Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

poucos jogadores europeus com tamanha margem de progressão como Kevin de Bruyne e Xherdan Shaqiri. Não são apenas talentosos, jovens e extremamente bem sucedidos. Revelaram-se também surpreendentes exemplos de negócios em tempos de crise. Chelsea e Bayern Munchen mostraram o caminho e deixaram em evidência a habitual politica de desbarato de alguns dos clubes de top do futebol europeu. Dois cracks, uma forma de fazer negócios que entra em sintonia com os novos tempos.

 

Fábio Coentrão custou 30 milhões ao Real Madrid. Falcao custou 40 milhões ao Atlético de Madrid. Alexis Sanchez trouxe às arcas da Udinese cerca de 40 milhões, tanto como as movimentações de Fabregas ou Aguero. Negócios milionários num ano de crise economica crescente que transparecem bem a teoria de que muitos se valem para criticar o universo futebolistico. Sem dúvida há clubes que trabalham à margem da realidade. Com dinheiro emprestado, com dividas crescentes e pagamentos a prazo que muitas vezes se atrasam sucessivamente. Raros são os bons negócios, raros são os negócios realistas que capturam tanto a essência de uma politica desportiva sustentável como a dinâmica económica da actualidade. No meio desta troca constante de divisas por valores astronómicos que poucas vezes traz uma verdadeira rentabilidade a longo prazo, há sempre excepções. Sadias e esperançadoras excepções. Por cada Sanchez ou Coentrão existe um De Bruyne ou Shaqiri.

O potencial tanto do extremo belga como do craque suiço não está longe do que podemos imaginar com o defesa português e o dianteiro chileno. E no entanto Chelsea e Bayern pagaram a metade de Real Madrid e Barcelona pelos jogadores. Negócios rápidos, silenciosos e que se afastam cada vez mais da ideia mediática da contratação para a ergonomia sustentável de uma gestão quase empresarial que começa a tomar forma em Londres e que há muito faz escola em Munique. Se o Bayern é o exemplo perfeito de como um clube de futebol deve ser gerido, ao Chelsea há que reconhecer que, progressivamente, o clube vai dando passos similares nessa direcção e se afasta, cada vez mais, do fantasma milionário de Abramovich como bolsa sem fundo. De Bruyne e Shaquiri, como sucedeu com Lukaku, Mata, Oriol Romeu, Courtois, Boateng, Rafinha ou Luis Guztavo são espelhos de uma politica de contratação racional e profundamente orientadas para o futuro.

 

De Bruyne é o terceiro belga a aterrar em Stanford Bridge num ano.

Há muito que o Chelsea soube identificar no outro lado da Mancha um verdadeiro viveiro de talentos a que se podem incluir Hazard, Defour, Witsel e Verthogen. O extremo do Genk tem sido nos últimos anos uma das principais atrações da Jupiler League e apesar dos seus tenros 20 anos há muito que estava referenciado pelos clubes de top do futebol europeu. Em Brugge tentaram aguentar as investidas de Arsenal, Milan e Bayern mas acabaram por ceder aos argumentos do Chelsea. O clube londrino pagou a misera quantia de 9 milhões de euros por um jogador com um valor potencial de mercado capaz de rondar o triplo. O negócio não só garantiu ao clube inglês um substituo à altura para Kalou – de saída do clube – como ainda beneficiou o Genk que ficará com o jogador como empréstimo até ao final da temporada.

O mesmo acordo foi establecido entre Bayern Munchen e Basel FC.

É dificil encontrar um extremo tão entusiasmante na praça europeia nos últimos dois anos que Xherdan Shaqiri. Desde que brilhou com as cores helvéticas num Europeu de Sub-19, o extremo tem deixado a salivar os olheiros dos grandes nomes do Velho Continente. O seu clube de formação foi rejeitando ofertas tentadoras de Espanha e Inglaterra. Por detrás da decisão dos gestores do Basel estava a expectativa numa boa campanha europeia que se veio a concretizar. Shaqiri liderou o melhor Basel da história numa fase de apuramento empolgante que acabou com a eliminação do Manchester United, garantindo aos suiços a presença nos Oitavos de Final. Por 10 milhões de euros os bávaros garantiram a sua contratação para reforçar uma temivel linha ofensiva onde já estão Robben, Ribery, Muller, Kroos e Gomez. A capacidade técnico e a velocidade do suiço transformam-no obrigatoriamente numa das grandes sensações dos encarnados para a próxima temporada. O negócio entrou na dinâmica recente do Bayern, o único clube a conseguir um lucro no exercicio anual pelo 15 ano consecutivo, algo inédito na história de um desporto onde a maioria das instituições vive mergulhada em dividas.

 

Com estes dois negócios tanto Bayern Munchen como Chelsea não garantem apenas dois elementos que farão parte do futuro do futebol europeu a um baixissimo preço. Ambos clubes establecem uma linha de gestão económica que nos dias do Fair Play establecido pela UEFA deve marcar o futuro das negociações desportivas. Enquanto existirão sempre clubes dispostos a recorrer ao chamado “doping financeiro” e sem esquecer que o desnivel do mercado é real, negócios como este abrem uma esperança para um futuro mais sustentável, realista e ao mesmo tempo empolgante para o futebol europeu.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 20:13 | link do post | comentar

13 comentários:
De Apostas a 1 de Março de 2012 às 01:35
Concordo com tudo e poderia dizer tanto sobre os negócios feitos por baixo da mesa, interesses, desvirtuação do jogo... mas acrescentarei que no caso de alguns investimentos milionários vem também a questão comercial, merchandising, etc.. que dá dinheiro aos clubes e trás pessoas aos estádios, se compensa? não sei. :)

Dito isto... acho vergonhoso que se façam transferências destes valores para não falar dos ordenados dos jogadores com a agravante que podem escolher onde descontam.. se no seu país de origem ou no pais que jogam... uma imoralidade para todos aqueles que os vêem jogar.. mas pronto isso é outra história.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Março de 2012 às 09:09
Apostas,

30 milhões por Coentrão ou 40 milhões por Sanchez dificilmente trará ao Real Madrid e Barcelona o rendimento que falas que sim faz sentido em casos superlativos como o de Zidane, Figo ou Cristiano Ronaldo que sim rentabilizaram a nivel desportivo e financeiro. É muito raro que na alta roda os negócios sejam tão rentáveis como os que apontas.

Os casos de Shaqiri e De Bruyne são paradigmáticos porque espelham bem como dois clubes de top, com dinheiro para investir, começam a olhar para o mercado com olhos mais agudos em vez de gastar dinheiro que dificilmente receberão de volta.

um abraço


De PTM a 1 de Março de 2012 às 11:33
Miguel

apesar de não ter comentado ultimamente, tenho lido todos os últimos posts, que aproveito para dizer que aprendo imenso sobre futebol sempre que abro o teu blog.

já era para ter comentado no post sobre o Wenger e o Arsenal, que é o meu candidato crónico preferido. E o arsenal para mim só foi descoberto com Wenger e com a magia de Bergkamp.

Em relação aos novos mercados emergentes, é uma realidade que eu acho que vai tornar o futebol português muito muito difícil, e passo a explicar.

Portugal é campeonato vendedor, sempre será enquanto mantiver um liga com 10M de potenciais telespectadores (não achas que o futebol europeu está a caminhar para uma verdadeira liga europeia num futuro próximo? pelo menos dos campeonatos continentais?). O problema é que deixámos de ser um mercado de "bom negócio" para ser um negócio certo, uma vez que já ninguém dá 20M para ver se o jogador vai resultar.
Portugal nunca teve um conjunto de jogadores tão bons (quando é que no passado tivemos internacionais, no momento, de países como a Espanha, Argentina, Brasil, Holanda?) e tão caros?. Para além do facto de qualquer jogador que saia da formação ter um valor de "mercado" (vulgo adeptos) de 10 ou 20 M €. Os clubes já não têm jogadores de 5M ou menos para vender e quando têm rejeitam porque passa a ideia de vender barato ou mau negocio. Isto tudo para dizer que nós não temos capacidade para ter 3 clubes com planteis caros. Parece-me que o Sporting abdicou da estratégia Wenger e apostou todas as cartas na valorização de um plantel que depende de vitorias para poder dar o muito retorno que se quer. Eu acho que vai dar asneira e das graves.

Em relação ao Fair Play financeiro, acho que o problema não deve ser abordado pelo valor das transferências mas fazendo, como nos desportos americanos, um tecto salarial de modo a tornar mais homogéneo o valor global de um campeonato, que é isso que atrai espectadores. Eu não vejo nenhum jogo do campeonato espanhol para alem do real-barça porque não têm interesse para o desfecho do mesmo.

Uma nota curiosa em relação ao valor do futebol belga (já agora é jupiler league), para quem joga FM ou CM houve uma edição julgo a 01/02 que ficou famosa por ter uma serie de jogadores overrated que ficou conhecido pela greek squad uma vez que muitos jogadores gregos, desconhecidos então, davam grandes resultados, a verdade é que vieram a provar o seu valor em 2004. O mesmo se tem vindo a verificar com os jogadores belgas nestas ultimas edições, ao Hazard, Defour, Witsel, Verthogen, Lukaku junto o Courtois o Dembele aos valores seguros como Vermaelen e Kompany, a Bélgica tem tudo para surpreender o futebol europeu.


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Março de 2012 às 19:42
PTM,

É sempre bom ler as suas opiniões.

Começo pelo fim. Lembro-me bem dessa geração grega e mais tarde da geração nórdica que nunca se concretizou na realidade e os belgas vão pelo mesmo caminho. Têm alguns dos melhores jovens do mundo por posição (Guarda-redes, defesas centrais, laterais, médios centros, avançados, extremos) mas não têm espirito de equipa e um treinador, como foi Rehagel, que os mantenha unidos e disciplinados. É isso que lhe tem custado tantos dissabores porque uma equipa com todos esses jogadores mais os Alderweireld, Pocognoli, De Bruyne, Vossen e companhia merece algo mais do que tem tido.

O Fair Play financeiro vai ser, como seria de esperar, contornado por regras que permitem transferir dividas de um lado para o outro das contas e no final pouco vai mudar. Até 2015 os clubes não têm forçosamente que se preocupar e até lá mecanismos de superação vão ser encontrados. Mas a sustentabilidade de um projecto desportiva fora dos milhões árabes, russos ou asiáticos passa por negócios como estes.

Portugal abdicou da sua condição quando os clubes se entregaram aos fundos de negociação. Acabou a apostas na formação, acabou o comprar barato e vender caro, hoje os grandes pagam cada vez mais por jogadores com pouco valor de mercado que depois é dificil de escoar. Elias, Schaars, Cristian Rodriguez, Alex Sandro, Cardozo ou Nolito são jogadores com pouco mercado fora de Portugal, especialmente para clubes com bolsos grandes. Vão ser o espelho do imenso buraco financeiro em que vão ficando os grandes.

Quando se vendiam jogadores com salários baixos e custo zero em formação ou custo minimo em contratação, ou pela idade ou por virem de clubes lusos, eram só ganâncias. Hoje muitos dos melhores negócios dos grandes dão prejuizo.

um abraço


De Luis Damião a 13 de Março de 2012 às 11:41
Caro Miguel. Acho categóricamente que todos esses nomes que fala são optimos jogadores e grandes negócios, em especial os Belgas. Mas os jogadores pagos a preço excessivos vai continuar em especial nos clubes que tem que ganhar sempre. Nada vai mudar. O "melhor" Jogador Belga O Hazard vai sair para um grande clube e vai ser muito caro. O Neymar é muito caro. Em relação á formação em Portugal nos clubes que tem sempre que ganhar não tem tempo nem podem esperar por 3 miudos por época integrados 3 a 4 anos num plantel principal. O mesmo se passa com esses bons jogadores foram adquiridos e continuam a jogar nos seus clubes.


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Março de 2012 às 12:21
Luis,

Tens toda a razão, negócios loucos sempre haverá mas o que me surpreende, pela positiva, é que existam clubes grandes que começam a entender essa filosofia.

Presidentes populistas, clubes gastadores sempre existirão e haverá quem pague 100 milhões por Cristianos Ronaldo. Mas o caminho da sanidade financeira passa por negócios como este.

um abraço


De 1 a 1 de Março de 2012 às 12:36
Genk e não Brugge.


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Março de 2012 às 19:43
1,

Obrigado, corregido!


De Constantino a 1 de Março de 2012 às 14:41
Penso que, ao contrário do que é mundialmente aceite, o Bayern é de entre oa maiores clubes europeus um dos que mais racionalidade coloca nas suas contratações, talvez só superado pelo Man. United. Mesmo nas epocas de grandes vitorias, não se vislumbra nos planteis bávaros estrelas internacionais de 1ª água que tenham sido contratadas em troco de potes de ouro (com algumas excepções, claro). Tenho inclusive a ideia de que é um clube que faz um excelente aproveitamento dos seus escalões de formação. Aliás, sempre vi no Bayern uma qualidade que ainda hoje reconheço no Man United: a capacidade de retirar proveitos desportivos de jogadores de baixo nivel e que muito dificilmente teriam lugar em planteis de outros grandes europeus. O Man United tem o exemplo do O'shea, no Bayern poderemos falar de um Lell ou de um Otll, para não recuar muito no tempo. No meio disto tudo, talvez a carreira de Hargreaves seja a que mais sentido fez na historia recente do futbeol europeu. Circular entre Bayern e Man. United revelou um jogador coerente na escolha dos clubes.


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Março de 2012 às 19:45
Entre os principios dos anos 90 e a era Klinsmann houve uma etapa em que o Bayern perdeu esse racionalismo mas desde há seis anos para cá que a equipa voltou á sua velha politica e com grandes dividendos.

É um clube admirável na forma como é gerido, orquestrado e pensado, sem esquecer nunca o mais infimo detalhe.

Curiosamente Hargreaves passou a carreira no racionalismo de Bayern e United para acabar no despesismo supremo do City.

um abraço


De Apostas a 1 de Março de 2012 às 23:24
... inteiramente de acordo com o comentário feito ao meu post :)


De pedroto a 9 de Março de 2012 às 09:05
alexis tem 22 anos e, na minha opinião, é muito superior a shaquiri. o tempo dar-me-á, ou não. razão.


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Março de 2012 às 10:32
Pedroto,

Em causa não está só o talento, e Alexis é tremendo sem dúvida, está o dinheiro que se investe. Alexis custou quase 40 milhões ao Barcelona e Shaquiri quase um quarto ao Bayern. No terreno de jogo não vejo Alexis a ser quatro vezes melhor jogador que Shaquiri e só o facto de um clube como o Barcelona olhar de lado para as contas (e há um ano ameaçou com extinguir secções amadoras por falta de liquidez) por saber que tem crédito ilimitado, permite realizar um negócio assim.

Um abraço


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