Quarta-feira, 18 de Abril de 2012

jogadores que se recusam a morrer. A engolir a relva pela última vez com a raiva e impotência de quem sabe que é a última oportunidade. Incombustíveis que não acreditam no fado, no destino ou na mortalidade. Esses jogadores valem muito mais do que as estatísticas e os cifrões podem calcular. São, de certa forma, a base mitológica de um jogo que sempre se ergueu entre génios e guerreiros. Didier Drogba é um elefante com memória, incapaz de aceitar a sua idade e o final de uma carreira brilhante. Tinha a lembrança de uma noite que lhe custou mais caro do que qualquer outra e foi pela enésima vez aquilo que faz dele um futebolista fundamental. Um jogador nunca supera onze, mas uma alma em chamas pode muitas vezes com o melhor desenho táctico.

Imagino José Mourinho a mandar uma mensagem de telemóvel a Didier Drogba ao intervalo como se ainda fosse o seu treinador.

Imagino Didier Drogba a sentir o entusiasmo do treinador por quem se confessou ter apaixonado e sacar forças onde não as tinha no corpo para aguentar outros 45 minutos de luta. O marfilenho não ouviu sequer o que Roberto Di Mateo tinha a dizer. O italiano não está no banco do Chelsea para falar, especialmente a jogadores que fazem da sobrevivência a sua maior virtude. Está claro como a água que Petr Cech, Ashley Cole, John Terry, Frank Lampard e Didier Drogba estão longe de ser o que foram e nunca voltarão a ser, os melhores do mundo na sua posição. Esses dias distantes, no entanto, permitem um reflexo de saudade no espelho e como com Cinderela, até à meia noite a abóbora transforma-se numa carruagem elegante. 

A vitória do Chelsea foi, futebolisticamente, a vitória dos Gianni Brera do mundo. Uma vitória que doi para aqueles que abominan que o jogo que apaixonou o povo se tenha transformado num encontro de xadrez. Para Di Mateo, italiano de cêpa, e para o exército de guerreiros que Mourinho montou em 2004 e que ainda se aguanta, o xadrez tem sempre mais interesse que as damas. A movimentação do bloco londrino foi tão lenta e previsível como a dos peões do tabuleiro. Mas o Barcelona de Guardiola que, este ano, é cada vez mais o Barcelona de Messi, não teve a habitual fluidez do jogo de damas. E pagou o preço. Di Mateo abdicou da bola, definiu o espaço onde se ia jogar - fora da grande área de Cech e nunca mais além da linha do meio-campo - e passou os 90 minutos do encontro a garantir que o seu exército, o mesmo que expulsou Villas-Boas, mantivesse as fileiras cerradas. O objectivo de não sofrer um golo em casa era evidente, o de marcar era uma sorte. O futebol que tanto tem penalizado o Chelsea (o tropeção de Terry em Moscovo, o golo fantasma de Luis Garcia, o golo de Iniesta no último suspiro, as polémicas arbitragens...) sorriu-lhe por uma vez. Num dos poucos lances com profundidade ofensiva, a bola circulou entre Lampard e Ramires antes de encontrar o elefante com memória. E foi suficiente. Se Guardiola, na sua filosofia de apostar no jogo interior de médios, abdica habitualmente da figura do avançado de referência, hoje Didier Drogba deu um mestrado de 90 minutos de como essa posição pode ser tremendamente eficaz.

 

Drogba era o braço-direito de Mourinho.

Sofreu como nenhum a sua saída, nunca mais se reencontrou e naquela noite em que Iniesta pontapeou a malapata e Tom Ovrebo ganhou um lugar entre os malditos da história do jogo, ele pagou como ninguém. Uma derrota, uma suspensão imensa e uma imagem ferida de morte. Três anos depois dessa noite muitos se lembravam desse jogo mas nenhum com a raiva de Drogba. Durante os 90 minutos ele nunca quis jogar futebol. Para ele o encontro era uma guerra, sem nenhuma dúvida, uma guerra onde a bola entrava em jogo mas em que o escalpe do rival também servia como prémio. Encontrou-se com Busquets, Mascherano, Puyol e Adriano vezes sem conta e sempre que foi ao chão voltou a erguer-se. Aos seus 34 anos (imaginemos que essa é a sua idade, suspeitamos que não), o jogo de hoje é irrepetível porque a raiva contida em Drogba finalmente saiu. Com aquele oportuno golo, com aquele destelho de glória irónica que à distância de um sms deve tanto ter agradado a Mourinho.

Drogba venceu o jogo porque foi o primeiro defesa e o último avançado, o espelho do típico avançado completo capaz de ler o jogo como qualquer defesa e com o talento suficiente para fazer a diferença nos momentos difíceis. Em várias ocasiões livrou-se de dois ou três rivais. Depois, sabendo-se só, aguentou como pôde. Fernando Torres, talvez mais virtuoso, passou os 90 minutos no banco. Seria incapaz de fazer algo sequer similar a este esforço sobre-humano do marfilenho. Torres gosta de ter a equipa a jogar para si (e até com a selecção espanhola o sofre), Drogba joga para a equipa.

A vitória do Chelsea deveu-se à garra dos seus jogadores, à disciplina táctica pactuada entre o técnico e o onze, à sorte absoluta de que por duas vezes o poste tenha servido de guarda-redes e, muito, aos erros de Pep Guardiola. 

Neste ano o Barcelona tem aumentado tremendamente a sua dependência de Leo Messi. O argentino cometeu o erro que propiciou o golo dos Blues e tentou redimir-se, como grande jogador que é, mas entre Cahill, Terry e Mikel, nunca se sentiu cómodo. E quando Messi está em baixo, o Barça desaparece. Demasiadas vezes para quem tem um plantel tão equilibrado. Guardiola sabia-o perfeitamente e leu mal o jogo desde o apito inicial. O Chelsea fechou-se num quadrado que seguia o espaço que delimitava a área com o grande circulo. Aí posicionou o seu 11 deixando abertas as alas e sobrepovoando o jogo interior. Asfixiou Messi, Iniesta, Fabregas, Busquets e Xavi, todos eles a anos-luz do seu melhor. Mas deixou mais do que espaço para o jogo de Alexis, Dani Alves e Adriano. Só que estes nunca procuraram causar desequilíbrios por fora e Guardiola, em lugar de abrir o campo como tem feito, só colocou Cuenca em campo aos 85 minutos. Pedro Rodriguez caiu na tentação de ir caindo para dentro e Thiago foi mais um interior no meio de muitos.

Em lugar de apostar em Tello (que nem no banco estava) e Cuenca, que tantos problemas têm resolvido esta época, sobretudo fora do Camp Nou, afunilou o jogo como Di Mateo queria. As damas funcionam bem em diagonal e bem abertas. O xadrez é mais eficaz com um tabuleiro reduzido ao mínimo. E letal quando quem joga é um elefante com memória.

 

Tal como a derrota do Real Madrid no Allianz Arena, o favoritismo do Barcelona encontrou-se com um excelente jogo táctico do adversário e uma fraca exibição da equipa favorita. Ninguém impede o sonho de muitos de uma final 100% espanhola em Munique porque, futebolisticamente, tanto o Barça como o Madrid têm argumentos para vencer os jogos da próxima semana. Mas o cansaço de um Clássico no fim-de-semana e a clara falta de argumentos tácticos de ambos face a rivais teoricamente inferiores foi evidente. Mourinho errou com Coentrão, com a saida de Ozil, com a entrada de Marcelo e Granero, com a falta de paciência no jogo de meio-campo. O Barcelona fechou-se demasiado na sua concha e na dependência de um leão atropelado por um elefante. Tudo muda em 90 minutos e talvez este tenha sido o espelho de uma ilusão, mas a história sempre recordará a saudação militar do guerreiro Drogba para a câmara, talvez para o seu general ausente, com dedicatória especial a todos os elefantes.



Miguel Lourenço Pereira às 22:24 | link do post

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