A invenção do futebol é um tema demasiado complexo para falar-se em verdades absolutas. Mas ninguém duvida que quem levou o beautiful game ao resto do mundo e o tornou no fenómeno sociológico de maior importância dos últimos 100 partiu da Grã-Bretanha. Em Those Feet o sociologo inglês David Winner analisa essa reinvenção, divulgação e os subsequentes traumas que o futebol deixou no universo britânico.
Não há qualquer ironia no titulo da obra. Nem no seu subtitulo na edição original, “A Sensual History of English Football”. Porque, como explica Winner, sensual e futebol inglês são conceitos que nunca funcionaram bem na mesma frase. E muito menos na mesma realidade. O estilo de escrita de Winner é sempre convincente.
O seu livro anterior, o brilhante Brilliant Orange, dedicado à sua profunda admiração pelo futebol holandês, ainda hoje é justamente considerado como um dos livros, que melhor souberam explorar as realidades paralelas que definem o jogo. Em Those Feet o autor aplica a mesma fórmula, mas, ao futebol inglês, aos traumas que levaram à sua origem e à incapacidade dos ingleses em evoluir com o tempo. Desde os dias em que o pontapé a uma bola redonda foi utilizado como uma arma de arremesso contra os medos victorianos da sexualidade juvenil, do seu apego à masturbação e os seus desvios homossexuais, até à profunda discriminação a que os profissionais do jogo foram votados, sendo obrigados a cobrar um salário minimo que os colocava na escala mais baixa da sociedade trabalhadora do Reino Unido. Winner explora essa idiossincrasia que distingue o estilo de jogo proletário do futebol inglês, sempre apoiado nesse ideário dos colégios de Oxbridge (Oxford, Cambridge, Eton) onde era a valentia e a coragem os aspectos mais valorizados, muito por cima da classe, do manejo da bola e da vontade por ganhar a qualquer custo.
Traçando paralelos com a cultura continental, Winner adentra-se na própria psique inglesa e nos imensos complexos de inferioridade que se foram formando ao longo dos anos com argentinos, italianos e alemães, carrascos habituais de um país que continua a jogar com o mesmo ideário romântico do entre-guerra e que se mostrou incapaz de tomar parte em alguma das grandes metamorfoses tácticos dos últimos 50 anos num papel de liderança. Those Feet é um magnifico pretexto para entender porque é que os ingleses falham como selecção nacional de forma recorrente nos grandes palcos ao mesmo tempo em que os seus clubes, mais abertos à influência continental que a cinzenta FA, conseguiram adaptar-se às evoluções do futebol continental.
Livro escrito de forma brilhantemente sedutora (e sensual), a leitura permite viajar por episódios pouco conhecidos, heróis anónimos que a história não quis recordar, passos fundamentais na popularização do jogo e, sobretudo, momentos que reforçam o imaginário dos bravos leões britânicos que ainda olham para o futebol como um reflexo da carga da brigada ligeira, muitas vezes infrutifera, mas sempre com a máxima honra!

