O futebol ensina-nos a amar o imponderável, o incerto, o surpreendente. Nas provas a eliminar, onde os orçamentos contam menos e a paixão vale mais, de tempos a tempos apaixonamo-nos uma vez mais, sempre uma vez mais. Miranda de Ebro tem o coração de Espanha, o coração de um futebol que não acredita apenas em estatisticas, números e que vive do sonho e da incerteza. No final a derrota espelha a inevitabilidade, mas a eliminatória convida a amar, só mais uma vez, o imponderável de uma bola redonda à solta num tapete voador imaginário.
Há só uma hora de distância entre ambas ciudades, mas podia bem ser um Mundo.
Nada parece unir a cosmopolita Bilbao com a pequena Miranda de Ebro. A cidade burgalense tem tudo para encarnar o velho ideario español de pueblo. Não tem mais de 40 mil habitantes, uma pequena amostra de indústria local, meia dúzia de serviços e as lembranças de um passado heroico nos dias pretéritos da Reconquista. A equipa, absolutamente amadora, pugna na II Divisão entre campos diminutos, viagens que se eternizam em autocarro por essa cordilheira norte que rasga a Peninsula e uma ilusão tremenda de sonhar com a inesperada promoção. Todos conhecem as suas limitações, todos sabem o que valem e, no entanto, e isso é futebol, todos provaram na pele o que é contrariar as expectativas. A equipa chegou atè às meias-finais da Copa del Rey, um feito que não se vivia há várias décadas e que espelha o profundo afastamento entre os 40 clubes profissionais e as restantes formações que completam o mapa do futebol espanhol. E chegou depois de bater-se contra os seus, as equipas pequenas que se vão degladiando até à entrada dos gigantes. Mas, sobretudo, depois de acabarem com os legitimos sonhos e aspirações de três primodivisionários. A giria chama-lhes tomba-gigantes, os adeptos de Villareal, Santander e Espanyol conhecem-nos melhor como pesadelos.
Claro que o futebol não é Hollywood e as histórias de final feliz escasseiam tanto que já ninguém acredita nelas.
O duro golpe da realidade estava para chegar. Na proximidade de uma hora em autocarro, em plena catedral de San Mamés. O Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa venceu a eliminatória ao modesto Mirandês porque soube respeitar o imponderável, entendeu que os nomes não ganham jogos e apresentou-se com a profunda reverência de quem vai disputar uma final europeia. Um respeito que dá mais valor ainda à gesta mirandesa e que está muito para lá dos números (1-2 na primeira mão, 6-2 ontem na “Catedral” basca). O rei de copas, a par do Barcelona, jogou o melhor que sabe jogar e que é muito. O Mirandês entrou em campo lembrando talvez o velho espirito do amadorismo britânico, o reflexo presente do imaginário que deixou na sua época a caminhada tranquila dos Corinthians. Abdicou do seu equipamento histórico, rojillo, por uma camisola idealizada pelo seu treinador, o entranhável Carlos Pouso, ferveroso admirador do Borussia Dortmund. Encarou o duelo como uma paixão, sem sentir-se preso a contratos publicitários, obrigações ideológicas e palavras de ordem. Jogou futebol pelo futebol, perdeu bem e saiu debaixo de um coro imenso de aplausos que vão demorar em esquecer.
Como sempre sucede, quando alguém tão pequeno surge numa festa reservada aos grandes, o nome fica. Fica como lembrança do que o futebol pode ser e tantas vezes não é. Fica como o perfume do tapete verde e o cheiro a suor de um balneário humilde muito para lá das conferências de imprensa cheias de flashes e o cheiro a desodorizante de estrela.
Com a derrota o Mirandês conseguiu a glória eterna da memória, algo que muitos aprenderam a valorizar mais ainda que a certeza humana do metal. Para eles a final foi ontem, para o Bilbao a 36 da sua história será em Maio. Cada um tem o seu encontro com a glória. A uns coube desfrutar da essência do jogo, a outros tornarem-se reis de copas de Espanha. O futebol segue sempre por caminhos cruzados, mas, de vez em quando, lá se lembra de encontrar-se numa noite inesquecível.

