Sábado, 7 de Abril de 2012

Quando Joan Laporta sucedeu a Gaspart como presidente do FC Barcelona a situação politica do futebol europeu vivia numa encruzilhada extremamente complexa. O grupo conhecido como o G14 fazia-se sentir mais influente do que nunca junto de Leonardt Johanssen e a ameaça de uma Superliga europeia era cada vez mais real. Laporta retirou o clube blaugrana da segunda linha desse grupo, liderado por Hoeness, Perez e Galliani, e apostou todas as fichas em Michel Platini, o homem de confiança de Sepp Blatter. O futuro deu-lhe razão e desde então sempre que se vêm em problemas, o clube catalão encontra sempre um amigo!

 

Os corredores do poder na sede da UEFA em Nyon eram estreitos para os emissórios blaugranas.

O clube era visto com maus olhos pela directiva e não passava de uma formação de segundo nivel do grupo G14, fundado por Florentino Perez, Adriano Galliani e Uli Hoeness numa reunião em Milão no ano 2000. Entre AC Milan, Bayern Munchen e Real Madrid, com o fortissimo apoio de Manchester United, Olympique Lyon, FC Porto, Juventus e Arsenal pretendia-se desenhar o futuro do futebol continental.

O papel da UEFA na criação da nova Champions League tinha sido fulcral para por em prática os desejos da elite continental mas o mandato final do presidente sueco tinha deixado demasiadas pontas soltas que os dirigentes pretendiam atar com a criação de uma Superliga europeia ao estilo NBA. O projecto nunca chegou a avançar mas o peso do G14 aumentou de ano para ano e isso reflectia-se no sucesso desportivo dos seus principais integrantes. O Barcelona, em crise depois da venda de Luis Figo e da saída de Louis van Gaal, era um mero actor secundário. E isso notava-se no Camp Nou.

Em 2003 o ambicioso advogado catalão Joan Laporta apontou á sucessão de Joan Gaspart. Prometeu trazer David Beckham, acabou por trazer Ronaldinho mas o mais importante acto de gestão foi criar uma embaixada do clube na UEFA, com Gaspart de emissário, juntando a um grupo de descontentes entre personalidades influentes e clubes insatisfeitos com o rumo económico do G14 original. Uma especie de oposição que começou a fazer-se sentir no último ano de mandato de Johanssen quando o clube apoiou declaradamente o francês Michel Platini na corrida á presidência. Florentino Perez tinha saído do Real Madrid, Silvio Berlusconi estava mais preocupado com o seu papel como primeiro-ministro italiano e o apoio da FIFA e as promessas de maior equilibrio financeiro e competitivo com as pequenas e médias nações europeias deram a Platini uma vitória surpreendente.

O Barcelona tinha acertado e começou a viver uma época de esplendor europeu inigualável no seu mágico historial.

 

Em 2006 Chelsea e AC Milan sofreram na pele a influência blaugrana nos corredores de Nyon.

Os ingleses, orientados por José Mourinho, viram o defesa lateral espanhol Asier del Horno ser expulso por agressão depois de um lance onde um então promissor Leo Messi contribuiu, e muito, na decisão final do árbitro. O génio de Ronaldinho fez o resto. Na semi-final que precedeu a coroação do magnifico conjunto orientado por Frank Rikjaard aos italianos foi anulado um golo fundamental no jogo da segunda mão apontado pelo ucraniano Andrey Shevchenko. Anos mais tarde, na celebre conferência de imprensa que lhe valeu a maior suspensão na história da UEFA a um treinador de futebol, o sadino não se lembrou dos nomes de Terje Hauge e Markus Merk. Não era necessário, o historial dos anos seguintes faria destes dois episódios meras anedotas desportivas, similares ás dos sempre polémicos Mr Leaf e Mr Ellis, os árbitros que garantiram em 1962 que o Real Madrid não pisaria a sua sexta final europeia consecutiva numa meia-final histórica com o eterno rival.

O titulo europeu ganho numa final asfixiante com o melhor Arsenal europeu de sempre foi o primeiro de uma série de três em cinco anos, um feito apenas igualado por Real Madrid, Ajax, Bayern Munchen e Liverpool.

Em 2009, o primeiro ano do glorioso e fantástico Pep Team, os adeptos de futebol renderam-se ao magnifico jogo ofensivo de Xavi, Iniesta, Messi, Etoo e Henry, talvez a equipa mais atrevida e arrojada em largos anos no futebol europeu. Mas nem esse talento inegável e superlativo consegue explicar a anormal arbitragem de Tom Ovrebo, árbitro norueguês que conseguiu aguentar o resultado até ao fantástico remate de Iniesta. Pelo caminho ficaram por assinalar penaltys e expulsões. Apesar do génio desportivo, confirmado com uma grande final em Roma, a imagem desse duelo manchou a vitória mais saborosa de Guardiola. Por essa altura o G14 tinha acabado, reformando-se na ECA, e a amizade entre Laporta e Platini era conhecida, aceite e incontestada por todos os presidentes dos principais clubes europeus, como confessou há semanas um dos vice-presidentes mais influentes do clube, Alfons Godaal,

Olhando para os três anos seguintes tem sido fácil perceber porquê.

Em 2009-10 os campeões europeus em titulo defrontaram o Internazionale nas meias-finais. Depois de uma derrota por 3-1 em San Siro, no jogo da segunda volta, o árbitro Frank de Bleckerck conseguiu, como em 2006, ver uma agressão de Thiago Motta a Sergio Busquets e reduziu o conjunto neruazzuri a 10 homens com meia hora de jogo. Foi insuficiente. Não o seria no ano seguinte com Robie van Persie primeiro, expulso cirurgicamente por rematar uma bola depois do árbitro Massimo Busacca ter apitado um fora-de-jogo. Não o seria na meia-final em Madrid com o árbitro Wolfgan Stark a expulsar Pepe depois de um lance dividido com Dani Alves como não seria no jogo da segunda mão quando Gonzalo Higuain marcou para o Real Madrid, apenas para o golo ser anulado por uma falta fantasma de Cristiano Ronaldo sobre Gerard Pique, pelo amigo do costume, o belga De Bleckerck agora elegido pela FIFA para coordenar a sua exclusiva comissão arbitral num braço da organização dirigido pelo espanhol Angel Maria Villar.

A polémica arbitragem no último duelo com o AC Milan foi apenas mais um exemplo para uma longa galeria de amigos que aparecem sempre na hora H. Dois penaltys inexplicáveis, cartões cirúrgicos e um longo sorriso que relembrou aos mais atentos que este mesmo árbitro tinha estado presente no Mónaco, no jogo da Supertaça Europeia frente ao FC Porto para garantir a enésima merecida vitória do Pep Team.

No primeiro lance, Leo Messi sofre falta clarissima de desastrado Antonini mas encontra-se em fora-de-jogo (a bola ressalta no italiano depois de um passe de Xavi o que invalida imediatamente o lance). No segundo, a bola nem sequer está em jogo quando Nesta agarra Busquets sendo depois agarrado por Puyol. O regulamento arbitral obriga o árbitro a interromper o lance e mandar repetir o canto. Kuipers optou pela decisão inédita na história da Champions League de apitar penalty. Um amigo aparece sempre quando é preciso.

 

A indiscutível qualidade futebolistica deste FC Barcelona transforma ainda mais esta profunda relação entre o clube blaugrana e a UEFA numa realidade complexa de analisar e que no futuro marcará seguramente a imagem fantástica de um projecto desportivo unico. Neste periodo de cinco anos sucederam-se duas das cinco melhores equipas da história do Barça. E no entanto, ao contrário dos principais triunfos de alguns dos seus mais simbólicos rivais, a sombra da UEFA nunca se fez sentir tanto por detrás do sucesso de um projecto desportivo como tem sucedido nos últimos cinco anos. Quando a genialidade futebolistica do Barcelona, uma equipa que vence sobretudo porque é a única no panorama internacional que não condiciona o seu jogo ao rival, mantendo-se fiel ao seu ideário, custe o que custar, não chega para resolver os maiores apertos, parece sempre que do outro lado da linha está um amigo pronto a solucionar os problemas. José Mourinho foi punido pela UEFA por denunciar uma realidade que é conhecida por todos os que vivem nos corredores do futebol e que não é inédita nem exclusiva ao FC Barcelona na história do futebol. Mas pensar que a história do futebol europeu dos últimos anos se tem feito apenas com o génio táctico de Josep Guardiola, os passes de régua e esquadro de Xavi e Iniesta e as genialidades de Lionel Messi é, sobretudo, pecar de inocência. E nos corredores do beautiful game a inocência paga-se caro e há muitos clubes da elite europeia que começam a dar-se conta dessa realidade e a sonhar com um projecto antigo.



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post

De filomeno a 7 de Julho de 2012 às 11:55
Ovebró, De Bleckerck, Busacca, Stark........¿Por qué?


De filomeno a 7 de Julho de 2012 às 11:57
fritz......?
paradas romero......


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