Sábado, 17 de Março de 2012

Em 1996 a Premier League começava a despontar, a afastar-se da penumbra dos días de luto da First Division. Talvez nem os mais optimistas pensavam então no caracter singular e icónico que a prova teria uma década depois. Esse foi o último ano em que os ingleses não lograram colocar nenhuma equipa nos Quartos de Final da Champions League. O milagre de Ivanovic pode ter evitado que, 16 anos depois, o cenário se volte a repetir. Mas das sete equipas que começaram a temporada europeia só resta uma. E esta realidade não é nova. O modelo da competição e a saúde financeira e desportiva dos clubes da Velha Albion volta a estar no centro das atenções. A debacle anunciada transformou-se em realidade, os velhos fantasmas voltam a pairar pela Mancha...

 

O Blackburn Rovers de Dalglish, Sutton, Shearer e dos milhões de Jack Warner logrou o milagre em 1995.

A vitória na Premier League deveu-se mais ao hara-kiri desportivo do Manchester United, orfão do genial Eric Cantona a pagar as penas do seu mitico golpe de kung-fu, do que propriamente ao talento dos Rovers. O triunfo foi também o ocaso de uma era. Foi a última vez que um clube fora do binómio Manchester-Londres venceu um titulo. Foi também, de certa forma, o último suspiro da First Division onde equipas como Everton, Aston Villa, Nottingham Forrest e Derby County podiam bater o pé aos grandes. Na temporada seguinte os homens de Ewood Park lograram o ridiculo na Champions League, um quarto posto na fase de grupos com 4 pontos em seis jogos, num grupo onde estavam Spartak Moscow, Legia Warsow e Rosenborg. Foi o ocaso da velha Inglaterra, o final de um ciclo negativo que a partir do ano seguinte se iria começar a converter numa tendência positiva com as meias-finais logradas pelo Manchester United, equipa que venceria duas vezes a prova nos dez anos seguintes. Os Red Devils, mais do que qualquer equipa, simbolizaram a supremacia moral e real da Premier League sobre a decadente Serie A e uma La Liga demasiado pendente do duelo Barça-Madrid para crescer no escalão médio, onde a maioria dos clubes só conseguiam sobreviver com ajudas públicas. Dezasseis anos depois dessa data que muitos já tinham esquecido, o futebol inglês volta a ficar demasiado longe do máximo palco europeu. Das sete equipas que arrancaram a temporada europeia (Arsenal, Tottenham, Chelsea, Manchester United, Birmingham, Stoke e Manchester City), só os Blues lograram apurar-se para os Quartos de Final da sua respectiva competição (depois de despedir o treinador e obrar um verdadeiro milagre em Stanford Bridge). E o pior de tudo foi a imagem deixada com eliminações precoces primeiro (United, City, Tottenham) e com sérios correctivos no resultado e no jogo (Arsenal-Milan, United-Bilbao, City-Sporting). O mais curioso é que ninguém parece demasiado surpreendido.

 

Depois da final inglesa entre Manchester United e Chelsea, a tendência de supremacia da Premier começou a inverter-se na Champions League. Nesse ano tinham estado três equipas nas meias-finais. Em 2007 tinham sido três, e em 2006, 2005 e 2004 uma. Na temporada seguinte o Manchester United repetiu o lugar na final e voltaram a encontrar-se três equipas inglesas na fase prévia à final mas o triunfo do Barcelona anunciava uma nova era. Em 2010, pela primeira vez em sete temporadas, nenhum clube inglês esteve nas meias-finais da prova. Em 2011 foram apenas os Red Devils a chegar tão longe. Já ninguém falava de supremacia britânica.

Não eram só os grandes jogadores (Cristiano Ronaldo, Thierry Henry, Arjen Robben) que partiam. Não era só o descontrolo financeiro absoluto da maioria dos clubes, a falta de treinadores ingleses de nível, a clara baixa de qualidade nos niveis de excelência da formação local ou a sobrelotada presença de jogadores estrangeiros de segundo e terceiro nivel, bem diferente do que se viveu nos anos 90. Era algo mais do que isso, uma sensação que se podia palpar.

A eliminação dos dois gigantes ingleses na fase de grupos surpreendeu, mas confirmou essa tendência gritante. O Manchester City, apesar de todos os milhões invertidos, deixou claramente evidente a sua falta de estofo europeu ao cair diante de Bayern Munchen e Napoles. O United repetiu a péssima performance de 2006 e ficou de fora num grupo acessível mas que acabou por ser desprezado por Alex Ferguson até que já não havia volta a dar. O facto dos dois clube serem, ao mesmo, tempo os que dominam claramente a competição nacional explica o desfaze real que começa a existir entre a Premier de há meia dúzia de anos e a Premier League actual.

Na Europe League – competição onde nenhuma das equipas apostou forte e que nenhum clube inglês vence há mais de uma década – a imagem foi ainda mais penosa. O Manchester United sofreu demasiado contra o Ajax e foi futebolisticamente ridicularizado pelo jogo do Athletic Bilbao. Isto utilizando um 11 com a maioria dos seus jogadores titulares. O City eliminou o FC Porto, sofrendo no Dragão e rematando a eliminatória apenas nos dez minutos finais da segunda mão, mas foi incapaz de dobrar a raça e determinação do Sporting. Também neste duplo confronto Mancini usou cartas que valem milhões. O nivel máximo da Premier League é agora questionado por equipas que não lutam pelo titulo em Espanha, Portugal e Holanda e projectos desportivos constantemente questionados como o do AC Milan. Enquanto Espanha continua a demonstrar a sua força com as campanhas de Barcelona e Real Madrid na Champions e o trio Valencia-Atletico Madrid-Athletic Bilbao na Europe League, o fosso entre os conjuntos ingleses e os continentais começa a aumentar.

Apesar do sucesso económico da Premier League, a maioria dos clubes parece incapaz de competir com o poderio financeiro dos grandes clubes espanhóis. Cada vez menos os principais conjuntos da Premier conseguem atrair jogadores de top que joguem no continente (os casos de Hazard, Gotze, Sneijder, Forlan, Falcao, Neuer, Ribery são evidentes) e acabam por ver os orçamentos de transferências inflacionados pelas movimentações entre jogadores da própria liga ou compras realizadas directamente a ligas menores como a portuguesa, holandesa ou francesa. A qualidade dos planteis dos grandes clubes tem vindo a decrescer, os sucessivos empréstimos obtidos junto das entidades bancárias com juros cada vez maiores cercam as contas da maioria das instituições e os elevados preços das entradas começam a aumentar o fosso entre clubes e adeptos a números pré-Relatório Taylor. Uma encruzilhada que não deixa de ser acompanhada pela decadência de uma geração que foi vista por muitos como a “galinha dos ovos de ouro” do futebol inglês e a incapacidade de surgirem nomes com força suficiente para substituí-los. Ferdinand, Gerrard, Carragher, Terry, Lampard, Cole continuam a ser as figuras de referências locais já bem passados a casa dos 30.

 

Neste contexto parece evidente que a qualidade média do jogo da Premier League se transforma progressivamente numa tendência negativa a médio prazo. O imenso vazio entre os milhões de Manchester e os restantes clubes vai aumentando, a liga parte-se cada vez mais em três lotes (um segundo com Chelsea, Arsenal, Tottenham, Liverpool e um terceiro onde se incluem todos os outros) e nos palcos europeus essa crescente debilidade faz-se notar. Se é provável que nos próximos anos alguma equipa inglesa consiga colocar-se de novo numa final europeia, também é cada vez mais evidente que o seu papel hegemónico, como sucedeu com a Itália dos anos 90 e a Espanha do virar de século desapareceu por completo.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:53 | link do post

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