Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

O futebol, como a vida, sabe ser injusto para ser justo, sabe transformar os momentos tristes em explosões de êxtase e sabe, sobretudo, jogar com os sentimentos de quem encontra no beautiful game o espelho perfeito de uma sociedade sem referências morais e humanas. Mas é como os deuses, uma criação dos homens, e portanto peca de falta de memória quando mais interessa. A pior semana desportiva da vida do Josep Guardiola treinador começou a servir para que saiam das grutas os lobos ferozes dispostos a questionar a sua figura. Era de esperar, o futebol funciona assim, e por isso parece que é necessário relembrar a grandeza de um treinador que ajudou a redefinir um jogo mágico.

Guardiola pode ou não seguir, o seu lugar na história é intocável.

Esse é o primeiro ponto para qualquer discussão sobre o guardiolismo e o seu papel na definição do Barcelona actual e no panorama do futebol actual. Não só porque é o treinador com melhor ratio de títulos ganhos em apenas cinco anos como treinador mas, essencialmente, porque é o autor de um trademark desportivo. Se há técnicos que fazem do verbo ganhar o sinónimo perfeito ao seu nome e apelido, o filho de Santpedor fez do estético o seu alter-ego. Quando o ganhar conjugou com a estética, o Mundo rendeu-se. Quando as letras se misturaram numa sopa sem verbos nem predicados, os lobos salivaram. Sem motivos.

O treinador do Barcelona não inventou nada novo e, no entanto, foi mais refrescante do que qualquer treinador de top dos últimos anos. Completou a evolução do ideário lançado por Laureano Ruiz em 1972, seguido por Johan Cruyff e aperfeiçoado por Frank Rijkaard. Pegou no estilo aguerrido e profundamente intelectual do futebol sul-americano depois de ter estudado bem as lições dos maestros Marcelo Bielsa e Juanma Lillo nas suas viagens pelo outro lado do charco. Em Itália, ao lado do seu amigo Baggio e sentado atrás do furioso Capello, soube ler e reler as cartilhas mais básicas do catenaccio. A sua aprendizagem aperfeiçoou o seu próprio ADN e quando Joan Laporta decidiu que era o seu antigo idolo, o capitão do Dream Team, e não José Mourinho quem devia ser o sucessor do injustiçado Rijkaard, a estratégia resultou em pleno. A geração era a mesma e os que foram descartados por motivos extra-desportivos encontraram em casa alternativas. Saiu Edmilson, entrou Busquets. Saiu Deco deu-se o protagonismo a Iniesta. Pedro entrou por Messi que fez de Ronaldinho e Henry substituiu Giuly. Pique rendeu Marquez e Dani Alves, o único alien do projecto, foi a evolução lógica de um Beletti que marcou o golo decisivo da final de Paris fazendo aquilo que Alves tem feito desde que aterrou na liga espanhola. A matéria-prima estava lá, os conceitos também. Guardiola encontrou a dose certa da poção mágica, deu-a a provar aos seus e transformou-os a todos em pequenos Asterix do futebol. O Mundo, inevitavelmente, rendeu-se ao papel homérico do técnico. O mesmo Mundo que hoje começa a esquecer-se. Por dois jogos não ganhos em 220.

 

A coragem é talvez a palavra que melhor define o Guardiola treinador.

Coragem em apostar numa formação desprezada pelas próprias bancadas do Camp Nou. Os mesmos que queriam Xavi fora, que suspeitavam de Iniesta, que não se importaram com o adeus de Guardiola num Barcelona-Celta com o estádio vazio. Os mesmos que não suportavam Louis van Gaal, o homem que lançou Puyol, Xavi, Valdés e Iniesta e os mesmos que estavam fartos com um Frank Rijkaard fundamental em levantar o clube da depressão da segunda era Van Gaal, de Antic e Serra Ferrer e do gaspartismo que destroçou o clube. Busquets, Pedro Rodriguez, Isaac Cuenca, Rodrigo Tello, Thiago Alcantara, Jonathan dos Santos, Marc Montoya, Marc Bartra...nomes próprios do futuro de um clube que será inevitavelmente grande depois de Guardiola, mas forçosamente com as sementes do seu trabalho.

Coragem pela sua inovação táctica, nessa tentativa de fugir do 4-3-3 de Rijkaard e do 4-2-3-1 que quase todos os treinadores seguem piamente actualmente. O seu 4-3-3 sempre foi uma versão invertida do projecto rijkaardiano, o seu 3-4-3 uma concessão ao cruyffismo e o 4-6-0 (ou 3-7-0) a confirmação da sua fé no centro-campista em detrimento da defesa e ataque. Com esses variantes Guardiola destroçou cada um dos seus rivais, venceu 13 de 18 títulos em quatro anos e rompeu todos os registos.

Coragem em dar a cara por uma instituição que viveu os complicados dias finais do laportismo e que nunca se entendeu com o ideário de Sandro Rossel. Coragem em entrar em guerra com o seu antigo amigo José Mourinho na sala de imprensa do Bernabeu, de acreditar cegamente nos seus jogadores e de manter um discurso igual hoje ao que tinha como jogador, há mais de 20 anos. Esse Guardiola marcou a história do futebol de forma épica e inevitável e perder uma liga de quatro e duas Champions de duas não pode deixar cair essa fria realidade no mais puro esquecimento.

Mas claro, o problema não é apenas esse. Nos últimos quatro anos a imprensa e o próprio Barcelona entraram numa espiral perigosa de aperfeiçoamento moral, do qual Guardiola também fez parte. A demonização de qualquer estilo de jogo que não fosse o da posse de bola, o desprezo por qualquer jogador que ofuscasse a Lionel Messi, as palavras azedas com as equipas que se queixaram, com razão, de muitos benefícios arbitrais, especialmente nas provas europeias, mostraram um lado menos agradável. O lado que muitos dos que esperavam uma semana assim querem sacar à luz. Guardiola enganou-se ao seguir esse caminho mas sempre foi coerente, a maioria da imprensa (especialmente a de Barcelona) e dos adeptos por esse mundo futeboleiro fora é que realmente cometeram o erro de acreditar na história do bem e do mal, da perfeição dos pequenos deuses de blaugrana face à crueza humana de todos os outros. Pep, como qualquer outro técnico, engana-se. Enganou-se tacticamente nos últimos jogos, não só pelo dispositivo no terreno de jogo (melhorou de Stanford Bridge ao jogo com o Real Madrid e daí ao jogo com o Chelsea, mas não foi suficiente). Errou ao renunciar ao plano B, ao plano C, ao plano D. A sua devoção absoluta à figura de um Messi que é intocável no balneário do Barcelona, dentro e fora do clube, como nunca foram Ronaldinho, Rivaldo ou Romário (cujas saídas nocturnas eram filtradas pelo clube) levou-o a fechar os olhos a outros jogadores, outras ideias. Deixou de acreditar na imagem do ponta-de-lança (abdicou de Etoo, virou as costas a Ibrahimovic, nunca acreditou em Bojan, suspeitou de Villa), apostou em excesso no jogo interior e desgastou em excesso os seus jogadores-chave (Xavi, Iniesta, o próprio Messi estão fisicamente destroçados há um mês) e mesmo a sua aposta na defesa de três encontrou-se com um plantel curto que obrigou a adaptar a Mascherano e a dar demasiados minutos a Adriano, dois jogadores fora de posição. Esses erros de gestão, tão comuns na vida de qualquer grande treinador, destoam da imagem imaculada vendida sobre a figura de um Guardiola que agora, seguramente, irá provar noutras paragens o seu imenso génio.

 

Guardiola sabe bem a casa que habita. Os adeptos do Barcelona devoram os seus com mais ferocidade do que qualquer clube do mundo. Van Gaal é desprezado, Cruyff durante muitos anos foi assobiado e Frank Rijkaard é o eterno esquecido. Na época do holandês o onze blaugrana venceu e jogou ao mesmo nível que o Pep Team. Ronaldinho foi, provavelmente, tão ou mais grande do que Messi tem sido e Etoo, Deco, Xavi e companhia faziam parte da equipa de sonho de qualquer adepto. E no entanto o cansaço físico e emocional destroçou um projecto destinado a governar sine die o futebol mundial. Guardiola sabe que um cenário similar pode voltar a suceder com a geração actual e se bem que acredite que seguirá, não o fará desconhecendo o ano complicado que o espera. Isso é o futebol de presente e de futuro. O passado é intocável e belo, e a corrida de Guardiola em Stanford Bridge, as suas lágrimas na final do Mundial de Clubes, as goleadas ao Real Madrid e as duas finais europeias diante do Manchester United são apenas pequenas gotas num oceano de épica histórica digna de uma gesta medieval única que emocionaram qualquer adepto do futebol. Poucos treinadores, num jogo que é sobretudo de jogadores, são capazes de gerar essa admiração e devoção. Ele é um deles e sabe-o, sente-o e vive-o. Guardiola, como qualquer outro técnico, não é perfeito e esta época tem cometido mais erros do que é habitual. Mas nem Sacchi, nem Ferguson, nem Shankly, nem Clough, nem Mourinho, nem Herrera, nem Santana, nem Michels, nem Lobanovsky, nem Menotti, nem Cruyff o foram e a história sabe dar-lhes o devido valor. Guardiola será sempre um dos grandes técnicos da história do futebol porque soube ler o passado para projectar o futuro.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar

4 comentários:
De pedro oliveira a 25 de Abril de 2012 às 16:09
Excelente «post» (estava a precisar de ler algo assim, hoje).
Deixo aqui uma citação do livro "Mourinho versus Guardiola" p. 37:
«É [José Mourinho] um treinador nato, um vencedor, um técnico que utiliza tudo quanto está ao seu alcance para vencer.
Ganhará muitas coisas, mas para mim, o mais importante é ter a bola, porque senão vou praticar atletismo.
Não é um crítica é antes uma análise. Nas semifinais da Liga dos Campeões anterior, o Inter de Mourinho teve 30 % de bola quando defrontou o Barça e aconteceu mais ou menos o mesmo na final com o Bayern, eu gosto de acariciar a bola»
Johan Cruyff


De Tulo a 25 de Abril de 2012 às 16:52
Grande post. Guardiola e o Barcelona devolveram-me o prazer de ver futebol. E o futebol é isso, é festa, é espectáculo, é ataque, são os golos. O resto são aberrações desportivas, especialistas do anti-jogo, de campeonatos menores e treinadores limitados e invejosos. Por isso digo: Obrigado, Guardiola. Obrigado, Barça.


De Miguel Lourenço Pereira a 25 de Abril de 2012 às 18:02
Tulo,

O problema que encontrou Guardiola nos últimos tempos foi essa frescura com que nos encantou, essa facilidade para o golo, essa eficácia tremenda. Os jogadores estão rotos, o sistema tornou-se previsivel e as alternativas não existem no plantel. Os jogos com o Chelsea e Madrid foram parecidos e o resultado foi invariavelmente o mesmo (e apesar da tremenda sorte não creio que fosse um num milhão).

Mas o papel deste Barcelona em elevar o futebol jogado a outro patamar é inquestionável e basta ver as idades dos jogadores-chave (excepto Puyol e Xavi, em fase decrescente), ver quem vem aí atrás e no dinheiro que o clube pode investir, para ter a certeza que o Barcelona é o favorito número 1 para a próxima edição da Champions League.

um abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 25 de Abril de 2012 às 18:00
Pedro,

É fácil entrar na eterna comparação e luta entre Mourinho, há muitos anos que não havia dos treinadores com um perfil tão vincado e que dividissem tanto a opinião. Eu, como amante intenso do beautiful game, adoro os dois, pelo que são, pelo que defendem e pelo que representam. Guardiola e Mourinho falam por si mesmos, sem comparações, sem valorações. Pep é o dono da bola, Mou o dono do espaço, Pep é o homem da casa, Mou o itinerante cavaleiro, Pep o retrato paisagistico mais belo, Mou a obra abstracta mais intensa.

Guardiola merece hoje mais elogios do que quando ganhou o que ganhou, porque o seu nome é intocável, quer se queira quer não, pelo que logrou atrás e como o logrou. E vamos desfrutar ainda muito dele para a frente, com noites como a de ontem, onde o homem em quem delegou tudo lhe falou, e em noites como a de Roma ou Londres, onde tudo lhe saiu perfeito.

um abraço


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Últimos Comentários
Thank you for some other informative web site. Whe...
Só espero que os Merengues consigam levar a melhor...
O Universo do Desporto é um projeto com quase cinc...
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
arquivos

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

.Em Destaque


UEFA Champions League

UEFA Europe League

Liga Sagres

Premier League

La Liga

Serie A

Bundesliga

Ligue 1
.Do Autor
Cinema
.Blogs Futebol
4-4-2
4-3-3
Brigada Azul
Busca Talentos
Catenaccio
Descubre Promesas
Desporto e Lazer Online
El Enganche
El Fichaje Estrella
Finta e Remate
Futebol Artte
Futebolar
Futebolês
Futebol Finance
Futebol PT
Futebol Total
Jogo de Área
Jogo Directo
Las Claves de Johan Cruyff
Lateral Esquerdo
Livre Indirecto
Ojeador Internacional
Olheiros.net
Olheiros Ao Serviço
O Mais Credível
Perlas del Futbol
Planeta de Futebol
Portistas de Bancada
Porto em Formação
Primeiro Toque
Reflexão Portista
Relvado
Treinador de Futebol
Ze do Boné
Zero Zero

Outros Blogs...

A Flauta Mágica
A Cidade Surpreendente
Avesso dos Ponteiros
Despertar da Mente
E Deus Criou a Mulher
Renovar o Porto
My SenSeS
.Futebol Nacional

ORGANISMOS
Federeção Portuguesa Futebol
APAF
ANTF
Sindicato Jogadores

CLUBES
Futebol Clube do Porto
Sporting CP
SL Benfica
SC Braga
Nacional Madeira
Maritimo SC
Vitória SC
Leixões
Vitoria Setúbal
Paços de Ferreira
União de Leiria
Olhanense
Académica Coimbra
Belenenses
Naval 1 de Maio
Rio Ave
.Imprensa

IMPRENSA PORTUGUESA DESPORTIVA
O Jogo
A Bola
Record
Infordesporto
Mais Futebol

IMPRENSA PORTUGUESA GENERALISTA
Publico
Jornal de Noticias
Diario de Noticias

TV PORTUGUESA
RTP
SIC
TVI
Sport TV
Golo TV

RADIOS PORTUGUESAS
TSF
Rádio Renascença
Antena 1


INGLATERRA
Times
Evening Standard
World Soccer
BBC
Sky News
ITV
Manchester United Live Stream

FRANÇA
France Football
Onze
L´Equipe
Le Monde
Liberation

ITALIA
Gazzeta dello Sport
Corriere dello Sport

ESPANHA
Marca
As
Mundo Deportivo
Sport
El Mundo
El Pais
La Vanguardia
Don Balon

ALEMANHA
Kicker

BRASIL
Globo
Gazeta Esportiva
Categorias

a gloriosa era dos managers

a historia dos mundiais

adeptos

africa

alemanha

america do sul

analise

argentina

artistas

balon d´or

barcelona

bayern munchen

biografias

bota de ouro

braga

brasileirão

bundesliga

calcio

can

champions league

colaboraçoes

copa america

corrupção

curiosidades

defesas

dinamarca

economia

em jogo

entrevistas

equipamentos

eredevise

espanha

euro 2008

euro 2012

euro sub21

euro2016

europe league

europeus

extremos

fc porto

fifa

fifa award

finanças

formação

futebol internacional

futebol magazine

futebol nacional

futebol portugues

goleadores

guarda-redes

historia

historicos

jovens promessas

la liga

liga belga

liga escocesa

liga espanhola

liga europa

liga sagres

liga ucraniana

liga vitalis

ligas europeias

ligue 1

livros

manchester united

medios

mercado

mundiais

mundial 2010

mundial 2014

mundial 2018/2022

mundial de clubes

mundial sub-20

noites europeias

nostalgia

obituário

onze do ano

opinião

polemica

politica

portugal

premier league

premios

real madrid

santuários

seleção

selecções

serie a

sl benfica

sociedade

south africa stop

sporting

taça confederações

taça portugal

taça uefa

tactica

treinadores

treino

ucrania

uefa

todas as tags

subscrever feeds