Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

O Real Madrid deve toda a sua fama a um só jogo. O primeiro grande épico europeu visto maioritariamente por quem tinha televisor na Europa Ocidental à época. Sessenta anos depois, mais do que nunca, a mitologia futebolistica é definida inexoravelmente pelo poder da televisão e da curta memória que há se transformou no espelho desta sociedade.

 

Messi é o melhor jogador da história.

Pudera! Cada lance seu é visto em primeiro, segundo, terceiro plano, em movimento, em 3D, a cores e alta definição. Desliguemos agora o modo irónico antes que pensem que falamos a sério. O génio do argentino é único, mas o seu papel na história do jogo deve muito ao poder das novas tecnologias, da era dos twitters, facebooks, HDs e 3Ds.

A televisão, sempre a televisão, define os padrões de qualidade e superioridade de uns sobre os outros. A mitologia moderna não se baseia na palavra escrita ou perdida no tempo. É escrava da imagem. Messi é escravo da sua própria imagem da mesma forma que o Real Madrid ainda sobrevive no inconsciente humano pela força inequivoca das suas camisolas brancas brilhantes naquela tarde em Glasgow. A televisão provocou um antes e depois na sociedade ocidental e o futebol como espelho perfeito do mundo em mutação viu-se inevitavelmente presa à mesma realidade. A memória deixou de fazer sentido se não for acompanhada de um clip de video subido ao You Tube. Hoje não há ninguém que escreva sobre futebol que não se limite a repetir a mesma ladainha que foi vendida com imagens coladas à lapela. Pelé, Maradona, Cruyff e Di Stefano, o quarteto imenso. Real Madrid, Ajax, Liverpool, Milan, Manchester United e Barcelona, as seis equipas mais emblemáticas nos últimos 60 anos. Consequências directas da popularização do espectro televisivo. A memória deixou de ser algo valorizável. Quem a tinha e quem presenciou outros tempos foi morrendo e o seu testemunho recolhido por uma infinita minoria, ostracizada por aqueles que se agarram à imagem como um jesuita à cruz. Os mitos do passado não televisado deixaram de existir, a história foi despromovida à condição de anedoctário e os heróis a cores suplantaram os a preto e branco da mesma forma que os Messi a 3D parecem mais que os Maradona de planos únicos de camara.

 

Alfredo Di Stefano, génio que chegou ao final da sua carreira quando a televisão estava apenas a dar os primeiros passos, entrou nesse top 4 quase como por gesto de condescendência.

Nenhum jovem de menos de 40 o cita sem ser por pura imitação snob e pretenciosa e nem mesmo Messi ou Maradona, seus conterrâneos, o têm como referência. Nessa tarde ele manobrou à vontade, como sempre, o jogo colectivo do Real Madrid. Marcou um hat-trick (Puskas marcou um poker) e entrou nesse imaginário televisado por pouco. Quem o viu jogar diz dele maravilhas que nem as imagens seriam suficientes para ilustrar vários clips de best of, desses que fizeram das corridas de Ronaldo, das roletas de Zidane, dos bailados de van Basten ou os remates de Cristiano Ronaldo, imagens de marca internacionais. O hispano-argentino, pouco dado a falsas modéstias, no entanto sempre defendeu que ele nunca foi tão bom como Pedernera e Labruna, os mentores de La Maquina, da qual restam poucas imagens em video. Outros sobreviventes de eras pretéritas falaram da aura de grandeza de Sindelaar, Meazza, Friedenreich, Piola, Finney e Hidegkuti como génio tão brilhantes como os Cruyff, Baggio, Romários, Keegans e van Basten que se seguiram. Mas sem video ninguém acredita que o génio fosse algo real quando os relatos radiofónicos ainda eram a excepção, e não a regra. O futebol homérico, inspirado em descrições e metáforas mitológicas, para a maioria dos espectadores e analistas actuais é puro folclore. Não conta, não existe, não faz sentido.

 

Esses são os mesmos que vivem sem entender que o impacto do Brasil de 70 deve-se tanto ao génio dos seus jogadores como ao facto da camisola amarela estridente ter sido vista, pela primeira vez, em televisores a cores, debaixo do calor asfixiante do meio-dia mexicano. Os mesmos que exaltam o presente e votam no “flavour of the month” por cima de nomes ilustres que nunca viram ou quiseram ver. Os que reduzem a mitologia futebolistica ao poder da televisão e esquecem-se de que o jogo já era centenário quando os aparelhos começaram a invadir os lares da Europa. Acreditar que o génio, a arte, o talento só existem porque passou na televisão é tão néscio como pensar que qualquer tempo pretérito é melhor que o actual. Entre esses dois mundos, essas duas filosofias, encontraremos certamente a virtude. O problema é que muito poucos se dão realmente ao trabalho de a procurar.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 15:25 | link do post | comentar

10 comentários:
De Apostas a 16 de Fevereiro de 2012 às 15:56
Fantástico texto.. eu nasci nesta época de evolução tecnológica louca, não serei hipócrita em dizer que não gosto da mesma mas concordo que se tenha perdido muita mística no futebol..

é como a questão Messi referida.. tantos outros fabulosos jogadores não referidos de forma apropriada na história do futebol.. é uma pena.

Continuação de excelente trabalho.


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Fevereiro de 2012 às 11:26
Apostas,

Obrigado.

Efectivamente a imagem tem um poder inquestionável e quanto mais depressa o mundo da tecnologia avança mais primitivo nos parece o passado. E cria-se uma corrente de pensamento que alinha na teoria de que se tudo é melhor que o passado então tudo o que se faz hoje também o é, logo Kaká é melhor forçosamente que Netzer, Casillas muito superior a Iribar ou Messi superlativo diante de Pelé.

Essa doença de falta de sentido histórico faria de Alexandre, Julio César e Napoleão anões em comparação com o General Petreaus americano ou com o chefe de manobras local do exército chinês. Não há que minorar o presente para exaltar só o passado mas essa ideia de que o agora supera sempre o ontem só tem contribuido para destruir a própria mitologia do futebol.

um abraço


De Apostas a 17 de Fevereiro de 2012 às 16:27
Fantástica analogia

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Fantástica analogia

<<Essa doença de falta de sentido histórico faria de Alexandre, Julio César e Napoleão anões em comparação com o General Petreaus americano ou com o chefe de manobras local do exército chinês. >>

é exactamente a forma como penso.. continuação de excelente trabalho.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Fevereiro de 2012 às 19:21
Apostas,

Obrigado ;-)

um abraço


De jaques a 19 de Fevereiro de 2012 às 20:19
Grande texto de um jovem que, pela sua condição, contraria o que teoriza!

Você é jovem e não embarca na vonversa dos "melhores de sempre" por antecipação...

A televisão é ao mesmo tempo a maior aliada e a maior inimiga do futebol moderno: repete grandes golos, mas também repete erros e faltas gravíssimas.

As virtudes e os defeitos são ampliados e rapidamente esquecidos e ultrapassados pela voragem dos acontecimentos. Mas as imagens não mentem.

Os mil golos de Friedenreich e de Pelé não foram contestados por ninguém mas eram tão falsos como os de Romário.

Os de Messi são analisados à lupa por milhões em todo o mundo e não se contabilizam jogos particulares ou camadas jovens...

O futebol é incomparável nos seus diversos períodos, mas temos de concordar que futebolistas campeões do mundo alcançaram por mérito próprio um reconhecimento que os seus antepassados, presos num futebol sem repercussão global, nunca tiveram a oportunidade de obter.



De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Fevereiro de 2012 às 08:52
Jacques,

O moderno é sempre mais apelativo e a imagem tem uma força tremenda. Ninguém deve questionar o mérito dos jogadores actuais, apenas relativizar a sua importância no contexto histórico de um jogo que tem 150 anos e muitos heróis, uns escritos a papel, outros filmados a preto e branco, uns a cores difusas e agora uns quantos em 3D.

Um abraço


De jaques a 20 de Fevereiro de 2012 às 11:23
Concordo plenamente. Só é pena que haja tantos com vistas tão curtas num tempo de pantalhas tão largas...


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Fevereiro de 2012 às 11:37
Jacques,

Saber preservar a memória é das poucas coisas que o Ser Humano não pode abdicar nunca. No futebol, como em tantos outros aspectos da era moderna, há muito poucos que se dedicam a isso lamentavelmente.

um abraço


De filomeno a 28 de Fevereiro de 2012 às 10:09
Golo de Calcanhar de Cristiano Ronaldo, Talonazo al estilo de Don Alfredo di Stéfano en homenaje a Pahiño......


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Março de 2012 às 09:11
Filomeno,

Golazo historico sin duda a relembrar otras epocas!


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