Domingo, 11 de Março de 2012

Cinco golos num jogo de futebol profissional é algo tão raro que qualquer que se atreva a lograr o feito tem, forçosamente, de ser aplaudido de pé. Quando o gesto se torna recorrente, aplaudir já não chega. Lionel Messi já está nessa lista de grandeza onde coabitam dezenas de magos deste jogo que é mais do que um desporto. Por momentos de absoluta simplicidade como os que destroçaram o Bayer Leverkusen. Por situações de extrema complexidade que ajudaram a construir a sua lenda. Messi tem méritos para sentir-se grande, mas para enquadrá-lo no último degrau olimpico é necessário contextualizar o seu jogo com o de aqueles que, quase unanimemente, por lá andam.

 

Qualquer lista é subjectiva e peca por injusta, seja o tema que for. Mas a consensualidade faz a história e se Alexandre, Júlio César e Napoleão têm mais prestigio que Alcibiades, Pompeu e Frederico é porque há mais gente – com ou sem justa causa – que os considera superior no seu mister. O futebol não escapa - como podia - a estes jogos de café e desde há trinta anos que há um poker de ases que parece ser inquestionável para uma grande maioria nem sempre silenciosa. Nos últimos anos a trajectória ascendente de Leo Messi fez recuperar esse debate que, de tempos a tempos, um jogador consegue despertar da letargia. O do quinto grande.

O curioso, nestas listas, é que o quarteto mais habitual e omnipresente não representa, apenas, o futebol como jogo. Para entrar no Olimpo não basta ter sido imensamente dotado, tremendamente decisivo, imperialmente triunfador. O talento, por si só, é pouco para establecer uma linha difusa entre o grande e o imenso. Falta algo mais, algo profundamente anacrónico e que só se entende quando se consegue dar um passo para trás e analisar o contexto de aparecimento e consolidação do jogador no tempo cronológico e no espaço geográfico, politico e socio-cultural. Uma lista de 100 jogadores tremendos é dificil de ser feita porque outras centenas ficarão de fora e a diferença entre uns e outros não é, manifestamente, significativa. Mas muito poucos foram os que souberam levar o jogo para fora do relvado e transformá-lo noutra dimensão. Foi, sobretudo, essa realidade, que definiu esse poker consensual e é essa realidade que impede a Lionel Messi de ambicionar juntar-se a essa elite. Messi tem a grandeza dos maiores, de isso há poucas dúvidas. Mas não tem essa bagagem moral que lhe permite escancarar as portas da eternidade como antes dele não tiveram Ronaldinho, Zidane, Ronaldo, Rivaldo, Bergkamp, Cantona, Baggio, van Basten ou Gullit, para citar apenas os maestros das duas últimas décadas.

 

Di Stefano, Pelé, Cruyff e Maradona.

O que os define? O que os une? O que faz de cada um destes quatro génios seres especiais, referenciais incontornáveis, nomes indisputados. Sobretudo a contextualização da sua genialidade no tempo e a forma como marcaram o mundo que os rodeava. Nesta era de twitter e facebook, de ipads e low-cost, Messi encanta, mas não aporta nada de novo. Nem definiu a sua profissão como Pelé. Nem é um lider espiritual como Cruyff. Nem um maverick solitário como Maradona. E muito menos o jogador completo que foi Di Stefano. Tal como Garrincha, Charlton, Beckenbauer, Ronaldinho, van Basten, Ronaldo, Zidane, Platini, Kopa, Best, Sindelaar, Muller, Zico, Mathews, Hidgekuti, Mazolla, Rivera, Eusébio ou Puskas, ele é, sobretudo, um talento descomunal, um génio superlativo e um artista do impossível. Mas o que Messi faz hoje nem é inédito nem inovador e para entrar na história pela porta grande é preciso saber definir um antes e um depois.

Di Stefano foi o primeiro futebolista assumidamente total. Com o River Plate, Milionarios e, sobretudo, com o Real Madrid, ele transformou o papel da estrela em campo na de general. Ao contrário de Puskas – talvez mais dotado tecnicamente que ele – o argentino estava ao mesmo tempo em todo o lado. A equipa de mil estrelas respondia apenas ao som da sua voz. Di Stefano jogava onde queria e como queria, perdia-se como médio mais defensivo, surgia como criativo, rematava como falso nove e zarandeava as defesas nos sprints pelas laterais. Impossível de marcar, dificil de lidar, Di Stefano ajudou também a criar um mito, o do Real Madrid, e beneficiou, sobretudo, da televisão para distingui-lo com a sua pronunciada calvice, dos génios que o precederam e que o Mundo mal conseguiu vislumbrar.

Pelé, dentro de toda a sua genialidade, definiu o futebolista profissional contemporâneo e ajudou a definir a mitologia nacional brasileira. Ao contrário da maioria dos futebolistas, Pelé foi primeiro um idolo nacional e só depois um herói local. Quando em 1958 aterrou na Suécia ainda não era a máxima estrela do Santos mas os seus golos, principalmente na fase a eliminar, fizeram dele o principe do Brasil. Ultrapassou os seus problemas de adaptação e afastou-se dos fantasmas que destroçaram (e destroçariam) a maioria dos génios do Brasil adoptando uma vida imaculada onde a preparação fisica, mental e a gestão da imagem de marca se tornaram tão importantes como a própria bola. A marca Pelé ajudou a prolongar o mito muito depois das chuteiras terem deixado se calçar os pés do astro e o seu comportamento exemplar estableceu o padrão do futebolista de futuro.

Cruyff, Johan, foi o profeta que todo o desporto precisa. O holandês está para o futebol como Lennon está para a música contemporânea e há sempre um antes e um depois da sua mensagem de futebol absoluto, lucrativo e intelectual ter rasgado os relvados de Amesterdam. Que o holandês tenha sido o único dos quatro a brilhar como treinador (e só Pelé não o tentou) explica bem a forma como abordou o jogo. Numa era onde o profissionalismo começava a ser a nota dominante e o futebol total se vislumbrava, Cruyff soube conciliar ambos, transformou o génio numa forma de vida bem remunerada, mexeu com a consciência social de dois países, desafiou o monopólio das marcas desportivas e reensinou o mundo a olhar para o campo de jogo e a ver triângulos e diagonais onde antes apenas estava erva.

Maradona foi o seu oposto, o último potrero, o último dos romanticos. O único jogador capaz de ganhar as duas provas mais dificeis da sua época (o Mundial e a Serie A) só, com um bando de jogadores medianos e bem treinados atrás de si. Maradona desafia a táctica, o conceito colectivo de Cruyff e o profissionalismo de Pelé e sai a vencer em cada equação. Depois de ele nunca nenhum jogador foi grande sem estar envolvido num projecto de outras grandes individualidades, nem Ronaldo, nem Zidane, nem Ronaldinho, nem Messi.

 

Nada disso retira mérito ao génio de Messi que é, com Cristiano Ronaldo, o simbolo mediático desta nova década. Os seus números individuais e o projecto colectivo onde cresceu e se tornou parte nuclear são, por si só, história. A união do ideal potrero com a formação tecnocrática europeia é talvez única. Mas se já vi outros jogadores serpenterem, se já vi outros enganarem seis defesas, se já vi desafiarem números e estatisticas, como vejo regularmente a Messi, a verdade é que não vi ainda o astro argentino a romper com a ordem natural das coisas, a rasgar preconceitos e establecer tendências como lograram o poker de asas que muitos aprenderam a recitar de memória. 24 anos é idade mais do que suficiente para surpreender, mas para ser algo mais do que genialmente perfeito a Messi é necessário, mais do que ganhar um Mundial (Di Stefano e Cruyff também não o ganharam), romper com as verdades mais absolutas. Parece pouco, mas há uma lista de cem, como ele, que não chegaram lá...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:50 | link do post

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