana venceu e jogou ao mesmo nível que o Pep Team. Ronaldinho foi, provavelmente, tão ou mais grande do que Messi tem sido e Etoo, Deco, Xavi e companhia faziam parte da equipa de sonho de qualquer adepto. E no entanto o cansaço físico e emocional destroçou um projecto destinado a governar sine die o futebol mundial. Guardiola sabe que um cenário similar pode voltar a suceder com a geração actual e se bem que acredite que seguirá, não o fará desconhecendo o ano complicado que o espera. Isso é o futebol de presente e de futuro. O passado é intocável e belo, e a corrida de Guardiola em Stanford Bridge, as suas lágrimas na final do Mundial de Clubes, as goleadas ao Real Madrid e as duas finais europeias diante do Manchester United são apenas pequenas gotas num oceano de épica histórica digna de uma gesta medieval única que emocionaram qualquer adepto do futebol. Poucos treinadores, num jogo que é sobretudo de jogadores, são capazes de gerar essa admiração e devoção. Ele é um deles e sabe-o, sente-o e vive-o. Guardiola, como qualquer outro técnico, não é perfeito e esta época tem cometido mais erros do que é habitual. Mas nem Sacchi, nem Ferguson, nem Shankly, nem Clough, nem Mourinho, nem Herrera, nem Santana, nem Michels, nem Lobanovsky, nem Menotti, nem Cruyff o foram e a história sabe dar-lhes o devido valor. Guardiola será sempre um dos grandes técnicos da história do futebol porque soube ler o passado para projectar o futuro.

