O futebol é o desporto colectivo onde a individualidade está mais bem vista. Olhando para o leque de desportos de equipa talvez o basket, pelo mediatismo do mercado norte-americano, goste de sentir-se igualmente rodeado de heróis. Mas no mundo do tapete verde, esférico redondo e 11 contra 11 o poder mediático do "eu" supera talvez demasiadas vezes o mérito logrado pelo "nós". No entanto vivemos uma era onde, pela primeira vez em muitos anos, há um verdadeiro duelo de "eus" que estimula o "nós" que prende a audiência e que, nesta luta de titãs, definirá, de um modo ou de outro, a história.
Faltam cinco jogos para terminar a liga espanhola. Dois para o pontapé final na Champions League.
E a luta continua, prolonga-se pela eternidade mental de dois jogadores que se superam a cada respiração, que exploram todas as falhas do rival, dos rivais, deles mesmos, para continuar a fazer a diferença. E há muitos anos que dois individuos, de forma paralela no tempo e espaço, não eram tão fundamentais em establecer um verdadeiro abismo entre mundos. Se é verdade que o orçamento de Real Madrid e Barcelona é descomunal, mesmo para os padrões europeus, a cada jogo que se sucede fica a sensação de que Messi e Ronaldo jogam cada vez mais outro tipo de jogo. Claro que o colectivo ajuda - e aí Messi ganha com Xavi, Iniesta, Sanchez, Fabregas, Busquets comparado com Higuain, Benzema, Ozil, Kaka e Alonso - e já se viu que sem uma estrutura forte nem um nem outro conseguem romper os maleficios das suas respectivas selecções. Uma lembrança de que este ainda é um jogo colectivo. Mas ás vezes não parece.
Cristino soma 41 golos. Messi também.
Ambos estão a um de igualar o recorde histórico que o português marcou no ano passado, esses números brutais de outra era. E a facilidade com que acumulam hat-tricks, pokers e golos para marcar a história, permite imaginar que não tardará muito e ambos estarão por competir em entrar na meia centena de golos ao ano numa prova onde ainda só há 38 jogos. Messi reina igualmente na Champions League e já superou, com 24 anos, o recorde histórico de César como máximo goleador blaugrana. Em sete anos - e muitos se esquecem que o argentino já anda há tanto tempo na elite - Messi quebrou rotinas, records e percepções, mudou a posição no terreno de jogo, ajudou a mutar o jogo do Barcelona e tornou-se no simbolo de uma geração de futebolistas. O espirito trota-mundos de Ronaldo - Lisboa, Manchester, Madrid - impede-o de ter esse recorde local, mas os números logrados em Manchester, primeiro, e agora em Madrid, não deixam lugar a dúvidas. É o único jogador da história da liga espanhola que supera, em quase três anos, uma média de mais de um golo por jogo.
Registos monstruosos que ajudam a explicar o imenso fosso que se abriu entre Real Madrid, Barcelona e o resto.
O desporto, seja individual ou colectivo, gosta de manos a manos porque, no fundo, deriva da mesma filosofia homérica que toda a Humanidade.
Em cada história desportiva há um Aquiles e um Heitor, um herói e um vilão, uma tendência profunda a catalogar entre Mozart e Salieri quem se defronta com a mesma paixão e emoção na arena.
Desde sempre os dois maiores clubes espanhóis dominaram o torneio nacional e revelaram-se pesos pesados nos palcos europeus. E sempre contaram com grandes orçamentos, técnicos, planteis e, sobretudo, estrelas que marcaram o jogo. Por ambos passaram os melhores jogadores da história com a excepção de Pelé, Garrincha, Best e Beckenbauer. E no entanto, talvez com a excepção de Alfredo Di Stefano, nunca nenhum deles foi tão fundamental em criar um fosso constante com os restantes rivais. Se já é raro na história do futebol espanhol que os dois clubes coincidam nas suas melhores versões no tempo (só entre finais dos anos 50 e principios dos 60 se viveu a mesma realidade), que o buraco pontual aberto com os restantes concorrentes seja recorrentemente de 20 pontos (desde a era Pellegrini) é abrumador. Messi e Ronaldo são a resposta para quem pensa que essa realidade não se prolongará em excesso no tempo. Pelo menos enquanto estes dois monstros do futebol mantenham a sua guerra pessoal contra o outro e contra a história.
Messi sofreu durante alguns anos a suspeita de que era fruto exclusivo de uma grande geração de jogadores, a mesma que ajudou Rijkaard a ser campeão europeu e que depois foi a base do triunfo da Espanha em 2008 e 2012. E isso não deixa de ser verdade. Em 2010 a vitória do argentino na corrida ao Ballon D´Or foi mais mediática que real e no ano anterior Xavi Hernandez foi a verdadeira batuta do primeiro Pep Team, quando Messi ainda jogava colado à banda direita com assiduidade e a veia goleadora de Etoo ainda se fazia notar. Mas ninguém pode questionar que, desde há ano e meio para cá, é o argentino que leva a sua equipa ás costas. A idade e os problemas fisicos de Xavi e Iniesta (muito irregular este ano) não se têm notado porque Messi tem resolvido como nunca e os seus números, em golos e assistências explicam-no bem. Num Barcelona sem Villa e com demasiados problemas para formar uma defesa sólida, esperava-se mais de Pedro e Fabregas, muito irregulares. Também Sanchez alterna semanas intensas com meses fora de combate. E no meio de tudo é a linha Valdes-Puyol-Busquets-Messi que tem sustentado o ano mais curioso da história do Pep Team. O ano em que o Barcelona deve muito mais ao argentino que este deve ao entorno que sempre o potenciou.
Ronaldo viveu um processo mais complexo. Saiu de uma equipa feita à sua medida para entrar num ninho de vespas onde teve de ganhar o lugar de estrela a pulso contra a imprensa, muitos dos adeptos e os detractores do presidencialismo de Perez. No primeiro ano uma lesão manteve-o fora dois meses da luta e dos números mágicos de Messi. No segundo bateu o recorde histórico do Pichichi e superou o trauma de falhar contra o rival nos duelos directos, ganhando uma Copa del Rey com o golo decisivo. Esta temporada foi sempre o melhor blanco contra os blaugranas (marcando três golos nos últimos três encontros) e agora mede-se de igual para igual com a sua nemésis em todos os titulos em disputa. Uma progressão real que também se explica na forma como Ronaldo pegou no Real Madrid quando o conservadorismo táctico de Mourinho e os claros problemas fisicos do plantel se começaram a fazer sentir a partir de Fevereiro.
Mantendo o ritmo intenso de jogos nas pernas e de golos nas redes, a monstruosidade dos números dos dois jogadores promete superar-se jornada após jornada. O próximo fim-de-semana vivierá mais um duelo directo entre ambos, um jogo onde o colectivo certamente será mais importante que o individuo, mas em que todos os focos estarão nestes dois génios do futebol contemporâneo. É dificil dizer quando jogadores tão próximos em todos os niveis quem é melhor. Garrincha foi mais artista que Pelé mas talvez este tenha sido mais completo. Beckenbauer e Cruyff tinham a mesma inteligência e carisma, o holandês mais velocidade e o alemão mais regularidade. Entre Zidane, Ronaldo e Ronaldinho explica-se a metamorfose fisica e táctica do jogo. Messi e Ronaldo vivem esse jogo da eterna comparação, dessa mistura entre números e ideias, desse jogo de reflexos e reacções. O que Guardiola diz, e com toda a razão, é que o facto do génio de um alimentar o génio do outro forçosamente permite antever um duelo titânico sem fim à vista. A diferença entre os dois jogadores e os seus respectivos emblemas pode aumentar, mas nenhum deles se vai dar conta. Estão demasiado preocupados a tentar não ver o outro no espelho reflectido e a olhar para a história com a autoridade dos inquestionáveis.

