O futebol espanhol vive a sua era mais dourada e a rapidez com que se descobrem novas pérolas no país vizinho há muito que se transformou num case-study profissional. Mas é em Lisboa que vive e deslumbra talvez o avançado espanhol com maior projecção futura. Rodrigo rompe as regras e desafia os cânones, une os dois lados do “charco” e, sobretudo, eleva o futebol à condição de arte imaculada.
Nelson Rodrigues, um dos mais certeiros filósofos futebolisticos brasileiros, explicava a facilidade que os seus conterrâneos tinham em controlar a bola com o fascinio brasileiro pela dança. Essa paixão pela herança negra da capoeira, pelo ritmo trepidante do samba metamorfoseou-se num futebolista incapaz de estar quieto, hábil de pés, rápido nos gestos e sublime no movimento. Essa escola centenário produz com espantosa regularidade novos talentos mas o traço distinctivo continua a ser o mesmo.
O que faz de Rodrigo um caso especial é que à sua herança genética brasileira, demasiado evidente na forma como encara o rival e pisa a bola, está também a sua formação europeia, a sua cultura colectiva à espanhola que aprendeu em Vigo e Madrid e que o transformam num jogador colectivo com rasgos individuais espantosos. Uma mistura sempre dificil de conseguir, especialmente nesta era de re-fordização do futebolista, e que o transforma ainda mais num caso raro. O papel de Rodrigo no terreno de jogo não se prende a nenhum dispositivo táctico. A sua facilidade de dar e receber permite-lhe mover-se com total liberdade pelo tapete verde sem sentir-se preso a nenhum esquema. Rápido, intuitivo e com um sentido posicional tremendo, a forma como encara a baliza é só uma consequência da sua maturidade como futebolista e não apenas a causa do seu sucesso. Os seus golos, tantas vezes espantosos pela sua audácia, transpiram o mesmo controlo interior com que trata cada lance, cada passe, cada corrida nunca dada por perdida. Nele vemos reflectido o espelho perdido da glória passada e a imagem do protótipo romântico do futuro.
O crescimento futebolistico de Rodrigo está associado ao do jovem Thiago Alcantara. Ambos aprenderam a caminhar e a dar os primeiros pontapés na bola juntos e durante anos foram parceiros inseparáveis nos niveis de formação do Celta de Vigo. Quando chegou a hora de decidir, Thiago preferiu migrar a La Masia. Rodrigo optou pela Fabrica de Valdebebas.
Desde então percebeu-se que a sua relação era a metáfora perfeita da forma como as canteras dos dois maiores clubes espanhóis são espelho da importância que estes dão à sua formação. Thiago foi mimado e educado para entrar na primeira equipa desde que começou a dar nas vistas na equipa juvenil. Rodrigo brilhou talvez mais ainda nas suas etapas de formação em Madrid. Mas nunca teve minutos nos séniores e foi despachado com surpreendente facilidade. O Benfica aproveitou o brinde (o mesmo sucedeu com Javi Garcia) e conseguiu o passe do dianteiro por uma infima parte do seu valor actual. Mas a adaptação não foi fácil e depois de um empréstimo pouco fructifero ao Bolton Wanderers muitos pareciam tentados a vender o jovem talento. Jorge Jesus acabou por inclui-lo no plantel e depois de um brilhante Mundial sub-20, o hispano-brasileiro deu-lhe razão. Apesar da explosão de Nolito, da classe de Gaitan e da preponderância de Aimar, o conjunto encarnado não tem um jogador nas suas filas com a mesma qualidade individual e potencial de crescimento como Rodrigo.
O seu papel na boa temporada do clube da Luz é inequivoco e a sua facilidade de associação com a linha avançada do meio-campo encarnado espelha bem a sua cuidada e esmerada formação na escola espanhola que tão bons jovens jogadores tem apresentado ao Mundo.
Parece evidente que o nivel de Rodrigo significa que dificilmente o Benfica o conseguirá segurar para o próximo ano. Em Espanha o seu nome começa a ser reclamado pela imprensa para La Roja e vários clubes de primeiro nivel europeu sonham com os seus serviços. A passagem por Portugal pode revelar-se curta, mas fundamental na sua afirmação profissional. O que parece evidente é que o futuro de Rodrigo, como o do seu amigo Thiago, não parece ter limites.

